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Morte a Venezia Gustav Aschenbach (Dirk Bogarde) é um compositor moderno, que vem repousar em Veneza, abatido por insuficiências cardíacas e convulsões emocionais e profissionais. Num hotel de luxo, no Lido, Gustav passeia pelas salas do hotel, descansa na praia e observa os outros hóspedes vindo a alimentar uma cada vez maior atracção pelo jovem Tadzio (Björn Andrésen), de férias com a família, e que representa para Gustav o elusivo ideal de beleza que ele sempre procurou. Ao mesmo tempo uma epidemia de cólera grassa na cidade, mas os hóspedes do hotel são mantidos na ignorância, numa bolha protectora, de ócio e futilidade, sem consideração pelo que se passa no exterior.

Análise:

Continuando a sua série de contos de decadência das classes altas, e no segundo tomo da chamada Trilogia Alemã, Luchino Visconti deu-nos, em 1971, “Morte em Veneza”, uma co-produção italo-francesa, baseada na obra homónima do alemão Thomas Mann – que Visconti há algum tempo queria adaptar ao cinema –, e com Dirk Bogarde novamente no papel principal.

E ele é Gustav von Aschenbach, um compositor alemão, em convalescença, que vem retemperar forças em Veneza. Aí, Gustav instala-se no luxuoso Grand Hôtel des Bains, onde se vai dedicando a uma rotina ociosa entre as refeições do hotel, momentos de descanso na praia, e memórias do passado, que vemos em flashbacks de cenas familiares e debates sobre estética na arte e na sua música com o colega Alfred (Mark Burns). Enquanto isso, observa os outros hóspedes, todos eles pessoas de classe alta, provenientes de vários países europeus. Entre eles, Gustav repara no jovem polaco Tadzio (Björn Andrésen), que o impressiona pela sua beleza e jovialidade. A partir de então, Gustav vai procurando captar a atenção do rapaz, estando atento às suas actividades. Numa visita à cidade, Gustav começa a perceber que há uma quarentena, já que se teme uma epidemia de cólera, algo que é escondido dos hóspedes do hotel, mas que impede todos de partir. Gustav procura manter-se activo, tanto visitando um bordel, como depois rejuvenescendo a imagem, cortando e pintando o cabelo. Mas de volta à praia, enquanto troca olhares com Tadzio, na praia, Gustav morre de paragem cardíaca.

Mudando o protagonista de Thomas Mann de escritor em compositor (para mais facilmente usar a música para pontuar o dramatismo, ao invés do que Mann fazia com passagens da obra do seu protagonista), Luchino Visconti usou a música de Mahler – em particular o Adagietto da quinta sinfonia – para criar o clima de um romantismo pesado e trágico, em que envolve o seu protagonista.

Desse modo, “Morte em Veneza”, mais que uma tragédia anunciada (desde logo no próprio título), é um filme contemplativo (e note-se como até alguns dos flashbacks nos chegam sem som) onde grande parte da acção tem a ver com as observações de Gustav Aschenback, o modo como deambula pelo hotel, como vai até à praia, ou visita Veneza, imiscuindo-se nas festas de rua e na alta sociedade. Mas a contemplação de Gustav é, sobretudo, a busca da beleza, que encontra no jovem Tadzio, uma espécie de Adónis aos seus olhos, que o fascina, mas com quem não chega a trocar uma palavra, numa série de pequenos quase-encontros, e tímidos jogos de olhares. O platonismo da relação é evidenciado na cena final, onde ambos, à distância, fazem um gesto, que aparenta, na perspectiva criada pelos seus olhares, um toque de mãos, numa componente homossexual (tanto no olhar de desejo de Gustav, como no comportamento de Tadzio – que terá sido levado a frequentar clubes nocturnos gay, para se preparar para o papel) que é mais uma afirmação do próprio Visconti, homossexual assumido, e recorrendo a isso como recorrente forma de caracterização dos seus personagens.

Mais uma vez filmando em cenários faustosos, desta vez em língua inglesa, e agora sem uma mensagem política de base histórica, Visconti faz uma crítica da alta sociedade, ociosa, desligada da realidade, dada a prazeres fúteis, numa vida de decadente contemplação de si própria, sem querer saber do que se passa do lado de fora – a sujidade, a fealdade, a doença e o tal cheiro a podre, de que nos falam os personagens. A componente contemplativa é sobretudo mérito da lindíssima fotografia de Pasqualino De Santis, que constrói imagens de beleza pictórica com paisagens filmadas em estúdio, e uma profunda riqueza nos interiores, ajudada pela cenografia minuciosa de Ferdinando Scarfiotti.

Resta referir o próprio Dirk Bogarde, que Visconti escolheu para o papel quando trabalhou com ele em “Os Malditos” (La caduta degli dei/Gotterdamerung, 1963). A forma débil e serenamente resignada que nos dá a sentir parece ter sido criada para si, num papel para o qual foram considerados considered Burt Lancaster, Alec Guinness e John Gielgud.

“Morte em Veneza” foi premiado em Cannes, recebendo ainda quatro BAFTA (Direcção Artística, Fotografia, Guarda-roupa e Banda Sonora) e quatro Nastri d’Argento (Realizador, Design de Produção, Fotografia e Guarda-roupa), além de uma nomeação aos Oscars.

Dirk Bogarde e Björn Andrésen em "Morte em Veneza" (Morte a Venezia, 1971), de Luchino Visconti

Produção:

Título original: Morte a Venezia; Produção: Alfa Cinematografica / Warner Bros. / PECF; Produtor Executivo: Mario Gallo; Produtor Executivo Associado: Robert Gordon Edwards; País: Itália / França / EUA; Ano: 1971; Duração: 130 minutos; Distribuição: Dear International (Itália), Warner Bros.; Estreia: 1 de Março de 1971 (Reino Unido), 14 de Setembro de 1971 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Luchino Visconti; Produção: Luchino Visconti; Argumento: Luchino Visconti, Nicola Badalucco [baseado no romance “Der Tod in Venedig” de Thomas Mann]; Música: Gustav Mahler; Direcção Musical: Franco Mannino (Orchestra dell’Accademia Nazionale di Santa Cecilia); Fotografia: Pasqualino De Santis [filmado em Panavision, cor por Technicolor]; Montagem: Ruggero Mastroianni; Direcção Artística: Ferdinando Scarfiotti; Figurinos: Piero Tosi; Caracterização: Mario Di Salvio, Mauro Gavazzi, Goffredo Rocchetti (Miss Mangano); Direcção de Produção: Anna Davini.

Elenco:

Dirk Bogarde (Gustav von Aschenbach), Romolo Valli (Gerente do Hotel), Mark Burns (Alfred), Nora Ricci (Perceptora de Tadzio), Marisa Berenson (Frau von Aschenbach), Carole André (Esmeralda, Prostituta do Bordel), Björn Andrésen (Tadzio), Silvana Mangano (Mãe de Tadzio), Leslie French (Agente de Viagens), Franco Fabrizi (Barbeiro), Antonio Appicella (Vagabundo), Sergio Garfagnoli (Jaschu, Jovem Polaco), Ciro Cristofoletti (Empregado do Hotel), Luigi Battaglia (Chico-esperto), Dominique Darel (Turista Inglês)m Masha Predit (Turista Russo).