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La caduta degli deiEm 1933, enquanto o Reischtag arde, e Hitler toma poder absoluto da Alemanha, os Essenbeck, uma família aristocrática com fortuna feita na indústria siderúrgica e de armamento, assistem à passagem de testemunho, com o barão Joachim Von Essenbeck (Albrecht Schoenhals) a nomear o seu filho, e oficial das SA, Konstantin (Reinhard Kolldehoff), novo presidente, em detrimento do democrata Herbert Thallman (Umberto Orsini). Na sombra movimentam-se a filha Sophie (Ingrid Thulin) e o seu companheiro Friedrich Bruckmann (Dirk Bogarde), em conluio com as SS, representadas por Aschenbach (Helmut Griem), e nessa noite vão matar o velho barão incriminar Herbert, e manobrar o herdeiro Martin (Helmut Berger), o dissoluto e imaturo filho de Sophie, para fazer o que eles quiserem.

Análise:

Conhecido por, além do cinema, estar ligado às artes de palco, nomeadamente à ópera, não causará estranheza que Luchino Visconti tenha buscado nesta inspiração para um do seus filmes. Inspiração, entenda-se, de um ponto de vista irónico. É que, se o título original “La caduta degli dei / Götterdämmerung” (que em português foi traduzido como “Os Malditos” seguindo o inglês “The Damned”) remete imediatamente para a célebre ópera de Richard Wagner “O Crepúsculo dos Deuses”, por outro, o filme não trata de heróicas epopeias mitológicas germânicas, mas sim do estado da Alemanha nazi nos anos 30, durante a ascensão de Adolf Hitler. “Os Malditos” seria o primeiro filme da chamada Trilogia Alemã de Visconti, onde os seguintes seriam “Morte em Veneza” (Morte a Venezia, 1971) e “Luís da Baviera” (Ludwig, 1973), todos incidindo sobre histórias ou personagens alemãs, em grandes produções de cenários faustosos e atmosferas decadentes. A regra, para Visconti, seriam agora dispendiosas co-produções internacionais, com elencos contendo actores conhecidos de vários países.

Os malditos de que o título fala são, por um lado, toda a geração que permitiu o fenómeno nazi, por outro, a família Essenbeck, detentora de indústria pesada (e uma referência clara aos existentes industriais Krupp, forte apoio do regime de Hitler, e baseados em Essen), que vemos no início a celebrar mais um aniversário do velho patriarca, o barão Joachim Von Essenbeck (Albrecht Schoenhals). Serve o jantar para percebermos o pensamento de cada membro da família, e para o barão Joachim anunciar que passa a direcção da companhia ao filho Konstantin (Reinhard Kolldehoff), um declarado nazi, membro das SA, em detrimento de Herbert Thallman (Umberto Orsini), até aí o seu braço direito, mas um democrata que, por isso, pode ser sinónimo de possíveis más relações com o Estado. Em silêncio, expectante, fica a filha Sophie (Ingrid Thulin) e o seu companheiro Friedrich Bruckmann (Dirk Bogarde). Este, em conivência com o primo da família, e membro das SS, Aschenbach (Helmut Griem), nessa noite assassina o barão Joachim, e deixa pistas que incriminam Herbert, que tem de fugir nessa mesma noite, com as SS já prontas a entrar em casa. O herdeiro maioritário de Joachim é o neto Martin (Helmut Berger), jovem filho de Sophie, libertino, imaturo e de gostos decadentes, dominado pela mãe que o faz nomear Friedrich presidente da companhia. Mas quando o tio Joachim vai descobrir o suicídio de uma menina judia molestada sexualmente por Martin (que também molestava uma das filhas de Herbert), vai usar isso para manobrar Martin contra Friedrich e Sophie.

Quando Friedrich volta a pedir ajuda a Aschenbach este, por necessitar que o aço e armamento produzido pelos Essenbeck passem para as SS e não para as SA, exorta-o a livrar-se de Joachim, o que acontece na Noite das Facas Longas, com a purga ordenada por Hitler. Friedrich vem a ganhar a permissão para obter o nome Essenbeck e casar com Sophie, mas entretanto Martin, já dominado por Aschenbach, entra nas SS e começa a preparar-se para controlar a família, no seu ódio por Friedrich e relação de amor/ódio pela mãe, que os leva inclusivamente ao incesto, orquestra um casamento fantoche, a passagem de testemunho da companhia, e o suicídio de Friedrich e Sophie.

Num filme que começa numa festa familiar durante a qual sabemos que está ocorrer o incêndio do parlamento alemão (que Hitler usou como desculpa para uma purga politica e a tomada arbitrária do poder com o encerramento das instituições democráticas), Luchino Visconti lança-se a descrever os anos do nazismo que precederam o início da guerra, vistos pelos olhos de uma família de industriais de armamento e aço. É uma história de opulência aristocrática, lutas fratricidas, manipulações políticas, e comportamentos decadentes. Nela, o velho barão Joachim representa a velha aristocracia que irá dar lugar à nova ordem. Nesta emerge primeiro Konstantin, o bruto oficial das SA que, tal como elas, usou da força para impor uma agenda política até ser obsoleto e incómodo (tal como as SA o foram aos olhos de Hitler, que pretendia dar primazia ao exército, deixando de lado as tácticas caceteiras desta organização paramilitar, que foi chacinada na chamada Noite das Facas Longas, momento central do filme, onde os SA são mostrados em noites de bebida e orgias homossexuais). Eliminado Joachim, ascende Friedrich, representando o novo político oportunista, sem convicções que não sejam o seu próprio interesse pessoal, aliando-se às SS por pura conveniência. Por fim, sempre no jogo das SS, representadas por Aschenbach, emerge Martin, símbolo da nova geração, fruto da decadência dos novos tempos, que – por entre afectações e crises de insegurança – vemos dançar e cantar Marlene Dietrich como travesti, frequentar uma prostituta, molestar crianças, drogar-se e cometer incesto com a própria mãe. Essa insegurança e comportamentos condenáveis são explorados (pela mãe, pelo tio Konstantin, por Aschenbach) de modo a torná-lo no psicopata sanguinário, perfeitamente em sintonia com o nazismo, que ele no final diz já compreender. Pelo meio perdem-se Herbert, o democrata que tem de fugir, perdendo a mulher (Charlote Rampling) quando se lhe tenta juntar, e se entrega para salvar as filhas; Sophie, a mãe dominadora (que incentiva os comportamentos de Martin, num misto de indulgência e manipulação), que acaba catatónica depois de suplantada pelo filho; e Günther (Renaud Verley), o filho de Konstantin, e primo de Martin, o mais sensível da família, representando a humildade e decência, que apenas quer ser músico, e chora a morte dos seus entes queridos. O filme termina com o casamento de Friedrich e Sophie, como uma farsa de Martin, que os leva a suicidar-se no momento seguinte, herdando ele toda a companhia da família, que dirigirá para o esforço de guerra nazi.

Novamente filmando em cenários faustosos, numa atmosfera de consciencialização política de acordo com a sua sensibilidade própria, Visconti conta uma parábola de ascensão do nazismo, e do seu ADN, feito de decadência, ódio, oportunismos e sentimentos deslocados de amores e ódios como frutos de relacionamentos impuros e objectivos pérfidos, numa visão muito pessoal do autor. Algures entre Thomas Mann (Visconti disse-se inspirado por “Os Buddenbrook”) e Shakespeare, com o piscar de olhos à grandiosidade wagneriana (note-se como se canta Wagner no massacre da Noite das Facas Longas), Visconti nunca escamoteia o lado trágico operático que quer dar à sua obra, que é mais uma história de uma família em cisão, lutando com/contra a História que se vai escrevendo ao seu lado, um pouco como em “O Leopardo” (Il gattopardo, 1963). Com uma mise-en-scène a todos os níveis notável, e dinâmicas de personagens e narrativa provocadoras e cativantes, mais que uma saga familiar, “Os Malditos” tornou-se um filme inesquecível, colocado por muitos como um dos fundamentais do cinema europeu do século passado.

Com todas as imagens de decadência, desde a representação da maldade humana ligada ao nazismo, até à decadência social e moral, em que nos são dados a testemunhar assassinatos, drogas, incesto, pedofilia, homossexualidade, “Os Malditos” foi um sucesso junto de público e crítica, mesmo que com sequências censuradas nalguns mercados. O filme remete para outras representações da decadência e imoralidade nazi/fascista que o cinema italiano nos daria na década seguinte, em filmes de mais forte conteúdo sexual, como foram “O Porteiro da Noite” (Il portiere di notte, 1974), de Liliana Cavani e “Salò ou Os 120 Dias de Sodoma” (Salò o le 120 giornate di Sodoma, 1975),de Pier Paolo Pasolini, num maniqueísmo onde o mal nos chega como algo mitológico e absoluto.

O filme destaca-se ainda pela riqueza do seu elenco, onde estão a francesa Charlotte Rampling, o norte-americano Dirk Bogarde – que voltaria a trabalhar com Visconti em “Morte em Veneza”, e curiosamente contracenaria com Rampling no também italiano “O Porteiro da Noite” –, a sueca – habitual actriz de Bergman – Ingrid Thulin, e vários actores alemães (Helmut Griem, Helmut Berger, Reinhard Kolldehoff, Albrecht Schoenhals), com o mais proeminente italiano a ser Umberto Orsini, numa norma que se tornaria recorrente em Visconti, e que seria criticada na sua terra natal.

Ingrid Thulin e Dirk Bogarde em "Os Malditos" (La caduta degli dei (Götterdämmerung), 1969), de Luchino Visconti

Produção:

Título original: La caduta degli dei (Götterdämmerung) [título inglês: The Damned]; Produção: Praesidens-Pegaso Cinematografica / Italnoleggio Cinematografico (Roma) / Eichberg-Film GmbH (München); Produtor Executivo: Pietro Notarianni; País: Itália / RFA; Ano: 1969; Duração: 150 minutos; Distribuição: Italnoleggio Cinematografico (Itália), Warner Brothers/Seven Arts (EUA, França), Warner Bros. (RFA); Estreia: 2 de Octobro de 1969 (Bélgica), (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Luchino Visconti; Produção: Ever Haggiag, Alfred Levy; Produtor Associado: Attilio D’Onofrio; Argumento: Nicola Badalucco, Enrico Medioli, Luchino Visconti; Música: Maurice Jarre; Fotografia: Armando Nannuzzi, Pasqualino De Santis [cor por Eastmancolor]; Montagem: Ruggero Mastroianni; Design de Produção: Pasquale Romano; Cenários: Vincenzo Del Prato; Figurinos: Piero Tosi, Vera Marzot; Caracterização: Mauro Gavazzi; Efeitos Especiais: Aldo Gasparri [não creditado]; Direcção de Produção: Giuseppe Bordogni.

Elenco:

Dirk Bogarde (Friedrich Bruckmann), Ingrid Thulin (Baronesa Sophie Von Essenbeck), Helmut Griem (Aschenbach), Helmut Berger (Martin Von Essenbeck), Renaud Verley (Günther Von Essenbeck), Umberto Orsini (Herbert Thallman), Reinhard Kolldehoff [como René Koldehoff] (Barão Konstantin Von Essenbeck), Albrecht Schoenhals (Barão Joachim Von Essenbeck), Florinda Bolkan (Olga), Nora Ricci (Governante), Charlotte Rampling (Elisabeth Thallman), Irina Wanka (Lisa Keller), Karin Mittendorf (Thilde Thallman), Valentina Ricci (Erika Thalman), Wolfgang Hillinger (Janek), Bill Vanders (Chefe da Polícia), Howard Nelson Rubien (Reitor da Universidade), Werner Hasselmann (Oficial da Gestapo), Peter Dane (Empregado da Fábrica), Mark Salvage (Inspector da Polícia), Karl-Otto Alberty (Primeiro Oficial da Wehrmacht), John Frederick (Segundo Oficial da Wehrmacht), Richard Beach (Terceiro Oficial da Wehrmacht), Klaus Höhne (Primeiro Oficial S.A. Officer), Ernst Kühr (Segundo Oficial S.A.), Peter Brandt (Terceiro Oficial S.A.), Wolfgang Ehrlich (Miliciano S.A.), Ester Carloni [como Esterina Carloni] (Primeira Criada), Antonietta Fiorito (Segunda Criada), Jessica Dublin (Enfermeira), Luigi Vannucchi (dobragem de voz de Dirk Bogarde) [não creditado], Anna Miserocchi (dobragem de voz de Ingrid Thulin) [não creditada], Sergio Graziani (dobragem de voz de Helmut Griem) [não creditado], Giancarlo Giannini (dobragem de voz de Helmut Berger) [não creditado], Melina Martello (dobragem de voz de Charlotte Rampling) [não creditada].