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Wonder Wheel Após anos sem contacto com o pai, Carolina (June Temple) chega a Connie Island fugida do seu casamento com um mafioso de Nova Iorque. Aí, o pai, Humpty (John Belushi), e a sua actual companheira Ginny (Kate Winslet), uma actriz falhada, com um filho de um anterior casamento, recebem-na um pouco contrafeitos. Sem que mais ninguém saiba, Ginny vive um romance ilícito com o nadador-salvador, aspirante a dramaturgo Mickey (Justin Timberlake. Só que este, ao conhecer Carolina vai mudar o alvo dos seus afectos, para grande desgosto de Ginny, enquanto os mafiosos procuram Carolina que terá falado demais à polícia.

Análise:

Com produção e distribuição da Amazon, que recentemente produzira e disponibilizara online a sua minissérie “Crisis in Six Scenes” (2016), Woody Allen trouxe-nos “Roda Gigante”, um filme em que renovou o seu elenco, aqui constituído por Kate Winslet, Justin Timberlake, Juno Temple e John Belushi.

Passado na Connie Island na década de 1950, onde os cromados dos carros, os fatos de banho até aos pés e a perene música jazz dominam a paisagem, “Roda Gigante” é narrada pelo nadador-salvador Mickey (Timberlake), que nos avisa logo no início que é dado a exageros dramáticos, pois sonha ser um escritor, pelo que nem tudo o que virmos é exactamente assim. Aí, entre a praia super-povoada e o parque de diversões, vive Ginny (Kate Winslet), actriz falhada, com um filho de um casamento anterior, hoje empregada de bar que vive com o modesto Humpty (John Belushi), dado à bebida e a diversões prosaicas. A rotina muda quando chega Carolina (June Temple), filha do anterior casamento de Humpty, há muito sem ver o pai, e que agora o procura por ter fugido ao marido, um perigoso mafioso que a quer matar por ter falado demais. Se a início a família a aceita, tudo se complica quando Carolina conhece Mickey – o tal narrador da história, que, sem ela o saber, é amante da sua madrasta. Ginny começa a ter ciúmes, a frágil sanidade que a animava devido ao pouco de fantasia e ilusão trazido por Mickey, passa a esvair-se deixando-a mais irascível à vista de todos. Quanto Mickey lhe diz que o caso deles deve acabar, Ginny perde as estribeiras, e ao ver que os mafiosos que procuram a enteada estão na cidade, deixa-os encontrá-la para assim se livrar da rival. Entre o alívio, a culpa e a consciência de que nada ficará como dantes, Ginny deixa-se tomar pela alienação e loucura.

A primeira coisa que marca em “Roda Gigante” é a lindíssima fotografia digital de Vittorio Storaro, de constantes luminosidades douradas, que vem da continuação do que já acontecera em “Café Society” (2016), como que a vincar aquilo que para Woody Allen são épocas douradas, na sua memória e imaginário, e por isso querendo assim homenageá-las com uma aura quase irreal. Vemo-nos depois em território familiar, o regresso à primeira metade do século XX (tempo da infância de Allen), em histórias de famílias de classe baixa, por entre gritos e problemas financeiros, referências ao submundo dos bairros circundantes de Nova Iorque, e mesmo uma quase cómica passagem da máfia local. Como se não bastasse, neste circo de meta-referências, note-se como a casa de Ginny e Humpty fica numa zona ruidosa no meio do parque de diversões (onde o som dos tiros da barraca dos prémios está sempre presente), por entre os néons, a música da feira e as trepidações das atracções, nos lembra imediatamente a casa que Alvy Singer em “Annie Hall” (1977) aponta como aquela onde cresceu, debaixo de uma montanha russa, e cuja trepidação constante terá sido a causa do seu nervosismo. Nesse sentido, o filho de Ginny (com uma estranha propensão para incendiário) seria o pequeno Alvy, fechando um ciclo de referências quase-autobiográficas bem ao jeito de Allen.

Mas, deixando de lado este anedotário, “Roda Gigante” afirma-se como um drama, em torno da personagem de Kate Winslet, a mulher que desistiu do sonho de ser actriz, e se resignou a ser empregada de bar, quando a gravidez chegou. Com um casamento desfeito por ter decidido seguir um impulso, vive agora uma vida que não considera sua (segundo as suas palavras, tudo o que faz – em casa, no emprego – é interpretar um papel, a verdadeira Ginny não é aquilo), e deixa-se arrastar para nova ilusão, o romance com o jovem Mickey que um dia escreverá um papel para ela, e a levará a viver em Bora Bora (uma ilha que surge por piada em diálogos de vários filmes de Woody Allen). Só que a vida não é feita de ilusões, e Ginny vai ter de descer à terra, pois Mickey é uma pessoa de falas mansas, mas que age em função do que pensa serem os desígnios de um personagem que pensa ser numa vida que ele quer que seja um drama. Esse personagem dramático que Mickey quer ser dentro da sua história escolhe a mais jovem Carolina, e Ginny perde a tábua de salvação em que as suas esperanças se haviam tornado.

Do ponto de vista da história da mulher que aos poucos perde o contacto com a realidade, deixando que o seu lado neurótico se torne em alienação, estamos perante uma quase reedição de “Blue Jasmine” (2013), com a mulher que já não caminha para jovem, e tenta iludir-se de que a glória está ao virar da esquina, com isso arriscando perder a sanidade. E se Kate Winslet é irrepreensível no papel que fora de Kate Blanchet – o qual, por sua vez, era uma espécie de homenagem à peça “Um Eléctrico Chamado Desejo” (A Streetcar Named Desire) de Tennessee Williams, passado com sucesso ao ecrã por Elia Kazan, em 1951, com Vivien Leigh no papel da inesquecível Blanche DuBois –, por outro lado sentimos que tudo isto já fora dito, e Allen mais não faz que andar em círculos.

Temos uma contínua homenagem ao teatro (muito se passa numa simples sala, Mickey quer ser dramaturgo, discutem-se peças, fazem-se comparações a Eugene O’Neill, confunde-se drama e vida real, e a história de Ginny parece baseada numa peça), com um personagem-narrador que (além de iniciar as conquistas oferecendo livros para cultivar os seus alvos – algo também recorrente na obra de Allen) assume que interpreta tudo o que vê e em que participa como se estivesse a imaginar uma peça a ser escrita – algo que poderá dar-nos uma ideia sobre o actual modo de trabalhar de Woody Allen. Por fim, há ainda uma alusão ao famoso tema da culpa, com o gesto de Ginny (mais propriamente um não gesto) a ser responsável pelo desaparecimento de Carolina, algo que lhe é apontado duas vezes e que ela parece por breves segundos interiorizar, para logo depois esquecer. É o famoso tema alleniano do crime e (ausência de) castigo, tão superiormente tratado em “Crimes e Escapadelas” (Crimes and Misdemeanors, 1989) e ainda recentemente tema do seu filme “Irrational Man” (Homem Irracional, 2015).

Em suma, estamos em território típico de Allen, com o seu jeito escorreito de narrar, personagens coloridas, e a comédia trágica do costume. Temos as meta-referências à sua obra e contexto, os cenários habituais de há muitas décadas, e uma temática já explorada. Nada disto é novo, nem original, salvando-se as interpretações de Winslet (soberba) e Belushi (sólido), num filme onde até as situações e diálogos parecem demasiado pueris. Dir-se-á que é propositado, já que tudo não passa do esforço de um pretendente a dramaturgo – ideia alicerçada na interpretação (propositadamente?) bidimensional de Justin Timberlake. Talvez assim seja, mas este não será um daqueles filmes que mais marcará a análise à carreira do realizador.

Produção:

Título original: Wonder Wheel; Produção: Amazon Studios / Gravier Productions / Perdido Productions; Produtores Executivos: Mark Attanasio, Ron Chez, Adam B. Stern; País: ; Ano: 2017; Duração: 101 minutos; Distribuição: Amazon Studios (EUA); Estreia: 14 de Outubro de 2017 (New York Film Festival, EUA), 1 de Dezembro de 2017 (EUA, Polónia), 14 de Dezembro de 2017 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Woody Allen; Produção: Letty Aronson, Erika Aronson, Edward Walson; Co-Produção: Helen Robin; Argumento: Woody Allen; Fotografia: Vittorio Storaro [fotografia digital]; Montagem: Alisa Lepselter; Design de Produção: Santo Loquasto; Direcção Artística: Miguel López-Castillo; Cenários: Regina Graves; Figurinos: Suzy Benzinger; Caracterização: Stacey Panepinto; Efeitos Especiais: Mike Myers; Efeitos Visuais: Eran Dinur (Brainstorm Digital).

Elenco:

Jim Belushi (Humpty), Juno Temple (Carolina), Justin Timberlake (Mickey), Kate Winslet (Ginny), Max Casella (Ryan), Jack Gore (Richie), David Krumholtz (Jake), Robert C. Kirk (Vendedor no Pontão), Tommy Nohilly (Amigo de Humpty), Tony Sirico (Angelo), Steve Schirripa (Nick), John Doumanian (Barman no Ruby’s), Tom Guiry (Homem Insinuante no Ruby’s), Gregory Dann (Amigo da Pesca), Bobby Slayton (Amigo da Pesca), Michael Zegarski (Amigo da Pesca), Geneva Carr (Amigo de Ginny), Ed Jewett (Cliente do Ruby’s), Debi Mazar (Convidada na Festa de Aniversário), Danielle Ferland (Convidado na Festa de Aniversário), Maddie Corman (Psiquiatra), Jacob Berger (Vendedor de Relógios), Jenna Stern (Tiny), Michael Striano (Marinheiro ao Telefone), John Mainieri (John).

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