Etiquetas

, ,

Jean-Pierre Melville

Jean-Pierre Melville

por João Paulo Costa
editor de vídeo
colaborador da revista Take Cinema Magazine

Nascido em Paris em 1917, a mesma cidade onde viria a falecer em 1973, Jean-Pierre Melville é um dos heróis por vezes pouco recordados do cinema francês, cujos filmes marcaram simultaneamente alguns dos seus conterrâneos um pouco mais novos como Godard, Truffaut ou Chabrol, como alguns dos mais reconhecidos cineastas internacionais da actualidade (refira-se, por exemplo, que Melville foi um dos nomes a quem Tarantino dedicou o guião original de “Cães Danados”). Apesar de ter assinado alguns dramas excelentes como “Les enfants terribles” (1950), “Amor Proibido” (Léon Morin, prêtre, 1961) ou “O Exército das Sombras” (L’armée des ombres, 1969), Melville ficou acima de tudo conhecido como autor de filmes de crime, abordando de forma tão elegante quanto emocionante, tanto o lado dos criminosos como dos polícias, e é nesses que este ciclo se irá centrar.

“Bob, o Jogador” (1956) foi a sua primeira incursão dentro do género, e à quarta longa-metragem construiu aquele que muitos vêem como um dos precursores de filmes como “O Acossado” (À bout de souffle, 1960) – de Godard, onde o próprio Melville tem um pequeno papel -, ou “Disparem Sobre o Pianista” (Tirez sur le pianiste, 1960), de Truffaut, não só porque se inspira no cinema noir clássico americano e segue personagens que vivem à margem da lei, como o faz com um estilo solto, muitas vezes de câmara à mão, e um sentido de humor muito peculiar. Nele seguimos Bob que, tal como o título indica, é um jogador em crise financeira, que planeia um assalto a um casino local. Com uma duração curta e um ritmo em constante andamento, rodado a preto e branco sem grandes adornos, o filme é um excelente balão de ensaio para o que Melville viria a construir mais tarde, no qual podemos ver já algumas das suas imagens de marca, seja na forma como se preparam complexos assaltos, seja na forma como estes são investigados, seja na forma como a sorte e os pequenos detalhes podem deitar tudo a perder. Curiosamente tem algumas semelhanças com outro título lançado no mesmo ano nos Estados Unidos, “Um Roubo no Hipódromo” (The Killing, 1956), de um tal de Stanley Kubrick.

Seguiu-se “Dois Homens em Manhattan” (1959), filme que acompanha um jornalista e um fotógrafo enquanto estes procuram o rasto de um delegado francês das Nações Unidas desaparecido em Manhattan. Curiosamente, Melville oferece a si próprio o papel principal, algo que fez pela única vez na sua própria filmografia, embora tenha aceite trabalhar como actor para outros realizadores. Mesmo não sendo um dos seus títulos mais conceituados, vê-se bastante bem, e os seus 80 minutos passam a correr. O mesmo se pode dizer de “Um Homem de Confiança” (1963), em que Jean-Paul Belmondo dá corpo a um ex-pugilista contratado como segurança privado de um banqueiro corrupto, em fuga após uma série de problemas financeiros. Este título marcou também a sua primeira rodagem a cores.

Jean-Paul Belmondo em "O Denunciante" (Le doulos, 1963), de Jean-Pierre Melville

No entanto, é outro trabalho de 1963, também com Jean-Paul Belmondo, que mais se destaca hoje em dia. Em “O Denunciante”, estamos situados num universo quase totalmente habitado por criminosos que, entre assaltos falhados, traições e denúncias, vivem a vida no limite, quase sempre olhando por cima do próprio ombro. Neste filme estão já expostos os códigos entre criminosos que tão importante parte viriam a tomar nos seus trabalhos posteriores.

“O Segundo Fôlego” (1966), é para muitos o seu primeiro verdadeiramente grande filme dentro do género. Com uma duração mais longa de 2 horas e 30 minutos, vemos aqui Melville a depurar o seu universo muito específico, no qual o famoso actor franco-italiano Lino Ventura assume o protagonismo, como um reputado criminoso em fuga da prisão, que precisa de um último golpe para escapar para Itália em segurança. No entanto, tem à perna um incansável e astuto inspector da polícia a investigar o caso. Chegados a este ponto, podemos já dizer que a assinatura de Melville se encontra no ponto máximo de perfeição. Aquela que começou como uma abordagem relativamente frenética tornou-se nesta fase bastante mais ponderada, com Melville a perder o seu tempo na construção de cenas, estabelecendo pacientemente o espaço e o universo por onde as personagens se movem.

No ano imediatamente a seguir, Melville prosseguia a sua carreira com aquele que é hoje talvez considerado o seu filme mais cool. “O Ofício de Matar” (1967), mais conhecido internacionalmente como “Le Samouraï”, segue um assassino profissional (Alain Delon) que vive sozinho no seu pequeno apartamento parisiense com a companhia de um pássaro engaiolado. Certo dia, é visto por testemunhas a matar o dono de um bar, e o até então perfeccionista e minucioso criminoso precisa agora de um alibi perfeito para escapar à prisão. Sendo um excelente filme por mérito próprio, o mais fascinante de “O Ofício de Matar” é a quantidade de excelentes outros títulos que inspirou ao longo dos tempos, como “O Profissional” (The Driver, 1978), de Walter Hill, “The Killer” (1989), de John Woo, “Passado Sangrento” (Sydney, 1996), de Paul Thomas Anderson, “Ghost Dog – O Método do Samurai” (Ghost Dog: The Way of the Samurai, 1999), de Jim Jarmusch, “O Americano” (The American, 2010), de Anton Corbijn ou “Drive – Risco Duplo” (Drive, 2011), de Nicolas Winding Refn, para mencionar apenas alguns, tendo criado uma espécie de sub-género do assassino profissional solitário, de poucas falas, e muita acção.

Alain Delon em "O Ofício de Matar" (Le Samouraï, 1967), Jean-Pierre Melville

Depois de ter assinado em 1969 “O Exército das Sombras”, obra-prima sobre a resistência francesa à invasão Nazi, Melville regressou ao género criminal para aquele que será talvez o pináculo do estilo que vinha desenvolvendo há décadas: “O Círculo Vermelho” (1970) é um filme minuciosamente escrito e realizado sobre um grupo de criminosos que se reúnem para um assalto, e sobre o inspector da polícia que lhes segue as pisadas. Digamos já de forma clara: sem “O Círculo Vermelho”, Michael Mann dificilmente nos teria oferecido a sua obra-prima “Heat – Cidade Sob Pressão” (Heat, 1995), tantas são as semelhanças entre os dois filmes, especialmente na maneira como perdem o seu tempo apenas a observar as suas personagens e as relações entre elas. Mas o melhor mesmo em “O Círculo Vermelho” é a longa sequência do assalto onde nenhuma palavra é proferida durante vários minutos, na qual o realizador mostra que domina na perfeição as suas ferramentas e constrói uma fabulosa experiência estritamente visual.

“Cai a Noite Sobre a Cidade” (Un Flic, 1972) marcou o ponto final na carreira de um realizador que nos deixou demasiado cedo, com apenas 55 anos. Ainda assim, é uma maravilhosa despedida com uma nova história sobre um clássico jogo de gato e do rato entre a polícia e os ladrões. Desta vez Alain Delon encontra-se do lado bom da justiça, e investiga um assalto que correu mal. Começando o filme com nova sequência onde as imagens se sobrepõem totalmente às palavras, Melville comprovava definitivamente o seu domínio da linguagem cinematográfica que criou.

Alain Delon e Catherine Deneuve em "Cai a Noite Sobre a Cidade" (Un flic, 1972), de Jean-Pierre Melville

Filmes recomendados:
• “Bob, o Jogador” (Bob Le Flambeur, 1956)
• “Dois Homens em Manhattan” (Deux hommes dans Manhattan, 1959)
• “O Denunciante” (Le doulos, 1963)
• “Um Homem de Confiança” (L’aîné des Ferchaux, 1963)
• “O Segundo Fôlego” (Le deuxième souffle, 1966)
• “O Ofício de Matar” (Le samouraï, 1967)
• “O Círculo Vermelho” (Le cercle rouge, 1970)
• “Cai a Noite Sobre a Cidade” (Un flic, 1972)