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Il fiore delle mille e una notteTerceiro tomo da sua “Trilogia da Vida”, iniciada com “Decameron” e “Os Contos de Canterbury”, Pasolini usa os contos tradicionais do Médio Oriente, para nos trazer uma série de histórias onde o amor e o sexo estão entrelaçados e explorados em tonalidades diversas, da tragédia à traição, do encantamento à devoção, em contos de príncipes e princesas onde a busca do amor é o tema recorrente, e a história de Nur ed-Din (Franco Merli) e Zumurrùd (Ines Pellegrini) é o fio condutor, motivo para contos dentro de contos, onde cada personagem tem a sua própria história de fascinação e desilusão a contar.

Análise:

Depois de “Decameron” (Il Decameron, 1971) e de “Os Contos de Canterbury” (I racconti di Canterbury, 1972), Pier Paolo Pasolini completava a sua “Trilogia da Vida” com as tradições do Médio Oriente a servirem de inspiração no filme “As Mil e Uma Noites”, continuando a usar textos antigos como ponto de partida, como nos filmes citados, onde bebera em Boccaccio e Chaucer, respectivamente. Como nos dois tomos anteriores, Pasolini partiu de um argumento escrito por si, para uma representação livre dos universos coloridos narrados nos textos originais. Desta vez, a grande diferença era de orçamento, a permitir exteriores filmados no Irão, Yemen, Etiópia, Índia e Nepal, em busca de locais que melhor trouxessem imagens imaculadas de aldeias e construções antigas plenas da aridez e exotismo que associamos ao Médio Oriente.

Continuando a apostar em interpretações minimalistas por actores com pouca experiência, ainda que em encenações elaboradas, Pasolini conta-nos em “As Mil e Uma Noites” uma série de contos menos conhecidos, tendo em comum aventuras amorosas, vistas e narradas numa sua lógica simples e por vezes anedótica, embora aqui, talvez, com um maior sentido poético (onde a alegria e tragédia do amor são os temas recorrentes) que nos vernáculos e obscenos filmes anteriores da trilogia. Também diferente é a estrutura narrativa, aqui, a exemplo do que acontece no texto literário, com histórias encaixadas umas dentro de outras.

A base de tudo é a história de Nur ed-Din (Franco Merli) e Zumurrùd (Ines Pellegrini). Zumurrùd é uma escrava que impõe como seu comprador o jovem Nur ed-Din, por quem ela se apaixona, e o casal vive um amor sem sombras. Segue-se a história de Sium, narrada por Zumurrùd. Aquele é um velho poeta que, em viagem, chega a uma aldeia, onde descansa, recebendo três rapazes a quem lê os seus versos. Sium conta a história dos reis Harùn e Zeudi (Zeudi Biasolo), os quais fazem uma aposta baseada na ideia de que num casal é sempre o elemento mais feio a apaixonar-se primeiro pelo mais belo. Trazendo um rapaz e uma rapariga para dormirem na mesma sala, sem saberem um do outro, os reis acordam o rapaz, que ao ver a rapariga adormecida se deita sobre ela fazendo amor com ela, sem a acordar. Readormecido o rapaz, os reis acordam a rapariga, que faz o mesmo ao rapaz. Os reis concordam que aqueles dois são almas gémeas que se amam por igual.

Regressados à história de Nur ed-Din e Zumurrùd, ele vai ao mercado vender um quadro pintado por ela, sob a ressalva que não o faça a um homem de olhos azuis. Mas perante a quantia oferecida, Nur ed-Din esquece a promessa. Este homem vai depois segui-lo, acabando por raptar Zumurrùd. Esta consegue enviar uma mensagem ao esposo para a vir buscar, mas ele adormece no local planeado, e quando Zumurrùd foge é raptada por um ladrão que a leva para o seu covil. Zumurrùd torna a fugir, vestida de homem, chegando a uma cidade onde o rei morrera sem herdeiros, o que faz do primeiro visitante rei. Assim, Zumurrùd torna-se o Rei Sair, fingindo ser homem, casando com uma mulher, e ali julgando os destinos dos que a raptaram.

Viajando em busca da amada, Nur ed-Din vai parar numa cidade, onde conta a sua história, sendo acolhido por Munis (Elisabetta Genovese), que dele cuida, e lhe conta também histórias. Uma é a da princesa Dunya (Abadit Ghidei), que sonha que um pombo está preso numa pintura, onde chega uma pomba que a salva, mas voando juntos, a pomba cai numa rede e é abandonada pelo pombo, o que a princesa interpreta como a traição masculina, e jura nunca casar, passando o tempo a pintar o seu sonho, até encomendar um grande mosaico para um tecto. Depois Munis conta a história do príncipe Tagi (Francesco Paolo Governale) que, em viagem, encontra um rapaz, chamado Aziz, que chora, protegendo um pergaminho. Perante a insistência de Tago, Aziz conta a história de como foi dado em casamento à prima Aziza (Tessa Bouché), mas um dia encontrou uma mulher, Budùr (Claudia Rocchi), de quem se enamorou, esquecendo a própria boda, que assim teve de ser adiada. Não entendendo os gestos que ela lhe fazia, Aziz pediu a Aziza que lhos explicasse, e esta, em dor, foi sendo intérprete dos encontros marcados entre Budùr e Aziz, onde estes se amavam em segredo, até que o desgosto consumiu Aziza, que morreu. Através de um poema que Aziza ensinava Aziz a recitar a Budùr, esta descobriu a morte de Aziza, e penalizou Aziz, mandando-o honrar a prima, e esperando um ano por ela. Mas nesse ano Aziz casou com outra mulher, a quem deu um filho. Quando Budùr descobriu decidiu vingar-se, castrando-o. Em casa, a mãe de Aziza traz-lhe um pergaminho de amor da filha, lançando-o num grande remorso. Findo o conto, Tagi e Aziz viajam para a cidade, encontrando dois pintores, Shahzamàn (Alberto Argentino) e Yunan (Salvatore Sapienza), que vão pintar o tecto de Dunya. Os dois pintores contam as suas histórias enquanto pintam.

Começa Shahzamàn, um príncipe que escapara de uma batalha fingindo-se morto, e vai trabalhar numa obra, onde descobre uma passagem secreta que o leva a uma casa escondida, onde uma bela mulher vive prisioneira de um demónio (Franco Citti). Depois de passar a noite com ela, Shahzamàn é incitado a fugir, mas o demónio encontra os seus sapatos, e persegue Shahzamàn, encontrando-o e trazendo-o de volta. No quarto da princesa, o demónio propõe aos dois que se matem um ao outro, e ele poupará o sobrevivente, mas por amor eles recusam. O demónio decepa mãos, pés e cabeça à princesa, e deixa Shahzamàn no deserto, transformado em macaco. O macaco acaba capturado por piratas, e para mostrar quem é, escreve as histórias que eles contam. Quanto estas chegam aos olhos de um rei, ele pede para conhecer o autor de tal caligrafia, e o macaco é trazido, sendo a maldição percebida pela filha do rei que, por comoção, se sacrifica para acabar o feitiço e devolver Shahzamàn à forma humana, após o que ele regressa a casa. É a vez do seu companheiro, Yunan, contar a sua história.

A história de Yunan começa com a chegada de um velho eremita que prevê a sua morte, e ordena ao escravo que dê as suas vestes ao primeiro que lhas peça. Entretanto Yunan é um jovem príncipe, sem qualquer experiência de vida, e que nunca saiu do palácio. Um dia, Yunan decide viajar, e naufraga numa ilha, onde recebe o conselho divino de matar um cavaleiro que amaldiçoa o país. Após matar o cavaleiro, encontra uma passagem secreta para uma câmara escondida onde vive um príncipe de 15 anos, que teme que Yunan o venha matar, pois uma profecia assim o diz. Yunan jura protegê-lo, mas nessa noite, em transe, mata-o. Ao aperceber-se do que fez, Yunan foge e na praia encontra homens que transportam um cadáver, pedindo para viajar com eles, e pedindo ao escravo do morto as vestes destes, cumprindo a profecia, após o que, prefere exilar-se.

Findos os contos de Shahzamàn e Yunan, o mosaico do tecto é finalizado, e Tagi chama a princesa Dunya, mostrando-lhe que acrescentou um falcão que mata o pombo. Dunya, percebendo o simbolismo, acaba por se apaixonar por ele. Finalizada a história de Munis, Nur ed-Din, já recuperado, passeia pela cidade, sendo visto e convocado pelo rei Sair (isto é, Zumurrùd ainda em disfarce). O rei chama Nur ed-Din ao seu quarto, e implica que se quer deitar com ele, ao que o jovem acede, a contragosto, para descobrir que o rei não é mais que a sua amada, que assim reencontra para viver com ela em felicidade.

Com uma teia de histórias complexamente entrelaçada, Pasolini dá-nos, neste terceiro tomo da sua trilogia, o mais doce e inocente destes três filmes, não fosse ele baseado em histórias de encantar e não tivesse ele o amor como principal tema. Sempre com uma perspectiva vernácula, de contos populares, pouco polidos, “As Mil e Uma Noites” é, ainda assim, um filme poético, de simbolismos ricos, e uma atmosfera jovial e esperançosa, distante dos mundos semi-apocalípticos dos dois filmes anteriores. Mantêm-se o humor, a jocosidade e toda a aura de imperfeição que alia cenários propositadamente toscos, interpretações de actores nem sempre profissionais, e um certo gosto pelo grotesco, dos rostos aos gestos. Temos, no entanto, um maior cuidado com o design, o que é sugerido desde logo pela quantidade de paisagens naturais, em locais exóticos, aproveitando aldeias ancestrais e uma grande diversidade étnica, quer de construções, quer de gentes.

Ganhando o Grande Prémio Especial do Júri em Cannes, o filme ficou aquém da recepção tida pelos dois filmes anteriores. Longe dos retratos sociais dos dois primeiros filmes, “As Mil e Uma Noites” desagradava a quem buscava comentário social, ao mesmo tempo que chocava quem continuava a ferir-se com as alusões ao sexo (em várias formas, heterossexual, homossexual, e até pedófilo), aflorados nos filmes de Pasolini. Pasolini foi acusado de obscenidade (a sequência do desflorar de Budùr com um falo na ponta de uma flecha disparada com arco para as suas pernas abertas tornou-se icónica), e sofreu processos de difamação da obra original, entretanto retirados.

Imagem de "As Mil e Uma Noites" (Il fiore delle mille e una notte, 1974), de Pier Paolo Pasolini

Produção:

Título original: Il fiore delle mille e una notte; Produção: Produzioni Europee Associati (PEA) / Les Productions Artistes Associés; País: Itália / França; Ano: 1974; Duração: 125 minutos; Distribuição: United Artists; Estreia: 20 de Maio de 1974 (Cannes Film Festival, França), 20 de Junho de 1974 (Itália).

Equipa técnica:

Realização: Pier Paolo Pasolini; Produção: Alberto Grimaldi; Argumento: Pier Paolo Pasolini, Dacia Maraini [a partir dos contos tradicionais]; Música: Ennio Morricone; Fotografia: Giuseppe Ruzzolini [cor por Technicolor]; Montagem: Nino Baragli, Tatiana Casini Morigi; Design de Produção: Dante Ferretti; Figurinos: Danilo Donati; Caracterização: Massimo Giustini; Direcção de Produção: Mario Di Biase.

Elenco:

Ninetto Davoli (Aziz), Franco Citti (Demónio), Franco Merli (Nur ed-Din), Tessa Bouché (Aziza), Ines Pellegrini (Zumurrùd), Margareth Clémenti (Mãe de Aziz), Claudia Rocchi [como Luigina Rocchi] (Budùr), Alberto Argentino (Príncipe Shahzamàn), Francesco Paolo Governale (Príncipe Tagi), Salvatore Sapienza (Príncipe Yunan), Zeudi Biasolo (Zeudi), Barbara Grandi, Elisabetta Genovese (Munis), Gioacchino Castellini, Abadit Ghidei (Princesa Dunya), Christian Aligny, Salvatore Verdetti (Barsum), Jocelyne Munchenbach, Luigi Antonio Guerra, Jeanne Gauffin Mathieu, Francelise Noel, Franca Sciutto.