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Ginger e Fred Amelia Bonetti (Giulietta Masina), conhecida artisticamente como Ginger, e Pippo Botticella (Marcello Mastroianni), conhecido como Fred, são dois antigos bailarinos que nos anos 30 e 40 se celebrizaram pelas suas imitações de Ginger Rogers e Fred Astaire. Agora, nos anos 80, o par foi chamado a um programa de televisão, para um momento de revivalismo. Mas o reencontro é para eles muito mais, oportunidade de lembrar ao mundo a sua existência, e voltarem a ver-se depois de muitos anos, em que tentam que tudo pareça aquilo que era, enquanto se vêem arrastados para um circo televisivo de qualidade e objectivos muito duvidosos.

Análise:

Em 1986, Federico Fellini decidiu colocar no centro do seu novo filme, o cada vez mais incontornável mundo da televisão. O espalhafato televisivo, o papel de lavagem cerebral em casa de espectadores cada vez mais dependentes, os valores ocos e efémeros, e principalmente uma nova forma de estar da recentemente criada rede Mediaset, do magnata em ascensão Silvio Berlusconi, eram os alvos do filme “Ginger e Fred”, que Fellini escreveu com os habituais companheiros Tonino Guerra, Tullio Pinelli.

No centro da história está o par Ginger e Fred, nomes artísticos dos veteranos Amelia Bonetti (Giulietta Masina) e Pippo Botticella (Marcello Mastroianni), dois bailarinos que nos anos 30 e 40 se celebrizaram pelas suas imitações de Ginger Rogers e Fred Astaire. Agora chamados a Roma, para filmarem um número para uma transmissão em directo do programa “Ed ecco a voi…” (algo como “E agora convosco…”). Amelia, chegada antes, procura Pippo, enquanto vai desesperando ao ver o estranho grupo que se vai reunindo no hotel (um velho almirante, anões, uma médium, pessoas que foram raptadas, um ex-padre e a sua noiva, um frade milagreiro, etc.), levando-a a pôr em causa a qualidade do programa em que vai participar. Orgulhosa do bom nome que ainda pensa ostentar, e curiosa pelo reencontro com Pippo, Amelia vai ficando, para descobrir que o parceiro, está longe dos tempos de playboy, agora envelhecido, algo trôpego, e com vontade de se fazer notar, mesmo que a custo do embelezamento do seu passado. Sempre sem condições para o ensaio que queriam fazer, percebendo que não são sequer levados a sério, Amelia e Pippo tentam inserir-se no autêntico circo que são os bastidores do programa, feitos de um frenesim inusitado, conversas de circunstância e uma obsessão para se viver os tais 15 minutos (no caso talvez dois) de fama, que a televisão poderá dar. Por fim Ginger e Fred têm a sua hora, que passa por faltas de fôlego, uma queda, mas muita nostalgia e elegância, que levam à admiração do público. Deixada a apresentação para trás, Amelia e Pippo podem finalmente assumir que o que mais queriam era reencontrar-se e sentir, por um momento, que o tempo não tinha passado.

Agora virando-se para a televisão, depois de uma série de outros filmes dedicados a diferentes áreas do espectáculo (os saltimbancos, o circo, a orquestra clássica, a ópera), o novo filme de Fellini tem tanto de nostálgico como de satírico, num mundo que claramente o realizador contesta. Como dito acima, assistia-se ao advento de Berlusconi, que através dos seus canais veio mudar em muito a televisão italiana, com concursos, talk shows e programas de variedades que apostavam em luz e cor, gala e glamour, em fórmulas repetitivas que tendiam a criar uma sociedade ávida de superficialidade e onde as notícias ou factos eram apenas o efémero de trivialidade oca. É nesse contexto que vemos reunir-se (primeiro no hotel e depois nos bastidores do programa) um verdadeiro circo de estrelas cadentes, figuras sem outra chama ou glória que não seja buscar o efémero da fama, criada apenas (que é como quem diz: vendida) pela própria presença nesse programa. Note-se as palavras de Amelia quando liga para casa, dizendo «estou eu, estamos nós… e até há almirantes», como forma vã de justificar a importância que algo que ela sabe à partida que não a terá.

Assim vamos vendo personagens estranhos, como anões, animais de circo, o citado almirante já senil, uma médium e o seu filho, um frade milagreiro, um padre que deixou o sacerdócio para casar, figuras que foram raptadas, uma mulher que sofreu o martírio de ficar meses sem ver televisão, um mafioso arrependido, e uma série de pseudo-intelectuais, de jornalistas a críticos, passando pelo pessoal dos bastidores, músicos, assistentes, técnicos e pessoal de caracterização.

A atmosfera por eles criada não deixa de lembrar o habitual onirismo de Fellini, com os espaços a misturarem-se quase sem distinção, e todos os momentos a surgirem como obstáculos (Amelia sem perceber o rumo do programa, o par sem poder ensaiar ou ser levado a sério, ou simplesmente de Amelia e Pippo sempre interrompidos, sem poderem conversar e voltar a ligarem-se a quem eram e um ao outro), o próprio cenário (quase sempre interiores, onde a televisão traz muito de fantasioso) parece contribuir para nos desligar da realidade, e todos os personagens a parecem saídos de um sonho, sem grande ligação ao mundo real. Estes embarcam num carrossel de discussões, momentos e temas que realçam esse lado oco, superficial onde cada um luta pelo seu momento de fama, que de concreto nada tem fora do mundo da televisão, a qual fabrica os seus heróis pelo simples prazer de encher o tempo de antena com algum escapismo, e muita superficialidade. Não falta uma presença autárquica, e o olho dominador do presidente da estação, aqui chamado “cavaleiro”, título com que Silvio Berlusconi é geralmente tratado.

Fruto e vítimas de tudo isso são Ginger e Fred, Amelia e Pippo, atirados para um mundo que mal compreendem, acreditando (se é que realmente acreditam) poder, por breves minutos trazer um vislumbre da sua arte passada ao mundo, mas acima de tudo, eles próprios buscando o escapismo de poder ter vencido o tempo, recuperando algo das pessoas que antes foram. E estas, mais que estrelas do espectáculo, foram dois jovens, cheios de força de viver, ele um garanhão, ela uma mulher de princípios, que estiveram sempre na antecâmara de um romance nunca consumado (note-se como vários personagens os crêem marido e mulher), e que a vida separou, ao ponto de agora se perguntarem como poderiam ter sido as suas vidas, caso tivessem ficado juntos.

Muito em “Ginger e Fred” é, por isso, um exercício de nostalgia, tanto de uma idade dourada do mundo do espectáculo, como da juventude e opções dos protagonistas, que aqui se vêem num momento de avaliação da sua vida. Não inocente é a cena da médium que ouve vozes que chamam um tal de Pippo, o que relembra ao personagem de Mastroianni como são ambos personagens de outros tempos, hoje artisticamente (e sentimentalmente?) mortos, verdadeiras vozes do além.

Com Fellini na fase final da sua carreira, tendo sofrido um pequeno AVC logo após finalizar o filme, e tendo este um carácter fortemente nostálgico, “Ginger e Fred” foi recebido com pompa. O filme foi presenteado com quatro prémios David di Donatello (em 13 nomeações), quatro Nastri d’Argento (em nove nomeações), sendo ainda nomeado como Melhor Filme Estrangeiro nos BAFTA e nos Globos de Ouro

Episódio à parte foi o processo legal desferido por Ginger Rogers, nos Estados Unidos, por achar que o seu bom nome saía difamado, e o filme se aproveitava da sua imagem. Fellini e Grimaldi (o produtor) venceriam o processo em todas as instâncias, sendo declarado o direito à voz criativa do autor. Fred Astaire, que morreria no ano seguinte, nunca se envolveu na polémica.

Marcello Mastroianni e Giulietta Masina em "Ginger e Fred" (1986), de Federico Fellini

Produção:

Título original: Ginger e Fred; Produção: Produzioni Europee Associati (PEA) / Les Films Ariane / France 3 Cinéma / Revcom Films / Stella Film / Rai 1 / Anthea Film; País: Itália / França / RFA; Ano: 1986; Duração: 122 minutos; Distribuição: Istituto Luce-Italnoleggio Cinematografico (Itália), Metro-Goldwyn-Mayer (MGM) (EUA); Estreia: 13 de Janeiro de 1986 (França), 29 de Agosto de 1986 (Cinema Nimas e Star 29, Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Federico Fellini; Produção: Alberto Grimaldi, Heinz Bibo [não creditado]; História: Federico Fellini, Tonino Guerra; Argumento: Federico Fellini, Tonino Guerra, Tullio Pinelli; Música: Nicola Piovani; Fotografia: Tonino Delli Colli, Ennio Guarnieri; Montagem: Nino Baragli, Ugo De Rossi, Ruggero Mastroianni; Design de Produção: Dante Ferretti; Direcção Artística: Nazzareno Piana; Cenários: Franco Fumagalli, Angelo Santucci; Figurinos: Danilo Donati; Caracterização: Rino Carboni; Efeitos Especiais: Adriano Pischiutta; Efeitos Visuais: Marco Bechis [não creditado]; Coreografia: Tony Ventura; Direcção de Produção: Luigi Millozza, Walter Massi, Franco Coduti, Roberto Mannoni, Raymond Leplont.

Elenco:

Giulietta Masina (Amelia Bonetti – Ginger), Marcello Mastroianni (Pippo Botticella – Fred), Franco Fabrizi (Apresentador do Tak Show), Friedrich von Ledebur (Almirante Aulenti), Augusto Poderosi (Transvesti), Martin Maria Blau (Assistente de Realização), Jacques Henri Lartigue (Irmão Gerolamo), Totò Mignone (Totò), Ezio Marano (O Intelectual), Antoine Saint-John (Homem Enfaixado), Friedrich von Thun (Industrial Raptado), Antonino Iuorio (Inspector da TV), Barbara Scoppa (Jornalista), Elisabetta Flumeri (Jornalista), Salvatore Billa (Imitador de Clark Gable), Ginestra Spinola (Médium), Stefania Marini (Secretária), Francesco Casale (Mafioso), Gianfranco Alpestre (Advogado Raptado), Filippo Ascione (Pianista), Elena Cantarone (Enfermeira), Cosima Chiusoli (Noiva do Ex-Padre), Claudio Ciocca (Cameraman), Sergio Ciulli (Filho da Médium), Roberto De Sandro, Vittorio De Bisogno (Realizador), Fabrizio Fontana (Honorável Tartina), Laurentina Guidotti (Secretária de Produção), Giorgio Iovine (Porteiro do Hotel), Danika La Loggia (Mãe Raptada), Isabelle Therese La Porte (Apresentadora do Programa de Televisão), Luigi Leoni (Presidente da Câmara), Luciano Lombardo (Ex-Padre), Mariele Loreley (Jornalista), Elena Magoia (Crítica Literária), Franco Marino (Empresário dos Anões), Mauro Misul (Editor), Jurgen Morhofer (Guitarrista Rock), Pippo Negri (Inventor das Calças Interiores), Antonietta Patriarca (Sra. Silvestri), Nando Pucci Negri (Assistente de Realização), Luigi Rossi (Homem com Medalhas), Franco Trevisi (Capitão da Polícia), Patti Vailati (Patty, A Secretária), Narciso Vicario (Presidente da Televisão), Hermann Weiskopf (Professor Kare Rulph Noiburg).