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E la nave vaNo início do século XX, um conjunto de pessoas da alta sociedade e de ligações ao canto lírico embarca no luxuoso paquete Gloria N para levar as cinzas da recém-falecida soprano Edmea Tetua (Janet Suzman), a serem espalhadas no mar que banha a ilha de Erimo, onde ela nasceu. Entre eles vão cantores, músicos, maestros, o séquito pessoal da cantora, amigos, a corte de um Grão-duque, e o jornalista Orlando (Freddie Jones), que está a filmar o evento, registando pequenas entrevistas com aqueles que conheceram Edmea, ao mesmo tempo que vai comentando tudo o que vê. A viagem é motivo para despoletar rivalidades e episódios rocambolescos, que vão dos cuidados com um rinoceronte até ao aparecimento de um grupo de possíveis terroristas sérvios.

Análise:

Foi com uma ovação em pé de 15 minutos que o Festival de Veneza presenteou “O Navio”, o segundo filme de Fellini na década de 80, num momento em que já se adivinhava o final da carreira do realizador, então com 63 anos. E “O Navio” funciona, de certo modo, como um filme-resumo da carreira do original cineasta italiano, contendo uma homenagem ao canto lírico, um formato de falso documentário, um cenário quase irreal onde o teatral se mistura pelo cinematográfico, e claro, o modo não linear de contar histórias, como se fossem memórias encadeadas mais por emoções que por uma causalidade cronológica.

O pretexto é o embarque a bordo de um luxuoso paquete – o Gloria N –, de um grupo de pessoas da alta sociedade, ligadas, de uma forma ou de outra, à recentemente falecida soprano Edmea Tetua (Janet Suzman), numa viagem fúnebre, cujo o objectivo é lançar as cinzas da cantora ao mar que banha a ilha onde nasceu. Na viagem segue um jornalista, Orlando (Freddie Jones), que com a sua equipa de filmagens, procura narrar e entrevistar todos na viagem, num estilo que é mais de veneração que de jornalismo. A viagem servirá para todos, cada um a seu modo, recordarem Edmea, ao mesmo tempo que se revelam rivalidades e outras histórias, num contínuo regressar à música e sua prestação.

Num tempo pouco determinado, mas cujas roupas e comportamentos nos fazem pensar na Belle Époque da transição do século XIX para o século XX, Fellini encapsula a alta sociedade num paquete, onde o ócio e superficialidade se revelam entre intrigas, rivalidades e a vã necessidade de se ostentar ou aparentar mais do que se é. Das mentiras do admirador e pretenso amante de Edmea, ao comportamento dos outros cantores, passando pelo pavoneamento oco da corte do Grão-duque, tudo no paquete parece demasiado barroco e quase irreal, numa crítica ao escapismo e afastamento da realidade de certas camadas da sociedade. Neste contexto, Fellini entrelaça o seu gosto de contar histórias, de evocar memórias e de ligar momentos desconexos da sua forma subjectiva e quase surreal. A concorrer para esse ambiente, temos os momentos musicais, alguns de uma poesia dilacerante, como o recital de copos de água ou o duelo de vozes com que os cantores se rebaixam para impressionar aqueles que (literalmente no plano) estão abaixo de si, os fogueiros do navio.

Nesse sentido, todo o filme é uma ode poética, à memória, ao canto lírico, e a um certo modo romântico de estar, evocado nas viagens marítimas, e no luxo dos paquetes, como se vê nos preparativos que constituem os minutos iniciais, gravados como um filme mudo, ou como um conjunto de fotos amarelecidas pelo tempo, que nos trazem a nostalgia da viagem ainda antes de ela começar.

Tudo isso nos chega sob a forma de um pseudo-documentário. Mas desta vez, ao invés da pretensa seriedade que Fellini já usara em “Os Clowns” (1970, I clowns), em “Roma de Fellini” (Roma, 1972), ou em “Ensaio de Orquestra” (Prova d’orchestra, 1978), o realizador vai mais longe, misturando documentário e ficção, onde o narrador fala para a câmara, dizendo-nos que ela está presente (encarada sempre ostensivamente pelos restantes personagens), para o vermos comentar episódios que vimos na intimidade de outros através da nossa câmara (a do filme), sem que a câmara diegética (a do documentário) pudesse ter estado presente. Esse permear de meios narrativos é, depois, acompanhado com o permear de meios cénicos, senão vejamos. Estando nós num filme, tudo evoca o teatro, das interpretações aos cenários. De facto, filmado inteiramente em estúdio, na Cinecittà, “O Navio” decorre num navio que nunca vemos na sua completude, do mesmo modo que nunca vemos o mar. Quando o vemos, vemos apenas pedaços da fuselagem, que não tentam disfarçar estarmos perante um cenário de palco (de uma ópera?), do mesmo modo que o filme termina com um olhar sobre o mar, que é um mar de cartão, como os reproduzidos num palco operático. Como se Fellini nos dissesse que estamos no meio de uma ópera, ou mais ainda, que toda a vida é uma ópera.

Amor à arte, decadência, opulência, ócio, tudo isso há em “O Navio”, talvez símbolo da viagem perdida da Europa, afinal num objectivo mórbido, que a levaria à Primeira Guerra Mundial. É, ainda assim, mais um olhar nostálgico, pleno de poesia, e aquele jeito de Fellini para nos enredar em histórias, momentos e emoções. Tudo termina, como não podia deixar de ser, num simbólico afundamento, onde passamos até pelo estúdio para o último entrelaçar entre mundos, com a câmara a filmar outra câmara. É Fellini no seu melhor!

De notar a presença da antiga bailarina e coreógrafa Pina Bausch, no papel da princesa cega.

Sarah-Jane Varley e o elenco do filme "O Navio" (E la nave va, 1983), de Federico Fellini

Produção:

Título original: E la nave va; Produção: RAI Radio Televisione Italiana; Vides Produzione; Gaumont Films A2; Societa Investimenti Milanese (S.I.M.); País: Itália / França; Ano: 1983; Duração: 127 minutos; Distribuição: Gaumont Italia (Itália), Gaumont (França); Estreia: 10 de Setembro de 1983 (Venice Film Festival, Itália), 6 de Outubro de 1983 (Itália), 3 de Julho de 1987 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Federico Fellini; Produção: Franco Cristaldi; Produtor Associado: Aldo Nemni, Renzo Rossellini; Argumento: Federico Fellini, Tonino Guerra; Textos das peças líricas: Andrea Zanzotto; Música: Gianfranco Plenizio; Direcção Musical: ; Fotografia: Giuseppe Rotunno [cor por Eastmancolor]; Montagem: Ruggero Mastroianni; Design de Produção: Dante Ferretti; Direcção Artística: Maria-Teresa Barbasso, Nazzareno Piana, Massimo Razzi; Cenários: Francesca Lo Schiavo, Massimo Tavazzi; Figurinos: Maurizio Millenotti; Caracterização: Rino Carboni; Efeitos Especiais: Massimo Di Palma, Adriano Pischiutta; Coreografia: Leonetta Bentivoglio; Pinturas e frescos: Rinaldo e Giulano Geleng; Esculturas: Giovani Gianese; Direcção de Produção: Lucio Orlandini.

Elenco:

Freddie Jones (Orlando), Barbara Jefford (Ildebranda Cuffari), Victor Poletti (Aureliano Fuciletto), Peter Cellier (Sir Reginald J. Dongby), Elisa Mainardi (Teresa Valegnani), Norma West (Lady Violet Dongby), Paolo Paoloni (Maestro Albertini), Sarah-Jane Varley (Dorotea), Fiorenzo Serra (Grão-duque), Pina Bausch (Princesa Lherimia), Pasquale Zito (Conde de Bassano), Linda Polan (Ines Ruffo Saltini), Philip Locke (Primeiro-Ministro), Jonathan Cecil (Ricotin), Maurice Barrier (Ziloev), Fred Williams (Sabatino Lepori), Elisabeth Kaza, Colin Higgins (Chefe da Polícia), Vittorio Zarfatti (Segundo maestro Rubetti), Umberto Zuanelli (Primeiro maestro Rubetti), Claudio Ciocca (Segundo Oficial), Antonio Vezza (O Capitão), Alex Partexano (Oficial), Domenico Pertica (Pastor), Christian Fremont, Marielle Duvelle, Helen Stirling, Janet Suzman (Edmea Tetua), Ginestra Spinola (Prima de Edmea), Roberto Caporali (Pai de Dorotea), Franca Maresa (Mãe de Dorotea), Carlo Di Giacomo (Sabatino Lepori), Jean Schlegel (Superintendente), Umberto Barone (Scala), Monica Bertolitti, Danika La Loggia, Salvatore Calabrese (Banqueiro), Johna Mancini (Secretário do Superintendente), Francesco Scali, Cecilia Cerocchi (Esposa do Superintendente), Franco Angrisano (Cozinheiro), Ugo Fangareggi (Barman), Pietro Fumelli, Andy Miller, Fides Stagni, Roberto Jacar, Raffaele Giangrande, Filippo De Gara.