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Dominion: Prequel to the Exorcist Depois de testemunhar uma chacina dos seus paroquianos pelos nazis, durante a Segunda Guerra Mundial, o padre Lankester Merrin (Stellan Skarsgård) deixou o exercício da fé, e dedicou-se à arqueologia no Quénia. Aí é-lhe enviado o jovem padre Francis (Gabriel Mann) para o avaliar, ao mesmo tempo que Merrin desenterra uma antiga igreja cristã bizantina que parece estar como nova. Só que com a descoberta da igreja os ânimos começam a exaltar-se entre tropas britânicas e nativos quenianos, o que é exacerbado com duas mortes no interior da igreja. Os ingleses culpam os africanos, e estes o ostracizado Cheche (Billy Crawford), um rapaz com corpo mutilado, que começa a melhorar inexplicavelmente, o que leva o padre Francis a crer que tal se deva à presença do Demónio.

Análise:

Quase trinta anos depois da estreia de “O Exorcista” (The Exorcist, 1973), de William Friedkin, e depois de duas sequelas não muito bem sucedidas, chegou a vez de a Morgan Creek Productions tentar um relançamento da série, com um novo filme para o novo século. Sem o envolvimento do escritor William Peter Blatty, o argumento esteve a cargo de William Wisher e Caleb Carr, incumbidos de escrever uma prequela, que nos mostraria os primeiros encontros do, então jovem, Padre Lankester Merrin (originalmente interpretado por Max von Sydow) com o Demónio.

Para realizar o filme foi chamado John Frankenheimer, mas este viria a desistir por problemas de saúde. Foi então substituído por Paul Schrader, um dos nomes fortes da chamada New Wave de Hollywood, quer como argumentista, quer como realizador. Mas o resultado desagradou à Morgan Creek Productions, e o filme foi arquivado, sendo depois trabalhado por Renny Harlin, que filmou novas cenas, adicionou personagens e procedeu a nova montagem para aquilo que seria “Exorcista – O Princípio” (Exorcist: The Beginning, 2004). As péssimas críticas e resultados de bilheteira levaram a Morgan Creek a dar uma segunda oportunidade a Paul Schrader, que viu assim o seu filme finalmente nos cinemas, no ano seguinte, sob o título “Dominion: A Prequela de o Exorcista”.

O filme de Schrader tem a acção a decorrer em África, numa missão arqueológica no Quénia dominado pelos ingleses. À frente da missão está Lankester Merrin (Stellan Skarsgård), um padre em suspensão e litígio com os seus superiores, de fé abalada por acontecimentos vividos na Segunda Guerra Mundial, onde assistiu à chacina dos seus paroquianos, tendo mesmo que apontar vítimas sob coacção nazi. Quando Merrin desenterra uma antiga igreja bizantina, num lugar onde o Cristianismo só terá chegado séculos depois, e que parece ter sido enterrada logo após a construção, os nativos começam a tratar os ingleses com hostilidade, referindo-se a um mal escondido, e agora desenterrado. Alvo desse medo é Cheche (Billy Crawford), um rapaz africano com vários problemas na sua constituição física, e ostracizado pelos locais. Sob os cuidados de Merrin, da médica Rachel Lesno (Clara Bellar) e do jovem Padre Francis (Gabriel Mann), enviado para avaliar Merrin, Cheche começa a curar-se inexplicavelmente. É Francis o primeiro a notar as transformações em Cheche, querendo baptizá-lo para expurgar uma possível presença maléfica. Mas, já possuído, Cheche mata Francis, e gera a confusão que lança ingleses e africanos numa quase chacina total. É então que Merrin percebe que a igreja era uma forma de selar o mal no seu interior, e é lá que enfrenta o demónio presente em Cheche, salvando-o, e trazendo de novo a paz à região.

Fugindo ao espírito do filme original (que nos dava uma história claustrofóbica, passada num quarto da escura e húmida Georgetown), “Dominion: A Prequela de o Exorcista” transporta-nos, um pouco à luz do que acontecera em “O Exorcista II: O Herege” (Exorcist II: The Heretic, 1977), para a vasta e solarenga planície africana, que Schader filmou em Marrocos e nos estúdios da Cinecittà, em Roma. O resultado é um filme sem o carácter sombrio da série, mas onde a tensão nos chega de confrontos psicológicos, como o são o passado por resolver do Padre Merrin, ou a luta pela fé do Padre Francis. A isto aliam-se enredos paralelos, como a prepotente presença colonial britânica e a hostilidade e superstição dos nativos.

Com uma série de histórias por tratar, onde um possível interesse romântico entre Merrin e Rachel chega a ser aflorado, o filme é uma lenta caminhada, por entre um acumular de pistas, e descobertas arqueológicas que não envergonhariam Indiana Jones, até ao acto final, em que no mundo material se defrontam ingleses e africanos, e no espiritual se defrontam Merrin e o Demónio. Tal torna-o uma alegoria sobre o mal em formas bem mais palpáveis e sempre presentes na humanidade (desde o nazismo aos excessos do colonialismo e intolerância por outras culturas).

Sem muito de novo a dizer, “Dominion: A Prequela de o Exorcista” marca pela presença sempre sólida de Stellan Skarsgård, e pela fotografia belíssima, que confere uma certa classe ao filme. Tal valer-lhe-ia mesmo os elogios de William Peter Blatty, e de uma parte da crítica, embora o filme também falhasse comercialmente, o que se explica pelo seu lançamento em pequena escala, e logo após o fracasso da versão de Harlin (também com Stellan Skarsgård, mas com Izabella Scorupco e James D’Arcy nos dois outros papéis principais), que porventura não terá deixado que o público percebesse que “Dominion” era um filme diferente, e não apenas uma reciclagem de “Exorcista – O Princípio” com outro nome.

Como curiosidade note-se o plano final, com o personagem de Stellan Skarsgård a afastar-se, enquadrado por uma porta, desaparecendo na poeira, algo que lembra imediatamente John Wayne em “A Desaparecida” (The Searchers, 1956) de John Ford.

Stellan Skarsgård em "Dominion: A Prequela de o Exorcista" (Dominion: Prequel to the Exorcist, 2005), de Paul Schrader

Produção:

Título original: Dominion: Prequel to the Exorcist; Produção: Morgan Creek Productions; Produtores Executivos: Guy McElwaine, David C. Robinson; País: EUA; Ano: 2005; Duração: 111 minutos; Distribuição: Warner Bros.; Estreia: 20 de Maio de 2005 (EUA).

Equipa técnica:

Realização: Paul Schrader; Produção: James G. Robinson; Co-Produção: Art Schaefer, Wayne Morris; Argumento: William Wisher, Caleb Carr [baseado em personagens de William Peter Blatty]; Música: Trevor Rabin, Angelo Badalamenti, Dog Fashion Disco; Fotografia: Vittorio Storaro [filmado em Univisium]; Montagem: Tim Silano, William Yeh [não creditado]; Design de Produção: John Graysmark; Direcção Artística: Stefano Maria Ortolani; Cenários: Alessandra Querzola (Itália), Elli Griff (Marrocos); Figurinos: Luke Reichle; Caracterização: Fabrizio Sforza; Efeitos Especiais: Danilo Bollettini; Efeitos Visuais: Tom Mahoney, Paolo Zeccara (Proxima s.r.l.), John Gross (Eden FX); Direcção de Produção: Wayne Morris.

Elenco:

Stellan Skarsgård (Padre Lankester Merrin), Gabriel Mann (Padre Francis), Clara Bellar (Rachel Lesno), Billy Crawford (Cheche), Ralph Brown (Sargento-major), Israel Oyelumade [como Israel Aduramo] (Jomo), Andrew French (Chuma), Antonie Kamerling (Kessel), Julian Wadham (Major Granville), Eddie Osei (Emekwi), Ilario Bisi-Pedro (Sebituana), Niall Refoy (Cabo Ladrão), Lorenzo Camporese (Soldado Ladrão), Burt Caesar (Dr. Lamu).