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Padre Padrone No interior da Sardenha, o pequeno Gavino Ledda (Fabrizio Forte), de seis anos, pai é tirado da escola pelo pai (Omero Antonutti) pois faz-lhe falta para ajudar a tomar conta das ovelhas. Contrafeito, e com medo do pai, Gavino vai aprendendo o que pode, e rebelando-se como pode, sempre sob o peso dos castigos paternos. Aos vinte anos, Gavino (Saverio Marconi) procura rebelar-se, ao perceber que o mundo tem muito mais para oferecer. A chance chega com o serviço militar, que vai permitir a Gavino estudar e interessar-se num curso superior, contra a vontade familiar.

Análise:

Com um misto de actores profissionais e não profissionais, os irmãos Taviani didicaram o seu filme de 1977 à paisagem rural da Sardenha para, com algum dialecto sardo pelo meio, mostrarem a vida espartana e extremamente difícil dos camponeses daquela ilha. A base de partida foi o livro homónimo de Gavino Ledda, o qual surge no filme como narrador no início e no final. É a sua história de triunfo, da pastorícia numa infância analfabeta até ao curso superior e carreira em glotologia, que os Taviani nos dão a ver.

A história começa com o próprio Gavino Ledda a apresentar a primeira cena, a qual mostra o seu pai (Omero Antonutti) a irromper pela sala de aulas de um jovem Gavino de seis anos (Fabrizio Forte) para explicar que a educação é um luxo fútil, e que precisa do filho a guardar as ovelhas. Seguem-se episódios da vida de pastorícia, com o jovem Gavino a vencer os medos iniciais e a adaptar-se à nova vida, por entre os ensinamentos por vezes quase poéticos (como o ouvir do silencio da montanha), e os castigos, severos, de um pai dominador e implacável para com qualquer erro. Quebrando o ócio com rebeldias inocentes, Gavino vai crescer afastado do mundo e, já adulto (Saverio Marconi), depois de trocar duas ovelhas por um acordeão, à revelia do pai, no vão sonho de aprender música, e de no seguimento ter tentado fugir, consegue finalmente deixar a Sardenha, graças ao serviço militar. Aí Gavino estuda e completa o ensino liceal, voltando a casa com o sonho de tirar um curso superior, o que provoca novo conflito com o pai, que ainda o tenta dominar. Desta feita Gavino encontra forças para lhe fazer frente, seguindo finalmente o seu caminho.

Filmado em cenários naturais na Sardenha rural, “Padre Padrone” (que se poderá traduzir como “Pai e Dono” – no sentido patriarcal), é um retrato cru das comunidades pobres dependentes da pastorícia, nos locais mais recônditos de Itália. Ali a educação não conta, nem o mundo externo. Como explica o pai de Gavino no início, as ovelhas e o seu leite pagam os poucos produtos que a horta não lhes dá, e de mais nada precisam. É uma vida simples, rudimentar e rotineira, que não almeja a mais nada que à repetição dia após dia, num existencialismo de sobrevivência pura. Neste contexto surge a relação (que é essencialmente de oposição) pai-filho. Ela começa no prelúdio (com o verdadeiro Gavino a dar ao actor que interpretará o seu pai um bastão, símbolo da sua prepotência bruta), exerce-se na violência com que o pai leva o seu filho da escola, no simbólico corte de cabelo, e pressente-se transversalmente nas lágrimas e pensamentos dos outros garotos, que percebem que serão eles os próximos. A relação é tanto de mentoria como de submissão, com o pai a ensinar e a castigar o filho na missão de o tornar igual a si próprio.

Acompanhamos os gestos e pensamentos de Gavino, e vemos como fica tão preso àquela relação, que mesmo longe pensa como se o pai o observasse – note-se como ao reencontrar o pai que o recebe com alegria, Gavino reage como se fosse levar uma palmada. Esse cordão umbilical é a chave da sua existência, e é na luta física com o pai, no regresso a casa, que ele finalmente se corta e Gavino pode, de uma vez por todas, aspirar a ser dono de si mesmo.

Cru e, como se disse atrás, usando actores não profissionais, “Padre Padrone” preocupa-se mais com a descrição verosímil, e por vezes de modo quase documental, de uma forma de vida, que com a beleza artística de planos e interpretações. Essa fuga realista que é ao mesmo tempo subjectiva, acaba por trazer momentos que incomodaram algumas plateias, como alusões directas a masturbação, a sexo com animais, defecação no leite, etc.

Inicialmente pensado para televisão, “Padre Padrone” passou ao cinema, tendo percorrido festivais e mercados internacionais onde foi recebido com enorme agrado. O filme receberia a Palma de Ouro em Cannes, bem como o Prémio FIPRESCI desse festival. Receberia ainda o David di Donatello e Nastro d’Argento de Melhor Realizador para os irmãos Taviani, e o Nastro d’Argento de Melhor Novo Actor para Saverio Marconi.

Omero Antonutti e Saverio Marconi em "Padre Padrone" (1977), de Paolo e Vittorio Taviani

Produção:

Título original: Padre Padrone; Produção: RAI 2 / Cinema S.r.l; Produtores Executivos: ; País: ; Ano: 1977; Duração: 109 minutos; Distribuição: MK2 Diffusion (França), Cinema 5 Distributing (EUA); Estreia: 17 de Maio de 1977 (Cannes Film Festival, França), 2 de Setembro de 1977 (Itália), 28 de Setembro de 1979 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Paolo Taviani, Vittorio Taviani; Produção: Giuliani G. De Negri; Argumento: Paolo Taviani, Vittorio Taviani [a partir do livro homónimo de Gavino Ledda]; Música: Egisto Macchi; Fotografia: Mario Masini [cor por Eastmancolor]; Montagem: Roberto Perpignani; Design de Produção: Gianni Sbarra; Figurinos: Lina Nerli Taviani; Caracterização: Gloria Fava; Direcção de Produção: Tonino Paoletti.

Elenco:

Omero Antonutti (Pai), Saverio Marconi (Gavino), Marcella Michelangeli (Mãe), Fabrizio Forte (Jovem Gavino), Marino Cenna (Jovem Pastor), Stanko Molnar (Sebastiano), Nanni Moretti (Cesare), Gavino Ledda (O Próprio).