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Allonsanfàn Na restauração após a derrota definitiva de Napoleão, Fulvio (Marcello Mastroianni) é um revolucionário desmotivado, libertado após alguns anos de prisão. Primeiro, acusado pelos seus antigos companheiros de traidor, logo os convence da sua inocência, sendo imediatamente recrutado para novas insurgências. Mas Fulvio quer viver em paz e volta para a rica mansão aristocrática da família, onde é recebido pela irmã chorosa Esther (Laura Betti). A chegada da esposa de Fulvio (Lea Massari), ela própria uma revolucionária, vem trazer de volta os planos de revolução, com Fulvio a ser-se constantemente arrastado para ela contrafeito, a preparar-se para trair os irmãos de armas e abandoná-los sempre que possível.

Análise:

Paolo e Vittorio Taviani, dois irmãos nascidos em San Miniato, na Toscana (em 1931 e 1929, respectivamente), começaram a realizar longas-metragens nos anos 60, com a curiosidade de o terem feito sempre em nome conjunto – algo que só se quebrou neste ano de 2017 com “Una questione privata”, de Paolo Taviani, no qual o seu irmão mais velho não participou. Como herdeiros do Neo-realismo, os irmãos Taviani sempre viram nos seus filmes ensaios para o estudo da natureza humana em face dos desafios da sociedade, fosse isso feito em contextos mais fantasiosos como em “Sotto il segno dello scorpione” (1969), ou abordando mais directamente temas políticos contemporâneos, como em “São Miguel Tinha Um Galo” (San Michele aveva un gallo). É isso que acontece no seu filme “Que Viva a Revolução”, no qual, tendo como inspiração os movimentos sociais e políticos que iam agitando a Itália da segunda metade do século, os Taviani confrontam idealismo e pragmatismo na pessoa do seu herói de um século e meio antes, interpretado por Marcello Mastroianni.

Reportando-se aos anos da restauração, após as guerras napoleónicas, “Que Viva a Revolução” começa numa prisão, onde vemos o protagonista Fulvio Imbriani (Mastroianni) ser libertado de um longo cativeiro. Cá fora esperam-no os seus companheiros que, primeiro pensam que ele traiu o seu líder, e depois o incitam a segui-los pois preparam nova insurgência. Mas Fulvio está cansado e, com a ajuda de um amigo, deixa o grupo para voltar à velha mansão de família onde já o crêem morto. Aí, Fulvio chega disfarçado de monge, para ver que a irmã Esther (Laura Betti) ainda o chora e deu o seu nome ao próprio filho. Numa altercação com o cunhado, Fulvio revela-se, para gáudio dos seus irmãos. Mas a chegada da sua esposa, a também revolucionária Charlotte (Lea Massari), que tem consigo dinheiro reunido para a causa, vai trazê-lo de volta à revolução, provocando o ciúme da irmã Esther. Esta denuncia o plano, e quando os amigos de Fulvio chegam, há um confronto com as tropas das autoridades, no qual Charlotte é morta.

Desgostoso, Fulvio abandona a casa de família e procura reunir-se ao filho criança, educado numa família adoptiva. Mas este vai rejeitando o pai que não conhece, o qual acaba encontrado de novo pelos seus comparsas. Fulvio convence-os então de que está a comprar armas, com o dinheiro de Charlotte, algo que não faz. Mas quando um dos companheiros, Lionello (Claudio Cassinelli) o vem ajudar na aquisição, Fulvio convence-o do desespero da causa e este mata-se. Fulvio começa então um romance com Francesca (Mimsy Farmer), mulher de Lionello, e também revolucionária, mas ambos acabam de novo descobertos pelos seus irmãos de armas, que preparam a expedição ao sul. Fingindo-se doente, Fulvio tenta ser deixado de fora, mas acaba levado pelos outros que entretanto descobrem não ter armas, algo pelo qual culpam o desaparecido Lionello. Desembarcando na Sicília, Fulvio adianta-se aos demais e confessa a um padre o que aí vem. Os revolucionários são então surpreendidos pelos locais que os chacinam. O único sobrevivente, o líder Allonsanfàn (Stanko Molnar), convence Fulvio de que a revolta foi um sucesso e o povo está com eles, e quando ele se lhes vai juntar acaba também morto.

Tomando como título as duas palavras iniciais do hino revolucionário francês (Allons enfants), que é também, na sua forma italianizada, Allonsanfàn, o nome de chefe do grupo de Fulvio, e o responsável indirecto pela sua morte, “Que Viva a Revolução”, mais que um filme sobre revoluções, debruça-se sobre dilemas internos de um personagem que tem, por um lado, a devoção à causa revolucionária, por outro, a necessidade de parar e construir uma vida para si, com mulher, filho e família, cansado que está de lutas infrutíferas e penas de prisão. Tal torna-o sucessivamente visto como traidor, cobarde, astuto, desesperado, temível, dependendo de quem para ele olha (autoridades, amigos, esposa, irmã, filho).

Com essa motivação temática, os irmãos Taviani levam-nos à Itália do início do século XIX, fracturada pelas lutas revolucionárias, entre jacobinismo e restauração pós-napoleónica. É uma Itália onde a revolução pode ser mais um ideal romântico que uma realidade e onde o protagonista da história carrega ainda o paradoxo de pertencer a uma família aristocrática.

Tudo isto é filmado como uma história itinerante, onde a acção não pára, numa contínua viagem na qual os Taviani fazem extenso uso de cenários naturais (quintas, campos, fortalezas, aldeias), com filmagens por várias zonas de Itália. Tal, centrado na pessoa e subjectivismo do personagem de Mastroianni, não exclui um certo carácter onírico, que faz “Que Viva a Revolução” por vezes parecer um longo pesadelo, sonhado por alguém que não consegue acordar. Esse subtil surrealismo entrelaça-se com todo o simbolismo de personagens e acções, numa história que roça alguma nostalgia – em grande parte por nos dar um conjunto de desajustados sem qualquer aptidão para aquilo a que se propõem –, que a faz ascender acima de qualquer simples panfleto político.

Imagem de "Que Viva a Revolução" (Allonsanfàn, 1974) de Paolo e Vittorio Taviani

Produção:

Título original: Allonsanfàn; Produção: Una Cooperativa Cinematografica / Ministero del Turismo e dello Spettacolo; País: Itália; Ano: 1974; Duração: 105 minutos; Distribuição: Italnoleggio Cinematografico (Itália); Estreia: 5 de Setembro de 1974 (Itália), 10 de Outubro de 1975 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Paolo Taviani, Vittorio Taviani; Produção: Giuliani G. De Negri; Argumento: Paolo Taviani, Vittorio Taviani; Música: Ennio Morricone; Direcção Musical: Bruno Nicolai; Fotografia: Giuseppe Ruzzolini [cor por Eastmancolor]; Montagem: Roberto Perpignani; Design de Produção: Gianni Sbarra; Cenários: Adriana Bellone; Figurinos: Lina Nerli Taviani; Caracterização: Alfonso Gola; Direcção de Produção: Giuseppe Francone.

Elenco:

Marcello Mastroianni (Fulvio Imbriani), Lea Massari (Charlotte), Mimsy Farmer (Francesca), Laura Betti (Esther), Claudio Cassinelli (Lionello), Benjamin Lev (Vanni ‘Peste’), Renato De Carmine (Costantino), Stanko Molnar (Allonsanfan), Luisa De Santis (Fiorella), Biagio Pelligra (O Padre), Michael Berger (Remigiano), Raul Cabrera, Alderice Casali (Concetta), Roberto Frau, Cirylle Spiga (Massimo), Ermanno Taviani (Massimiliano), Francesca Taviani (Giovanna), Bruno Cirino (Tito).