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The House of the Devil Samantha (Jocelin Donahue) é uma estudante universitária que precisa de mudar para um apartamento seu para ter paz de espírito, o que não consegue nos dormitórios universitários. Para tal precisa de dinheiro e é como babysitter que vê a solução, quando encontra anúncios pelo campus. Mesmo que do outro lado o comportamento do homem que a contrata lhe pareça estranho, Samantha, com a ajuda da amiga Megan (Greta Gerwig), vai até ao local indicado, uma casa isolada, onde habita o casal Ulman (Tom Noonan e Mary Woronov), que a incumbe de tomar conta de uma velha senhora. Mas a noite rapidamente se torna um pesadelo quando estranhas ocorrências começam a assustar Samantha.

Análise:

Fazendo carreira, principalmente no género do terror, Ti West sempre se mostrou como admirador dos clássicos dos anos 80, algo que transparece nos seus filmes, quer quanto à atmosfera, quer quanto aos temas escolhidos. É isso que se passa com “The House of the Devil”, um filme independente, filmado em apenas 18 dias, onde West, que também escreveu o argumento, nos transporta para a década de 80.

É nessa década que decorre a história (apresentada como baseada em factos reais), é nela que se inspira o visual e banda sonora, e é principalmente ela que modela tanto a história (quase que um slasher de vertente satânica) como toda a estética seguida por West (que filmou em 16 mm e inclui créditos iniciais sobre still frames), desde os muitos travellings (propositadamente toscos) de exteriores, à perspectiva subjectiva e claustrofóbica nos momentos de tensão nos interiores.

A história é a de Samantha (Jocelin Donahue), uma rapariga normal, que para pagar o seu apartamento, enquanto estuda na universidade, aceita um trabalho de babysitter. Só que quem a contrata é um sinistro casal Ulman (Tom Noonan e Mary Woronov), que a trata, ainda que cordialmente, de um modo algo estranho, causando algum desconforto quando ela fica sozinha na grande mansão, isolada de qualquer área habitacional. Como tarefa, Samantha só tem de olhar pela mãe da senhora Ulman, preferencialmente sem a ver ou incomodar. Cedo Samantha começa a perceber que algo estranho se passa na mansão, com estranhos ruídos e movimentos a vir de parte incerta. Entretanto, a amiga Megan (Greta Gerwig), que lhe dera boleia, é barbaramente assassinada nas redondezas, enquanto constantes menções a um eclipse lunar trazem suspeitas de rituais mágicos estarem a ser preparados. Após um jogo de gato e de rato dentro da mansão, Samantha vê-se como vítima de uma seita que apenas a chamou para lhe usar o corpo num ritual iniciático. Mas a sua combatividade vai-lhe permitir fugir e livrar-se dos Ulman.

“The House of the Devil” tem, para além da recriação, em jeito de homenagem, da atmosfera dos filmes de terror dos anos 80, o mérito de saber estender, com paciência, o acumular da tensão que se vai criando na história de Samantha. Com uma interpretação convincente da jovem Jocelin Donahue, aqui no seu primeiro papel de protagonista numa longa-metragem.

Usando, como referido, a iconografia do slasher e da casa assombrada, com o lugar-comum da final girl (neste caso praticamente a única rapariga), Ti West não cai no facilitismo de sustos e sangue gratuitos, sabendo construir a tensão, sugerindo-nos ameaças muito antes de as vermos concretizadas (como acontece na morte de Megan). Estas são criadas com ruídos misteriosos, com os olhares inquietantes dos Ulman, com uma história que não bate certo, com uma casa onde cada porta sugere uma armadilha, com a misteriosa presença de uma velha senhora que não vemos, e (porque não?) com a inocência de Samantha, que cada vez que se retira para o seu mundo com o seu walkman parece estar a convidar que alguém ou alguma coisa a surpreenda.

“The House of the Devil” é, por isso, uma atmosfera de crescente tensão, onde cada pedaço do cenário elicita um suspense quase hitchcokiano, até à catarse final (essa sim bem cheia de sangue), a partir do momento em que Samantha acorda, amarrada, no meio de um ritual onde se vê abusada e violentada, numa evocação “A Semente do Diabo” (Rosemary’s Baby, 1968) de Roman Polanski.

“The House of the Devil” resulta, em contraponto com o gore gratuito do terror seu contemporâneo, como um filme elaborado, de visual cuidado, tensão bem construída, e uma interpretação envolvente de Donahue, que lhe valeu o troféu de melhor actriz do Screamfest de 2009.

Jocelin Donahue em "The House of the Devil (2009), de Ti West

Produção:

Título original: The House of the Devil; Produção: MPI Media Group / Constructovision / RingTheJing Entertainment / Glass Eye Pix; Produtores Executivos: Malik B. Ali, Badie Ali, Hamza Ali, Greg Newman; País: EUA; Ano: 2009; Duração: 95 minutos; Distribuição: Magnet Releasing; Estreia: 25 de Abril de 2009 (Tribeca Film Festival, EUA), 30 de Outubro de 2009 (EUA), 1 de Outubro de 2010 (MOTELX, Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Ti West; Produção: Josh Braun, Roger Kass, Larry Fessenden, Peter Phok; Co-Produção: Derek Curl; Argumento: Ti West; Música: Jeff Grace, Graham Reznick (música adicional); Supervisão Musical: Lisa Klein Moberly; Fotografia: Eliot Rockett; Montagem: Ti West; Design de Produção: Jade Healy; Direcção Artística: Chris Trujillo; Cenários: Dennis Franklin; Figurinos: Robin Fitzgerald; Caracterização: Ozzy Alverez, Danielle Noe; Efeitos Especiais: ; Efeitos Visuais: John C. Loughlin; Direcção de Produção: Jacob Jaffke.

Elenco:

Jocelin Donahue (Samantha), Tom Noonan (Mr. Ulman), Mary Woronov (Mrs. Ulman), Greta Gerwig (Megan), Dee Wallace (Senhoria), AJ Bowen (Victor Ulman), Heather Robb (Colega de Quarto), Brenda Cooney (Enfermeira), Darryl Nau (Homem), Mary B. McCann (Elaine Cross), John Speredakos (Ted Stephen).