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Rocco e i suoi fratelli Quando a mãe Parondi (Katina Paxinou) traz quatro dos seus filhos – Simone (Renato Salvatori), Rocco (Alain Delon), Ciro (Max Cartier) e Luca (Rocco Vidolazzi) – da provincial Lucânia, no Sul, para a industrializada Milão, no Norte, para se juntar ao filho mais velho, Vicenzo (Spiros Focás), imediatamente percebe que a grande cidade é um mundo novo cheio de perigos. Estes começam na dificuldade em encontrar uma casa que mantenha a família unida, a qual vai cedendo aos chamamentos, seja no jogo e bebida de Simone, ou na chegada da prostituta Nadia (Annie Girardot), que cedo vai começar a criar uma cisão entre este e o bem-intencionado Rocco.

Análise:

Um dos nomes fortes do Neo-realismo no cinema italiano, Luchino Visconti faria a partir dos anos 60 a transição para um cinema mais clássico, procurando maiores valores de produção, e uma base assente em grandes obras literárias. Foi o que aconteceu com “Rocco e os Seus Irmãos”, inspirado no livro “l ponte della Ghisolfa”, de Giovanni Testori, e cujo nome é a combinação do título de Thomas Mann “Joseph und seine Brüder” (“José e Seus Irmãos”, inspirado na história bíblica), com o nome do poeta italiano Rocco Scotellaro, autor de uma obra dedicada às condições sociais das classes baixas do seu país. O filme foi uma co-produção italo-francesa que trouxe para a sua produção nomes franceses como Alain Delon e Annie Girardot, com vozes dobradas, como aliás acontece com muitos dos actores, inclusivamente italianos.

“Rocco e os Seus Irmãos” é a história dos cinco irmãos Parondi, que dão nome aos cinco capítulos em que o filme se divide, embora cada capítulo não incida particularmente sobre o irmão que lhe dá nome, sendo todos uma continuação da história central, mesmo que mostrando um pouco do irmão que o denomina.

A história começa com a chegada a Milão da mãe Rosaria Parondi (Katina Paxinou), com quatro dos seus filhos, vindos do sul de Itália, onde recentemente enterraram o pai. Chegam no dia da festa de noivado do filho mais velho, Vicenzo (Spiros Focás), com Ginetta (Claudia Cardinale), mas sentindo-se a mais numa família que não conhece e numa classe social acima da sua, Rosaria logo arranja confusão com os anfitriões, a família é expulsa, e o noivado adiado. Vicenzo encontra um apartamento para a família e nele conhece Nadia (Annie Girardot), fugida do pai, e que se vem a saber, faz vida de prostituta. Influenciados pelas conversas de Nadia e pelo exemplo de Vicenzo, que foi pugilista mas abandonou esse desporto, os dois irmãos seguintes, Simone (Renato Salvatori) e Rocco (Alain Delon), tentam a sua sorte. Simone torna-se pugilista, mas Rocco prefere outro ofício, trabalhando numa lavandaria. Cedo Simone começa a ganhar dinheiro a sério, e gasta-o com Nadia, pensando num romance, que ela não corresponde. Entre combates, jogo e bebida, Simone começa a perder as estribeiras, roubando inclusivamente a patroa de Rocco, o que lhe vale o abandono por parte de Nadia.

Os anos passam, Vicenzo casou com Ginetta e têm um filho, Ciro (Max Cartier) consegue um trabalho na Alfa Romeo e está noivo, e Rocco vai cumprir o serviço militar em Bellagio, onde reencontra Nadia que estivera presa. Mais tarde, quando Rocco volta a Milão, procura Nadia e convence-a a mudar de vida. Esta, tocada pela bondade dele, apaixona-se, e os dois iniciam um relacionamento sério, até os amigos de Simone descobrirem e lhe contarem. Embora já tenham passado dois anos desde que a viu, Simone deixa o ciúme tornar-se em raiva e, com a ajuda dos amigos, cercam o casal, viola Nadia e espanca Rocco. No dia seguinte Rocco decide terminar a relação com Nadia, pois sente-se culpado pelas penas d Simone e entende que o irmão precisa mais dela. Quando Simone descobre, tenta a sua sorte, e consegue convencê-la a ficar consigo. Mas Nadia não é mais a mesma, despreza Simone e a família, estando sempre em litígio com a sogra, e levando Simone ao desespero do jogo para arranjar dinheiro. Quando as dívidas se tornam perigosas, Rocco é contactado e acossado a voltar aos ringues para lutar para pagar as dívidas de Simone.

Mas o sucesso de Rocco só aumenta o ciúme de Simone, e quando descobre que Nadia voltou à prostituição, num acesso de raiva, Simone mata-a, voltando a casa triste, ao ver toda a família reunida, e confessando a Rocco o seu crime. Este dispõe-se a perdoá-lo, mas é Ciro que não aguenta mais os crimes de Simone e vai à polícia denunciá-lo.

Tal como vinha acontecendo nas suas obras mais recentes, “Rocco e os Seus Irmãos” é, na carreira de Visconti, uma obra de charneira entre o Neo-realismo dos seus primeiros filmes, e um barroco épico dos filmes que se seguiriam. Se por um lado temos ainda a fotografia granulada a preto e branco, o uso de cenários naturais (quer exteriores, quer interiores), uma história que segue personagens de condição baixa, e uma temática que aborda os confrontos sociais numa Itália em transformação, e onde a luta por progresso e melhoria financeira está a par da descaracterização moral, por outro lado temos já uma maior dramatização de eventos e momentos, o uso de actores profissionais, e o estabelecimento de uma narrativa coesa, de elementos dramáticos em torno de uma epopeia familiar de estilo literário.

“Rocco e os Seus Irmãos” pode ainda ser visto como uma obra de crítica à evolução da sociedade italiana do pós-guerra quando se adivinha a recuperação económica. É o boom de que fala Ciro no final, ele que representa essa nova geração que, agora empregado da todo-poderosa Alfa Romeo, é símbolo de prosperidade a seguir pelos irmãos (por isso é aquele que corta laços emocionais e segue a via da justiça legal, ao denunciar o irmão Simone). Simone, por outro lado é o desajustado que é vítima das transformações demasiado rápidas. Perdido pelas tentações e pelo dinheiro fácil, é uma vítima da sociedade e suas solicitações (jogo, prostituição, fama, bebida). Entre eles está Rocco, que nunca perde os ideais, e tem apenas dois objectivos, salvar a família (em particular Simone, de quem ele assume sempre as culpas como suas) e poder voltar um dia à terra natal, num olhar para um passado mais simples, onde o bem e o mal eram mais facilmente distinguidos, e onde poderia voltar a recuperar a inocência da juventude, que a grande cidade lhe tira.

Por isso mesmo, “Rocco e os Seus Irmãos” é uma história que contrapõe os ideais simples de um povo tradicionalista às solicitações e ofertas da grande cidade, com promessas de progresso, riqueza, e vida de luxo. Essa cidade, devassa num sentido bíblico (e voltamos a lembra-nos do título do filme) é representada por Nadia, a predadora urbana, que vive à margem das leis, e cuja aura sedutora vai trazer a tragédia aos Parondi. Mas se Vicenzo e Ciro representam a adesão à nova Itália e seus ideais de progresso, numa classe média pequeno-burguesa que segue aquilo que lhe é ditada, e se Simone representa o falhanço em seguir os novos modelos, é ainda Rocco (e tal como ele, o pequeno Luca, que sem papel relevante no filme, nos é mostrado como um Rocco em potência) que representa uma via do meio, imune às tentações, apegado à família, sacrificando o seu amor só porque pensa que pode ajudar o irmão, herói do boxe sem o desejar, e sonhando poder voltar a casa na aldeia.

Análise social imbuída da crítica marxista de Visconti, “Rocco e os Seus Irmãos” foi bem recebido pelos sectores de esquerda que viram nele um retrato perfeito das suas ideias sobre o momento presente em Itália, nomeadamente a migração de sul para norte, a adaptação (ou falta dela) a novas realidades economico-sociais, o desenraizamento de uma parte da população para fazer face a novas realidades, e o papel do progresso e das novas exigências económicas no tecido social e tradicional italiano.

O filme foi ainda o primeiro grande sucesso comercial de Luchino Visconti, abrindo-lhe caminho para obras mais exigentes do ponto de vista de produção, como seriam os seus filmes seguintes, como ele obras operáticas, de grandes elencos, dramas maiores que a vida, cheios de momentos pungentes, servidos por bandas sonoras impressionantes, como a que aqui nos é trazida por Nino Rota, o habitual colaborador de Fellini, a qual terá cativado tanto Coppola que este o levou a musicar os seus filmes da saga “O Padrinho”.

Annie Girardot e Alain Delon em "Rocco e os Seus Irmãos" (Rocco e i suoi fratelli, 1960), de Luchino Visconti

Produção:

Título original: Rocco e i suoi fratelli; Produção: Titanus / Les Films Marceau; País: Itália / França; Ano: 1960; Duração: 209 minutos; Distribuição: Titanus Distribuzione (Itália), Marceau-Cocinor (França); Estreia: 6 de Setembro de 1960 (Festival de Veneza, Itália), 7 de Outubro de 1960 (Itália), 17 de Novembro de 1961 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Luchino Visconti; Produção: Goffredo Lombardo; História: Luchino Visconti, Suso Cecchi D’Amico, Vasco Pratolini [inspirado por episódios do livro “Il ponte della Ghisolfa” de Giovanni Testori]; Argumento: Suso Cecchi D’Amico, Pasquale Festa Campanile, Massimo Franciosa, Enrico Medioli, Luchino Visconti; Música: Nino Rota; Direcção Musical: Franco Ferrara; Fotografia: Giuseppe Rotunno [preto e branco]; Montagem: Mario Serandrei; Design de Produção: Mario Garbuglia; Figurinos: Piero Tosi; Caracterização: Giuseppe Banchelli; Direcção de Produção: Giuseppe Bordogni.

Elenco:

Alain Delon (Rocco Parondi), Renato Salvatori (Simone Parondi), Annie Girardot (Nadia), Katina Paxinou (Rosaria Parondi), Alessandra Panaro (Noiva de Ciro), Spiros Focás (Vincenzo Parondi), Max Cartier (Ciro Parondi), Corrado Pani (Ivo), Rocco Vidolazzi (Luca Parondi), Claudia Mori (Empregada na Lavandaria), Adriana Asti (Empregada na Lavandaria), Enzo Fiermonte (Pugilista), Nino Castelnuovo (Nino Rossi), Rosario Borelli (Um Jogador), Renato Terra (Alfredo, Irmão de Ginetta), Roger Hanin (Morini), Paolo Stoppa (Cerri), Suzy Delair (Luisa), Claudia Cardinale (Ginetta), Achille Millo (Dobragem de Voz de Alain Delon) [não creditado], Valentina Fortunato (Dobragem de Voz de Annie Girardot) [não creditado], Riccardo Cucciolla (Dobragem de Voz de Renato Salvatori) [não creditado], Cesarina Gheraldi (Dobragem de Voz de Katina Paxinou) [não creditada], Luisella Visconti (Dobragem de Voz de Claudia Cardinale) [não creditada], Alida Cappellini (Dobragem de Voz de Rocco Vidolazzi) [não creditada], Fulvia Mammi (Dobragem de Voz de Alessandra Panaro) [não creditada].

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