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Romeo and Juliet Na cidade de Verona, em pleno Renascimento, a paz é perturbada pelas rivalidades entre as casas dos Capuleto e dos Montecchio, que se envolvem constantemente em duelos, movidos por um inamovível mútuo ódio mortal. No entanto, numa visita, mascarado, a uma festa em casa dos Capuleto, Romeu (Leonard Whiting), o filho e herdeiro dos senhores Montecchio, apaixona-se pela jovem Julieta (Olivia Hussey), filha dos Capuleto. Sabendo-se inimigos mortais, Romeu e Julieta decidem viver o seu amor às escondidas, sendo casados em segredo pelo seu confessor, o Frei Lourenço (Robert Stephens). Mas, na cidade, os duelos continuam, e vão obrigar Romeu a ter de fugir, enquanto os senhores Capuleto tentam casar Julieta com o nobre Páris (Roberto Bisacco)

Análise:

Continuando um caminho que visava uma internacionalização, através de obras de grande apelo, Franco Zeffirelli permanecia em contacto com o seu outro amor – o teatro – na adaptação ao cinema de mais uma peça de Shakespeare, a famosa “Romeo e Julieta”. Numa co-produção italo-britânica, usando sobretudo actores anglo-saxónicos, Zeffirelli surpreendeu ao entregar os papéis principais a dois jovens desconhecidos: Leonard Whiting (17 anos aquando das filmagens) e Olivia Hussey (16 anos), ambos com uma breve experiência de televisão. A razão estaria do seu lado, quando os viu ganhar os Globos de ouro de Melhor Actor e Actriz, respectivamente.

A história, já universal, é hoje bem conhecida. A Verona renascentista é ferida pelas rivalidades de duas casas, Capuleto e Montecchio, cujos elementos se envolvem em frequentes duelos, trazendo desordem e violência à cidade, e estando sob o olhar atento do Príncipe (Robert Stephens) que promete pesadas penas para quem perturbar a ordem. Alheio a isso, Romeu (Leonard Whiting), o único filho dos senhores Montecchio, vai, mascarado a uma festa em casa dos Capuleto, onde conhece e se apaixona pela jovem Julieta (Olivia Hussey), sem que ele saiba quem é, nem que está prometida a Páris (Roberto Bisacco), um amigo da família. Descobrindo depois quem os seus amados são, Romeu e Julieta maldizem a sua sorte, mas decidem ignorar conselhos paternos, e encontrar-se em segredo. Conseguindo a cumplicidade de Frei Lourenço (Milo O’Shea), os dois casam em segredo. Mas as rivalidades familiares voltam a surgir, numa disputa entre Teobaldo (Michael York) dos Capuleto, que desconfia da relação e procura Romeu, e Mercúcio (John McEnery), amigo deste. Na confusão que se segue, Teobaldo mata Mercúcio, e Romeu, em dor pela morte do amigo, confronta Teobaldo em duelo, matando-o também. É proferida a sentença de ostracização de Romeu, ao mesmo tempo que os Capuleto forçam o casamento de Julieta. Com a ajuda de Frei Lourenço, Julieta divisa um plano para se reencontrar com o seu amado, tomando uma poção que lhe simula a morte, levando a que a família deposite o seu corpo na cripta de família. Só que a mensagem a avisar Romeu não chega, e este pensa que Julieta morreu de facto, envenenado-se de dor. Quando Julieta acorda vê Romeu morto ao seu lado, e apunhala-se para morrer com ele.

Ao usar pela primeira vez actores cuja idade reflectia a dos personagens – Olivia Hussey já pisava os palcos desde os 13 anos, incluindo na peça de Shakespeare onde Zeffirelli a descobriu, enquanto Leonard Whiting (cujo papel terá sido pensado para o Beatle Paul McCartney), vindo do teatro musical, foi escolhido de entre 300 audições –, Zeffirelli conseguiu tocar as camadas mais jovens, transformando Shakespeare, de um autor de pesadas tragédias operáticas, num autor de um drama coming of age de conflito geracional, facto ainda mais realçado pela adaptação de Baz Luhrmann, “Romeo + Julieta” (Romeu + Juliet, 1996), com os também muito jovens Leonardo Di Caprio e Claire Danes, e que teve no filme de Zeffirelli a sua principal inspiração.

Símbolo do amor impossível, representando o golpe de rebeldia que o amor significa – unindo o que estava separado, e separando o que estava unido, como diz Alberoni –, “Romeu e Julieta” partiu da lenda grega “Píramo e Tisbe” (Shakespeare copiava frequentemente clássicos greco-romanos) para nos dar uma tragédia de dois amantes que lutam contra as suas famílias, e preferem morrer juntos depois de verem fracassar um plano tão arriscado quanto engenhoso (neste caso um artifício de uma morte fictícia, no caso grego o falso ataque de um leão). Ao recorrer a actores tão jovens, Zeffirelli marca a história com uma nítida inocência e doçura, não se negando a dar-nos a ver os corpos nus dos jovens, explicitando a consumação física do seu amor, como se esses bonitos momentos juntos fossem a consolação possível para a morte que se lhes seguiria, fazendo dela algo ainda mais doloroso para o espectador, como arquétipo romântico de um amor maior que a vida, de amantes que preferem manter-se puros nos seus ideiais, que continuar a viver sem poder atingir aquilo que mais desejam.

Quase tudo no filme de Zeffirelli gira em torno das interpretações de Leonard Whiting e Olivia Hussey, não apenas por os seus personagens serem os titulares da história, mas sobretudo porque os seus modos de estar e agir contagiam todo o filme. E estes são joviais, intempestivos, tímidos e alegres, com juventude e irreverência contida a transparecer em cada momento em que os vemos. Essa forma de actuar é transversal a todo o filme, com personagens alegres, saltitantes, jocosos, irreverentes, num dinamismo impetuoso – veja-se por exemplo a dinâmica dos duelos de Mercúcio, Teobaldo e Romeo e toda a coreografia entre eles e todos os companheiros que os seguem. Essa dinâmica, que já vinha, em parte, de “A Fera Amansada” (The Taming of the Shrew, 1967), troca o grotesco e barroco desse primeiro filme pela juventude e alegria deste segundo, trocando ainda um cenário que era todo filmado em estúdio por outro que, se usa ainda a Cinecittà como centro, faz uso também de vastos exteriores, para obter um cheiro de renascimento, entre ruas, muros praças, igrejas e cemitérios verdadeiros (filmados em Artena, Lucca, Pienza, Gubbio e Montagna, cidades da Toscânia, Úmbria e arredores de Roma).

Depois há os diálogos imortais de Shakespeare, que Zeffirelli sabe tratar com um misto de leveza graciosa e reverência moderada. Com o seu modo de contrastar interiores e exteriores, momentos de diálogos intensos com sequências de movimento e cor, o realizador italiano consegue sempre um registo vivo, aliando humor, drama e tensão. Todos os enquadramentos realçam a beleza, quer do cenário, quer a dos rostos, trazendo neles a doçura e inocência que fizeram de Whiting e Olivia dois actores celebrados. O texto sofre cortes, e não temos, por exemplo, o confronto entre Romeu e Páris, nem a cena em que Romeu compra o veneno, mas o argumento resulta, mantendo sempre a coesão e o ritmo.

Uma curiosidade extra foi a participação de Laurence Olivier – o mais famoso dos actores, e realizadores, de Shakespeare – que se encontrava em Itália a filmar e gravou as vozes do narrador, e a dobragem de Lorde Montecchio para inglês, participações pelas quais não foi creditado, por razões contratuais.

“Romeu e Julieta” foi um enorme sucesso junto do público, conseguindo críticas favoráveis, e vários prémios internacionais, como os supracitados Globos de Ouro a que juntou ainda o de Melhor Filme Estrangeiro. São ainda exemplos os dois Oscars (Melhor Fotografia e Melhor Guarda-roupa) de um total de quatro nomeações, sete nomeações aos BAFTA, onde venceria o galardão de Melhor Guarda-roupa, e o David di Donatello de Melhor Realizador para Zeffirelli.

O filme foi ainda imortalizado pela sua banda sonora, a cargo de Nino Rota, em particular pela canção “What Is a Youth?”, que resultaria na versão orquestral “Love Theme from Romeo and Juliet”, muitas vezes gravado e interpretado, sendo a versão instrumental mais conhecida, talvez a de Henry Mancini, e a cantada aquela posteriormente gravada por Luciano Pavarotti sob o título “Ai giochi addio” .

Olivia Hussey e Leonard Whiting em "Romeu e Julieta" (Romeo and Juliet, 1968), de Franco Zeffirelli

Produção:

Título original: Romeo and Juliet; Produção: BHE Films / Verona Produzione / Dino de Laurentiis Cinematografica; País: Reino Unido / Itália; Ano: 1968; Duração: 138 minutos; Distribuição: Paramount Pictures; Estreia: 4 de Março de 1968 (EUA), 5 de Fevereiro de 1969 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Franco Zeffirelli; Produção: Anthony Havelock-Allan, John Brabourne; Produtor Associado: Richard B. Goodwin; Argumento: Franco Brusati, Masolino D’Amico, Franco Zeffirelli [adaptado a partir da peça homónima de William Shakespeare]; Música: Nino Rota; Direcção Musical: Bruno Nicolai; Fotografia: Pasqualino De Santis [cor por Technicolor]; Montagem: Reginald Mills; Design de Produção: Lorenzo Mongiardino; Direcção Artística: Luciano Puccini, Emilio Carcano; Cenários: Christine Edzard; Figurinos: Danilo Donati; Caracterização: Mauro Gavazzi; Coreografia: Alberto Testa.

Elenco:

Leonard Whiting (Romeu), Olivia Hussey (Julieta), John McEnery (Mercúcio), Milo O’Shea (Frei Lourenço), Pat Heywood (A Ama), Robert Stephens (O Príncipe de Verona), Michael York (Teobaldo), Bruce Robinson (Benvólio), Paul Hardwick (Lorde Capuleto), Natasha Parry (Lady Capuleto), Antonio Pierfederici (Lorde Montecchio), Esmeralda Ruspoli (Lady Montecchio), Roberto Bisacco (Lorde Páris), Roy Holder (Pedro), Keith Skinner (Baltazar), Dyson Lovell (Sansão), Richard Warwick (Gregório), Roberto Antonelli (Abraão), Carlo Palmucci, Laurence Olivier (Voz do Narrador / Dobragem de voz de Lorde Montecchio) [não creditado].