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Universos Paralelos #02: O oeste operático de Sergio Leone

Segunda-feira, dia 19 de Janeiro, tem lugar, no podcast Segundo Take, o segundo Universos Paralelos da autoria de António Araújo (Segundo Take), José Carlos Maltez (A Janela Encantada) e Tomás Agostinho (Imaginauta).

O episódio será dedicado aos westerns de Sergio Leone, e poderá ser encontrado aqui:
podcast

 

O oeste operático de Sergio Leone

Se numa paisagem árida e poeirenta, evocativa do velho Oeste, vemos um pistoleiro de rosto encardido pela sujidade, cigarro ao canto da boca e um olhar impávido que enche o ecrã, que com a música de Ennio Morricone cria uma tensão exageradamente lenta, temos intuitivamente a ideia de estarmos a ver um western de Sergio Leone.

Sergio Leone

Sergio Leone é um nome que, com razão, todos associamos ao chamado western spaghetti, género com que atingiu notoriedade internacional, a ponto de hoje ser o realizador que mais facilmente o identifica. Mas não se pense que foi Leone quem criou o spaghetti, um dos muitos géneros que resultaram da presença norte-americana na Itália do pós-guerra, a qual trouxe não só soldados, mas toda uma cultura pop, onde não faltou o cinema.

Tudo começou no apelidado «Hollywood no Tibre», período dos anos 50 e 60 durante o qual as majors norte-americanas perceberam que lhes ficava bem mais em conta filmar em Itália, usando a qualidade dos estúdios da Cinecittà, técnicos e actores secundários italianos e cenários naturais que se prestavam a épicos dramas históricos. Esta fase teve início no sucesso estrondoso de “Quo Vadis?” (1951), de Mervyn LeRoy – que sedimentou o então popular sword and sandal –, e passou por filmes de outros géneros, como o célebre “Férias em Roma” (Roman Holiday, 1953) de William Wyler, filme de estreia de Audrey Hepburn.

O resultado foi não só a formação de técnicos e realizadores autóctones, que assim tinham contacto com o mais avançado material e escola norte-americana, como também criar no público uma predisposição para o cinema de género de Hollywood, do citado sword and sandal (que na Itália se chamou peplum) ao mais americano dos géneros, o western.

É sintomático vermos que Sergio Leone – nascido em Roma, em 1929, no seio de uma família ligada ao cinema, e entrado na Cinecittà como argumentista –, se estreou na realização num peplum, “O Colosso de Rodes” (Il colosso di Rodi, 1961), depois de ter completado “Os Últimos Dias de Pompeia” (Gli ultimi giorni di Pompei, 1959), por doença do realizador Mario Bonnard, e de ter trabalhado como assistente de realização de filmes como o citado “Quo Vadis?”, e o célebre “Ben-Hur” (1959), de William Wyler.

É nesta vaga que surge o primeiro eurowestern (ainda com capital norte-americano). Tratou-se de “O Sheriff e a Loira” (The Sheriff of Fractured Jaw, 1958), de Raoul Walsh – e onde a loira era a escultural Jane Mansfield –, que foi logo seguido de outros filmes parecidos, dando o molde ao filão que seria explorado a partir de Itália, e nesse país chamado western all’italiana. A ênfase era na paródia ao western clássico, tendo como modelo os filmes de Bob Hope. Mas tudo mudaria em 1964 com a estreia de “Por um Punhado de Dólares”, o primeiro western de Sergio Leone.

Baseado, sem o assumir, em “Yojimbo, o Invencível” (Yôjinbô, 1961), de Akira Kurosawa, o primeiro filme da chamada trilogia dos dólares, protagonizada pelo então quase desconhecido Clint Eastwood, funcionaria como que um refundador do género, levando-se a sério como cinema artístico, contrastando com as produções jocosas de baixo custo a que os eurowesterns se votavam até aí. Nele, Leone definia tudo o que marcaria o seu cinema daí em diante: o anti-herói de poucas palavras, numa ética muito própria e amoral; uma violência não vista nos westerns clássicos de Hollywood; um subtil comentário político e/ou social; o uso do grotesco na definição de personagens; e acima de tudo um jeito operático, lento, marcado pela grandeza da paisagem (filmada na região de Almería em Espanha) e a intensidade de close-ups extremos, onde a carismática música de Ennio Morricone pontua os momentos de tensão e a evolução narrativa.

Seguiram-se “Por mais alguns Dólares” (1965) e “O Bom, o Mau e o Vilão” (1966), com Clint Eastwood a contracenar com os norte-americanos Lee Van Cleef, Eli Wallach, e com os europeus Gian Maria Volontè e Klaus Kinski. Com estes filmes, Leone mostrava ser um caso à parte no domínio do western feito na Europa, na qual se viriam a produzir mais de 600 obras do género, por nomes como Sergio Corbucci, Sergio Sollima, Damiano Damiani, Giulio Petroni, Duccio Tessari, Enzo Barboni e Antonio Margheriti. Se o público pedia comédia, acção rápida e muitos tiroteios, Leone respondia com filmes cada vez mais lentos e longos, onde estética e ideias se impunham a acção e aventura. Para sempre, ficava a imagem de Clint Eastwood, com o seu pistoleiro ensimesmado, de gestos precisos, aliando cinismo frio e finíssimo humor negro, em três filmes que definem uma forma diferente de se pensar o western.

O sucesso destes filmes no mercado norte-americano foi tal que Leone foi convidado a atravessar o Atlântico. Com passagens pelo México e pelo Monument Valley, nos Estados Unidos, surgia a sua segunda trilogia, começada com o ainda mais operático “Aconteceu no Oeste” (1968), onde Leone trabalhava uma história de Dario Argento e Bernardo Bertolucci, com estrelas como Henry Fonda, Charles Bronson, Claudia Cardinale e Jason Robards, continuada com “Aguenta-te, Canalha!” (1971) (que esteve para se chamar “Era uma vez na Revolução”), com Rod Steiger e James Coburn, e terminada mais tarde, já fora do western, no filme de gangsters “Era uma vez na América” (Onde upon a Time in America, 1984), com Robert De Niro e James Woods.

Nesta altura, Sergio Leone já passara à produção de comédias ligeiras ao gosto do cinema comercial italiano. Foi, ainda assim, pelo western, que Leone começou, com dois veículos para a então estrela em ascensão, Terence Hill (nome artístico do actor italiano Mario Girotti, que ficaria conhecido pela série cómica Trinitá e pela sua parceria com Bud Spencer). Sempre com música de Ennio Morricone, eles foram “O Meu Nome é Ninguém” (1973), de Tonino Valerii, que trazia de volta Henry Fonda, num filme que alia o lado cabotino de Hill à estética de Leone (que dirigiu algumas sequências), e “Chamavam-lhe Génio” (1975), de Damiano Damiani, com Hill num personagem parecido ao anterior, já mais longe da estética de Leone.

Sergio Leone com Ennio Morricone

Sergio Leone morreu em 1989, com apenas 60 anos, vítima de problemas cardíacos, pouco depois de ter presidido ao júri da quadragésima quinta edição do Festival de Veneza e quando trabalhava ainda na produção de um filme há muito planeado, que se chamaria “Leninegrado: os 900 Dias”. Para trás, mais que uma obra curta, deixou um imaginário único e inesquecível, que marca todos os que alguma vez espreitaram o western feito em Itália. Viva, continua a sua influência, começada nas imitações italianas, e no revisionismo violento e niilístico de Sam Peckinpah, e continuada no revivalismo saudosista de Quentin Tarantino. A não esquecer, claro, está boa parte da carreira do próprio Clint Eastwood, que dedicou a Sergio Leone o seu magnum opus “Imperdoável” (Unforgivable, 1992).

José Carlos Maltez, Outubro 2017

Fontes primárias

Filmografia

  • Por um Punhado de Dólares (Per un pugno di dollari, 1964)
  • Por mais alguns Dólares (Per qualche dollaro in più 1965)
  • O Bom, o Mau e o Vilão (Il buono, il brutto, il cattivo 1966)
  • Aconteceu no Oeste (C’era una volta il West, 1968)
  • Aguenta-te, Canalha! (Giù la testa, 1971)
  • Meu Nome é Ninguém (Il mio nome è Nessuno, Tonino Valerii, 1973)
  • Chamavam-lhe Génio (Un genio, due compari, un pollo, Damiano Damiani, 1975)

Fontes secundárias

Bibliografia

  • Bondanella, P (2009) A History of Italian Cinema. London: Bloomsbury Academic.
  • Celli, C., Cottino-Jones, M. (2007) A New Guide to Italian Cinema. New York, NY: Palgrave McMillan.
  • Frayling, C. (2000) Sergio Leone: Something to Do with Death. London: Faber.

Documentários

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