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L'innocenteTullio Hermil (Giancarlo Giannini) é um aristocrata, frequentador dos melhor círculos da alta sociedade italiana do final do século XIX, que constantemente troca a esposa Giuliana (Laura Antonelli) pela amante Teresa Raffo (Jennifer O’Neill), a qual, com os seus fingidos ciúmes o manobra a seu gosto. Só quando Giuliana começa a mostrar interesses que a retiram de casa, Tullio começa a perceber que sente ciúmes, e se começa a interessar por ela, tentando pela primeira vez conquistá-la. Mas já poderá ser tarde, pois Giuliana deixou-se apaixonar pelo escritor romântico Filippo d’Arborio (Marc Porel), e guarda um segredo que pode terminar com o casamento.

Análise:

Com uma carreira como realizador iniciada em 1943, com “Obsessão” (Ossessione), Luchino Visconti dava-nos, em 1976, o seu último filme, depois de ter ajudado a fundar e definir o Neo-realismo no cinema, e de ter vindo a criar algumas das mais magníficas obras no que à opulência e barroco cinematográfico diz respeito. É a esta segunda fase que pertence “O Intruso” (uma triste tradução portuguesa do que deveria ter sido “O Inocente”), a partir do livro homónimo de Gabriele d’Annunzio – que Visconti adaptou com muita liberdade.

Na continuação da obra recente de Visconti, “O Intruso” é um conto de uma alta sociedade arcaica e retrógrada, na qual pontificam as aparências, os duplos padrões de género e as repressões sociais. Nela movimenta-se o predador que é Tullio Hermil (Giancarlo Giannini), um aristocrata, que não esconde da esposa Giuliana (Laura Antonelli) que tem uma amante, a desinibida Teresa Raffo (Jennifer O’Neill), que o manobra com os seus jogos de ciúmes para controlar se ele tem ou não sentimentos pela esposa. Giuliana aceita um marido que lhe diz que para ele ela é uma irmã, até ao momento em que uma estadia de amigos em casa lhe dá a conhecer o escritor Filippo d’Arborio (Marc Porel). Mas é quando Tullio começa a ser informado de idas e vindas misteriosas da esposa, que percebe que também ele sente ciúmes, e resolve procurá-la em casa de sua mãe (Marc Porel). Aí, e depois de terem feito amor pela primeira vez em muito tempo, Tullio acredita poder começar a amar Giuliana, mas esta responde-lhe com frieza, pois sem que ele saiba, está grávida do escritor. Quando Tullio sabe, e sobretudo porque entretanto chega a notícia da morte do escritor, perdoa a esposa, e presta-se a continuar o casamento, desde que ninguém saiba que o filho não é seu. Mas o nascimento do filho de Giuliana traz sentimentos contraditórios. Se a mãe parece não querer vê-lo, Tullio mostra uma estranha obsessão, que vai levar a que mate o bebé, na noite de Natal. Ao perceber, Giuliana diz que não lhe perdoa, pois só o tolerou e fingiu aceitar, para salvar o filho. Destroçado, Tullio volta para Teresa, que se ri dele, dizendo-lhe que por ele apenas já só sente pena. Em resposta, Tulio suicida-se.

Desta vez deixando de lado contextos épicos e históricos, em “O Intruso” Visconti dedicou-se a analisar algo mais concreto e ao mesmo tempo complexo: os sentimentos de uma relação. E fê-lo, novamente, perscrutando a alta sociedade, de uma aristocracia pesada e barroca (note-se como o filme se inicia com um recital de piano dado por uma princesa àqueles que vêm circular à sua volta em busca de uma bênção ou mercê), onde o duplo padrão é socialmente aceite, ao ponto de um homem poder ser visto com a sua amante, sem que isso seja reprovado, ou sinal de casamento em perigo. O homem é Tullio, que tem o desplante de racionalizar a situação com a esposa, explicando-se que a vê como irmã, e fazendo-a aceitar que tudo está bem assim. Claro que tudo muda quando ele desconfia de estar a ser traído. É só então que ele vê a esposa como mulher, e a deseja fisicamente. No fundo é essa perseguição que o move, e é desse modo que a amante (uma hábil jogadora, que se diverte com o poder de sedução que exerce sobre os homens) o manipulara até aí. Só que a gravidez inesperada tudo muda. Mais preocupado com a sua posição, o modo como é visto de fora e a constatação de que a esposa afinal pode amar outro, Tullio vai lutar pela relação de um modo desesperado e doentio, não percebendo que a conivência de Giuliana é puramente estratégica.

Deste modo, o que Visconti nos conta é que, se aparentemente o homem se sobrepõe à mulher, e pode tudo fazer, saindo incólume (social e judicialmente), como a morte do bebé o prova, ele não deixa de ser um brinquedo nas mãos das mulheres, que o vão usar e deixar quando lhes aprouver, fruto da sua superior inteligência e maior habilidade emocional.

Assim, há uma certa perversão ao vermos a história de um homem, que desde o primeiro momento identificamos como indigno, e que vai ver – sem dela se conseguir desenlaçar – tecer-se uma tragédia crescente, desde os desencontros com a amante e com a esposa (qual jogo que ping-pong) às tentativas de reiniciar o casamento, sofrimento com a gravidez da esposa, e desespero final.

Tudo isto, claro, na opulência dos palacetes aristocráticos, ricamente decorados, servidos por música clássica, e onde ninguém parece ter uma ocupação que não seja os serões da corte, prática de esgrima, passeios no campo e jantares elegantes. Aqui prestando maior atenção ao rosto, com close-ups dramáticos, e dando um maior lugar ao erotismo (com vários nus frontais e uma cena onde se vê Giancarlo Giannini a beijar todo o corpo de Laura Antonelli). Mantêm-se o gosto operático de Visconti – o filme pode ser visto como uma ópera –, e a continuação do dissecar das fraquezas humanas, o que o torna um filme pessimista de onde ninguém sai incólume, e onde a morte desempenha uma macabra atracção. Senão vejamos: Giuliana acaba a amar dois mortos (o escritor e o filho), Tullio procura o amor através do assassinato, e, por fim, é na morte de Tullio que se encontra a redenção final, e que Teresa terá percebido que foi longe demais.

“O Intruso” estreou em Cannes, e foi recebido com frieza. A escolha de D’Annunzio – um escritor ligado ao fascismo – não foi compreendida, nem o facto de Visconti ter deixado os seus temas mais filosóficos e introspectivos dos filmes anteriores, para o que foi descrito como uma simples novela de costumes, que retratava o século anterior. Outra razão poderá ter sido a escolha dos actores, com o muito duro e então pouco conhecido Giancarlo Giannini como protagonista, num papel para o qual Visconti tinha preferido Alain Delon e Ryan O’Neal, e a pouco expressiva Laura Antonelli a receber o papel que o realizador pensara para Romy Schneider ou Julie Christie.

O tempo viria a tratar melhor o filme, e hoje é considerado um digno final de carreira para um dos mais importantes nomes do cinema italiano.

Giancarlo Giannini e Laura Antonelli em "O Intruso" (L'innocente, 1976), de Luchino Visconti

Produção:

Título original: L’innocente; Produção: Rizzoli Film / Les Films Jacques Leitienne / Societe’ Imp. Ex. Ci. – Nizza / Francoriz Production S.A. – Parigi; Produtores Executivos: ; País: Itália / França; Ano: 1976; Duração: 124 minutos; Distribuição: Cineriz (Itália), Les Films Jacques Leitienne (França); Estreia: 15 de Maio de 1976 (Festival de Cannes, França), 9 de Setembro de 1976 (Itália), 14 de Janeiro de 1977 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Luchino Visconti; Produção: Giovanni Bertolucci (Rizzoli Film S.p.A.); Argumento: Suso Cecchi D’Amico, Enrico Medioli, Luchino Visconti [baseado no livro de Gabriele D’Annunzio]; Música: Franco Mannino; Fotografia: Pasqualino De Santis [filmado em Technovision, cor por Technovision]; Montagem: Ruggero Mastroianni; Design de Produção: Mario Garbuglia; Cenários: Carlo Gervasi; Figurinos: Piero Tosi; Caracterização: ; Direcção de Produção: Lucio Trentini.

Elenco:

Giancarlo Giannini (Tullio Hermil), Laura Antonelli (Giuliana Hermil), Jennifer O’Neill (Teresa Raffo), Rina Morelli (Mãe de Tullio), Massimo Girotti (Conde Stefano Egano), Didier Haudepin (Federico Hermil), Marie Dubois (A Princesa), Roberta Paladini (Miss Elviretta), Claude Mann (O Príncipe), Marc Porel (Filippo d’Arborio), Philippe Hersent, Elvira Cortese, Siria Betti, Enzo Musumeci Greco (Mestre de Armas), Alessandra Vazzoler, Marina Pierro, Vittorio Zarfati, Alessandro Consorti, Filippo Perego, Margherita Horowitz, Riccardo Satta.

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