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I racconti di CanterburyUsando como fonte o célebre livro medieval do inglês Geoffrey Chaucer, Pier Paolo Pasolini conta uma viagem de peregrinos à Catedral de Cantuária (Canterbury), na qual eles se entretêm contando histórias anedóticas. São oito contos, que são sátiras de costumes, incidindo sobre os comportamentos do povo, e da Igreja, no que diz respeito às relações humanas, sexo, infidelidade e ganância, algumas de carácter erótico, outras sobrenatural, todas mostrando o lado mais animal e grotesco do comportamento humano, através das cores e crenças medievais.

Análise:

Depois de ter usado o famoso texto de Boccaccio como base do seu filme “Decameron” (Il Decameron, 1971), que constitui o que ficou conhecido como o primeiro filme da sua “Trilogia da Vida”, Pier Paolo Pasolini continuou esta trilogia adaptando outro famoso autor antigo, o inglês Geoffrey Chaucer, o autor dos “Canterbury Tales”, livro escrito no final do século XIV.

Composto por um prólogo e 24 contos, “Canterbury Tales” é uma obra essencial no definir da língua inglesa como língua literária. Chaucer, que foi Fiscalizador de Costumes, Juiz da Paz e Escrivão Real, escreveu, em prosa e poesia, um conjunto de contos, narrados ao despique pelos seus personagens, viajantes que vão, em peregrinação, de Londres para Cantuária. É uma obra irónica, que tem por objectivo pintar vívidos quadros de costumes, numa exposição de vícios, quer do povo, quer da própria Igreja.

Partindo do livro de Chaucer, Pasolini filmou em Inglaterra, usando cenários naturais (como fachadas e interiores de imponentes monumentos históricos, incluindo a Catedral de Cantuária), e actores não profissionais, narrando oito contos, nalguns casos de forma muito livre. O ponto de partida continua a ser a viagem de um grupo de peregrinos para Cantuária, entre os quais está o próprio Chaucer (Pasolini), que propõe que se contem histórias para passar o tempo. Estes contos ocorrem sem vermos o narrador, e quase sem percebermos intervalos entre eles, por vezes com imagens de Chaucer escrevendo um título.

Episódio 1, Sir January e a sua Esposa May (O Conto do Mercador): O velho e rico Sir January (Hugh Griffith) casou com uma mulher mais nova, May (Josephine Chaplin), apenas por luxúria, mas esta, repugnada pelo marido, começa a interessar-se por um belo criado. Quando os deuses Plutão (Giuseppe Arrigio) e Prosérpina (Elisabetta Genovese) se apercebem, cegam Sir January, e a esposa sente-se à vontade para o trair mesmo à sua frente. Nessa altura os deuses devolvem a vista a Sir January que vê a traição, que logo a esposa se apressa a dizer que foi uma ilusão por ele ter recuperado a vista.

Episódio 2, O Diabo e o Inquisidor (O Conto do Frade): Um estranho homem (Franco Citti) depara com outro (Daniele Buckler) que observa uma relação homossexual através de um buraco de fechadura. Este é um enviado do inquisidor que, descobrindo o crime, vai conseguir dinheiro de um dos dois culpados (o mais rico), enquanto o segundo é queimado vivo. Em viagem, os dois homens conversam, com o primeiro a confessar ser o Diabo. Combinam que trocarão estratégias, e dividirão os espólios. Quando o enviado do inquisidor encontra uma velha e a chantageia esta apela a que o Diabo o leve pelas suas calúnias a menos que ele se arrependa. Como ele não se arrepende, o Diabo leva-o consigo.

Episódio 3, Perkin o folião (Conto do Cozinheiro): Perkin (Ninetto Davoli) é um rapaz estouvado, sempre a fazer partidas, acabando perseguido por todos. Quando em casa lhe ralham, acaba por aceitar um emprego a tratar de ovos, mas acaba por partir tudo. Após nova fuga, dorme com um casal, mas é encontrado pelas autoridades que o prendem.

Episódio 4, Nicholas e Alison (O Conto do Moleiro): Nicholas (Dan Thomas) é um estudante que ama a vizinha Alison (Jenny Runacre), mulher de um velho carpinteiro (Michael Balfour). Para a convencer, Nicholas esconde-se no sótão, enquanto Absalom (Peter Cain) e um amigo fazem serenatas a Alison. Incomodado, o carpinteiro vai encontrar Nicholas, como que em transe, que o convence de que se avizinha um dilúvio, e só sobreviverão se se prenderem tinas no tecto, cada um deles dentro de uma. Quando o carpinteiro adormece na sua tina, Nicholas e Alison escapam-se para consumarem o seu amor. Quem chega é Absalom, que ouvira dizer que o carpinteiro estava desaparecido. Para o afastar, Alison promete-lhe um beijo à janela, mas em vez da boca, dá-lhe o rabo, e a sua sonora flatulência. Absalom volta mais tarde, e é Nicholas quem repete o tratamento, para ser respondido com um ferro em brasa pelo ânus, que o leva a gritar por água, o que convence o carpinteiro que o dilúvio chegou, cortando a corda e caindo da tina do tecto para o chão.

Episódio 5, A mulher de Bath (Conto da Mulher de Bath): Na cidade de Bath uma esposa insatisfeita (Laura Betti) descobre, em casa de uma amiga (Judy Stewart-Murray), o jovem estudante Jenkin (Tom Baker), que passa logo a desejar. Numa festa que se sucede à morte do marido, a mulher convence Jenkin a desposá-la, mas este, relutante em consumar o acto sexual, é vítima da fúria dela. Na luta, a mulher bate com a cabeça e diz que vai morrer, para, quando Jenkin se aproxima, lhe morder o nariz violentamente.

Episódio 6, Os estudantes e o moleiro (O Conto do Lenhador): Com o tesoureiro da universidade em fim de vida, dois estudantes (Patrick Duffett e Eamann Howell) tomam o seu lugar, e vão negociar farinha a partir do trigo produzido. Mas quando trabalham no moinho, o moleiro (Tiziano Longo) solta-lhes o cavalo, para que, enquanto o buscam, ele troque farinha por farelo. Como anoitece, os estudantes pernoitam em casa do moleiro. Um acaba na cama com a filha do moleiro (Heather Johnson), enquanto o outro tem sexo com a mulher do moleiro (Eileen King), que se engana na cama. Pela aurora, o moleiro percebe o ocorrido e tenta agredir os estudantes, que fogem, levando a farinha boa, e um bolo feito pela filha do moleiro.

Episódio 7, Os três amigos e a Morte (Conto do Vendedor de Indultos): Ao passar um carro com o corpo de Rufus, três seus amigos boémios, Jack (Martin Whelar), Johnny (John McLaren) e Dick (Edward Monteith), querem saber o que lhe aconteceu. Dizem-lhes que, bêbedo, Rufus desafiou a Morte. Encontram depois um velho que diz esperar a Morte para que o leve. Em vingança, eles decidem matá-lo para o tirar à Morte, mas o velho diz que se a querem encontrar, só têm que procurar num bosque perto. Aí os amigos encontram um tesouro. Decidem então enviar Dick a comprar pão e vinho, enquanto guardam o tesouro. Dick decide envenenar o vinho dos amigos, enquanto estes combinam matá-lo à chegada. Assim acontece, com os três a morrer, Dick esfaqueado, os outros envenenados, encontrando, tal como queriam, a Morte.

Episódio 8, O frade ganancioso (Conto do Inquisidor): Um frade ganancioso (John Francis Lane) preside à morte de um homem rico, esperando ficar-lhe com a fortuna, para descobrir que este já a doou, presenteando-o apenas com um sonoro flato. Nessa noite o frade é visitado por um anjo (Settimo Castagna) que lhe propõe uma visita ao inferno. Aí o frade testemunha torturas dantescas, como quadros de Bosch, com demónios a proceder a mutilações, sodomia, enforcamentos, e os frades a serem defecados dos ânus dos demónios.

Há um claro anacronismo, com o guarda-roupa a remeter para a Itália renascentista, e os cenários a usar edifícios por vezes posteriores ao tempo de Chaucer. Tal é, obviamente, considerado por Pasolini, o qual quer, antes de mais, trazer-nos imagens coloridas, de uma grandiosidade não encenada, onde o uso de actores não profissionais (salvo alguns casos, como Hugh Griffith e Tom Baker), ajuda a um certo desconforto que aumenta o lado grotesco e cómico da maioria dos contos. Com os comportamentos populares em cheque, uma forte componente sexual, uso da nudez explícita e uma aposta nos grandes planos, as imagens de Pasolini chegam-nos quase como postais ilustrados, pintados por Brueghel ou Bosch com a força desses planos grotescos a superar a necessidade de uma acção (ou mesmo uma decoupage) realista.

A adaptação de Pasolini é relativamente livre, com os temas de fundo a serem depois tratados com uma abordagem que privilegia os episódios sexuais e as hipocrisias morais e sociais. Por outro lado, as personalidades e eventos são por vezes alterados, por exemplo com Ninetto Davoli no papel de Perkyn no Conto do Cozinheiro, com maneirismos que fazem lembrar Chaplin. De um modo quase inocente, Pasolini aborda aspectos, dir-se-ia, instintivos da natureza humana, desde a ganância à inveja e dos prazeres carnais à traição. Tudo nos chega com uma certa alegria natural das gentes simples, quase sem moralidade, no que Pasolini via como uma constante dos nossos dias, pelo qual terá chamado a esta trilogia, os filmes mais ideológicos da sua carreira.

Por entre nudez e crueza (tanto de gestos como de interpretações), obscenidade e inocência, sumptuosidade e fealdade, o filme de Pasolini é ele próprio uma viagem pelo mundo tão distante quanto excêntrico aos nossos olhos da Idade Média, ela própria feita de excessos, de hipocrisias, penas e descobertas.

Censurado e fortemente cortado em Itália, assim como noutros países, tanto pela exibição de nudez, como pela crueza obscena de muitas cenas, “Os Contos de Canterbury” venceu o Urso de Ouro de Melhor Filme no Festival Internacional de Berlim.

Elisabetta Genovese em "Os Contos de Canterbury" (I racconti di Canterbury, 1972), de Pier Paolo Pasolini

Produção:

Título original: I racconti di Canterbury; Produção: Produzioni Europee Associati (PEA) / Les Productions Artistes Associés; País: Itália / França; Ano: 1972; Duração: 112 minutos; Distribuição: United Artists; Estreia: 2 de Julho de 1972 (Berlin International Film Festival, RFA), 4 de Setembro de 1972 (Itália).

Equipa técnica:

Realização: Pier Paolo Pasolini; Produção: Alberto Grimaldi; Argumento: Pier Paolo Pasolini [a partir do livro homónimo de Geoffrey Chaucer]; Música: Ennio Morricone; Fotografia: Tonino Delli Colli [cor por Technicolor]; Montagem: Nino Baragli; Design de Produção: Dante Ferretti; Cenários: Ken Muggleston; Figurinos: Danilo Donati; Caracterização: Otello Sisi; Efeitos Especiais: Luciano Anzellotti; Direcção de Produção: Alessandro von Norman.

Elenco:

Hugh Griffith (Sir January), Laura Betti (A Mulher de Bath), Ninetto Davoli (Perkin), Franco Citti (O Diabo), Josephine Chaplin (May), Alan Webb (Velho), Pier Paolo Pasolini (Geoffrey Chaucer), J. P. Van Dyne (O Cozinheiro), Vernon Dobtcheff (O Franklin), Adrian Street (Lutador), O. T. (Inquisidor-Mor), Derek Deadman (O Perdoador), Nicholas Smith (Frade), George Bethell Datch (Hospedeiro), Dan Thomas (Nicholas), Michael Balfour (John, o Carpinteiro), Jenny Runacre (Alison), Peter Cain (Absalom), Daniele Buckler (Inquisidor), John Francis Lane (Frade Ganancioso), Settimio Castagna (Anjo), Athol Coats (Homosexual Rico), Judy Stewart-Murray (Alice), Tom Baker (Jenkin), Oscar Fochetti (Damian), Willoughby Goddard (Placebo), Peter Stephens (Justinus), Giuseppe Arrigio (Pluto), Elisabetta Genovese (Prosperine), Gordon King (Chanceler), Patrick Duffett (Alan), Eamann Howell (John), Tiziano Longo [como Albert King] (Simkin, o Moleiro), Eileen King (Esposa de Simkin), Heather Johnson (Molly), Robin Askwith (Rufus), Martin Whelar (Jack, A Justiça), John McLaren (Johnny, A Graça), Edward Monteith (Dick, O Pardal), Kervin Breen, Franca Sciutto, Vittorio Fanfoni.