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Imagem de "Viagem ao Outro Lado do Sol" (Journey to the Far Side of the Sun, 1969), de Robert Parrish

Mundos Paralelos

por Miguel Ferreira

autor do blogue Créditos Finais
co-autor do podcast Nas Nalgas do Mandarim

A minha mãe ia contar uma história. Eu ia nessa história, com ela. A uma escola nova, terra vizinha. Esperando, como se espera sempre em espaço novo, o maior grau de estranheza, estranheza fresca, por abrir. Mas ali, naquela manhã, o esquisito sabia a família: o edifício era igual ao que temos em casa, aquela escola era igual à minha, só que em azul. Trocaram o amarelo e encheram esta cabeça de um universo paralelo. Primeira vez que fiz tal viagem, tal embarque a um conceito com regras muito bem definidas: “Parallels”, um filme de 2015 diz cedo na voz de uma das suas personagens – não viajaste no tempo, o dia e a hora são exatamente os mesmos, só que estás noutra versão do planeta Terra. Imaginemos que agora, num outro mundo, um outro “eu” está a gatafunhar esta crónica, só que em vez de uma BiC azul usa uma BiC preta. Pequeninas, minúsculas, ligeiras diferenças até às brutais como este amontoado de palavras não existir ou eu nunca ter nascido. Ou ter nascido mas gostar muito do “Shakespeare in Love”, ou melhor não ter mesmo nascido. O filme, esse, é também um piloto de televisão, o que faz todo o sentido uma vez que foi – e ainda é – o pequeno ecrã a oferecer o espaço das possibilidades. Dezenas de episódios cobrem com muito mais facilidade as viagens que podemos fazer, as variações que queremos montar. Mundos infinitos que, numa premissa como “Parallels”, precisam de todas as hipóteses, até dar, até ser possível. “Sliders” foi dos exemplos mais claros e cristalinos deste conceito e mais recentemente “Fringe”, que elevava a fasquia para uma guerra entre mundos, com protagonistas e seus duplos a marcarem a memória recente. Como “Stranger Things” e o seu Mundo Invertido ou “Flash”, que é pau para toda a obra e para além dos paralelos tem os mundos criados por viagens no tempo. Fazer diferente, a causa efeito, fantasmas ontem, monstros hoje. Mas comecemos a bater à porta, não das projeções futuristas e inter-dimensionais de “Black Mirror” e “Dimension 404”, mas sim do guarda-roupa. Sim e passemos para o cinema, senão daqui a bocado começa a tocar a orquestra e eu tenho de me calar.

Imagem de "A Bússola Dourada" (The Golden Compass, 2007), de Chris Weitz

Outros Mundos

Início dos inícios. Um portal mais maroto, um armário, um buraco, túnel, o que der e vier, o que der para passar. Eu sei, a esta altura já estão todos com a arma carregada e a salivar pelo Super Mario Bros., com a sua dimensão onde os dinossauros nunca se extinguiram. Uma espécie de centro comercial esquisito, taciturno e peganhento com malta alagartada. E pessoal, eu também amo o Super Mário, Samantha Mathis é poster de parede, Dennis Hopper é o maior e há um momento em que eles cruzam os desentupidores. Mas, no que toca a outros mundos não posso deixar de colocar a minha alma ao ombro: “The Golden Compass”, que para além de ser a fantasia mais bonita da década anterior é também a mais esquecida, o que faz dela ainda mais bonita. Sem motor para sequela, e dizimada por outros mastodontes do género, esta estrela cadente caiu em parte incerta, mas fica a magia da velha infância. De algo tão rico que só vivendo, só indo ao mundo onde as almas se separam do corpo e existam na forma de animais.

Então e se…

A eterna questão que temos de levar todos os dias às cavalitas. Se por acaso eu tivesse ido ver “A Beautiful Mind” em vez do “Mulholland Dr.”, estaria aqui hoje? Teria cabelo preto? Continuaria com o blogue? Sim, sim e sim, mau exemplo, mas vocês perceberam a ideia. Sei que estão todos encegueirados e já com a canção dos Aqua na ponta da língua. Mas não, não, não, não vou escolher o “Sliding Doors”. Eu gosto, tem graça, a dicotomia do instante e depois a poesia de um final convergente. Ou de trabalharmos para tal. Como o “The Family Man”. Ou no oposto, virar para outro adeus: “Donnie Darko” e “The Butterfly Effect”. Todos exemplos desse grão que se desloca um bocadinho mais para a direita. Todos bem, mas hoje é “Mr. Nobody” a chegar ao cartaz, porque é a súmula perfeita de todas estas escolhas, porque as tem em simultâneo. Um choque de hipóteses, vidas, filhos, não filhos, mortes vida, tudo a acontecer perante os olhos como a tal questão, agora materializada. Ou seja, é possivelmente a obra que melhor ilustra – e se ela é bonita – esta canga. Porque não há um voltar atrás, mudar e regressar para algo vizinho: os caminhos paralelos existem apenas numa única estrada e é essa que temos de trilhar.

Brit Marling em "Outra Terra" (Another Earth, 2011), de Mike Cahill

Mas agora a sério

Esqueçamos outros mundos e hipóteses, até porque metade do estádio já está vazio, viemos aqui para dançar com os nossos duplos. Para amansar os puristas e dizer que sim: filmes de universos paralelos têm de ter os chamados doppelgangers, que, consultando uma Wikipédia mais marota, descubro serem “monstros ou seres fantásticos que têm o dom de representar uma cópia idêntica de uma pessoa”. Isto segundo uma lenda germânica. No “How I Met Your Mother” falavam disto. Ai série mais uma vez, bate na boca. E nada melhor para ilustrar o tema do que um filme – não malta não é o “One” do Jet Li – com o mesmo nome: “Doppelgänger” ou “Journey To The Far Side Of The Sun”. Nele dois astronautas viajam até um planeta igual ao nosso mas que está escondido pelo Sol. Está do outro lado do Sol. Lá descobrem uma Terra igual mas inversa, onde tudo é quase idêntico com pequenas diferenças. É ficção científica que respira, ainda com tempo dentro do seu tempo, dona de uma ideia certeira e seca. O espelho, o outro lado do espelho. E sem sair de lá, outra delícia, bem mais recente e com a minha atriz favorita. Não é, mas a sentença ganha logo corpo, como um bom vinho. Gosto muito pronto. Brit Marling e o seu “Another Earth”. Com um conceito muito idêntico ao de 69, aparece também outra Terra, ali, à mão de semear, mais bonita que a Lua. Simples, sóbrio, trabalha a ideia do arrependimento e de segundas chances, tendo o resto como pretexto. Não são assim os melhores devaneios do género. São de facto. Há essa necessidade de encolher e restringir, como um íman, como o espaço pessoal, finito na pele e nas ideias. E que melhor exemplo de escassez de recursos mas fartura de encanto que “Coherence”? Se há filme que inspira, governa, comanda o tema e o ciclo é este aqui. Em 90 minutos voltamos acreditar no impossível, no muito com nada, porque feitas as contas estamos a ver uma obra de meia dúzia de tostões e estamos de facto lá, em outras realidades. É essa inteligência e audácia – no conto de um grupo de amigos à mesa numa noite pautada pela passagem de um cometa – que hoje continua por bater. E o mais irónico de tudo, é que no mesmo ano saiu +1, que é, como é dissemos atrás: um doppelganger, dos pés à cabeça. Varia nos mecanismos – não é de todo tão inteligente e minimalista – carregando um pouco mais na violência, na repetição – à la “Triangle” – dando um passo em frente no modo como se encerra. Ainda assim, é mais um a adicionar ao carrinho que agora vai rumo à caixa. Agora vou rumo à caixa, na esperança de uma fila curta mas também com aquela expectativa latente de no outro lado do vidro estar a passear, com outro jornal e outro casaco, um gajo exatamente igual a mim.

Filmes escolhidos:
• “Viagem ao Outro Lado do Sol” (Journey to the Far Side of the Sun, 1969) – Robert Parrish
• “A Bússola Dourada” (The Golden Compass, 2007) – Chris Weitz
• “Sr. Ninguém” (Mr. Nobody, 2009) – Jaco Van Dormael
• “Outra Terra” (Another Earth, 2011) – Mike Cahill
• “Coherence” (2013) – James Ward Byrkit
• “+1” (2013) – Dennis Iliadis

Imagem de "+1" (2013), de Dennis Iliadis

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