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John Carpenter

John Carpenter

por António Araújo
autor do podcast Segundo Take
colaborador da revista Take Cinema Magazine

Depois de terminar “Estrela Negra”, uma comédia negra de ficção-científica que satirizava filmes como “2001 – Odisseia no Espaço” ou “O Cosmonauta Perdido”, John Carpenter foi abordado por um grupo de investidores que lhe ofereceram um orçamento que, apesar de limitado, vinha com carta branca para o projecto que o realizador bem entendesse. Quem conhece Carpenter sabe que este é um fã confesso de westerns, muito particularmente de Howard Hawks. Desta forma, Carpenter decidiu, em homenagem a Hawks, realizar o seu argumento inicialmente intitulado “The Anderson Alamo” que, impossibilitado de ser um verdadeiro western de época dado o orçamento reduzido, era na realidade uma adaptação moderna de “Rio Bravo”. Com o título alterado já em fase de pós-produção em 1976 para “Assault On Precint 13” (em português, “Assalto à 13ª Esquadra”) abriu as portas do seu realizador para o filme de 1978 de terror independente “Halloween – O Regresso do Mal”. Quis o destino que “Halloween” fosse uma obra-prima e o percursor de todo o subgénero de slashers que povoaram os anos 80, encerrando o seu autor na categoria de realizador de filmes de terror. Carpenter bem pode lamentar-se do rumo que a sua carreira tomou, mas dado o seu corpo de trabalho, mesmo com os momentos menos felizes, podemos afirmar que este é um realizador de excepção que nunca teve o reconhecimento generalizado que merece, especialmente no seu país de origem. Nas palavras do próprio: «Em França sou um autor; na Alemanha, um cineasta; no Reino-Unido um realizador de filmes de género; nos EUA um vadio.»

Foi em tenra idade que descobri John Carpenter. A descoberta dos seus filmes reforçou a minha paixão pelo cinema fantástico e apresentou prematuramente a um miúdo impressionável um dos autores que se tornaria num dos favoritos da sua infância cinéfila. Como era possível que tantos filmes fascinantes e assustadores tivessem sido realizados pela mesma pessoa? E, afinal de contas, o que era isto de ser um realizador? Porque tinha John Carpenter direito a ter o seu nome por cima dos títulos nos genéricos dos filmes? É verdade, John Carpenter foi também a primeira instância em que me apercebi do conceito de autor. Toda a gente conhecia Steven Spielberg e George Lucas pelo enorme sucesso dos seus filmes icónicos. Mas aqui estava alguém que fazia filmes adultos de género do qual o seu nome era indissociável. Esta descoberta fez-me compreender que existe um processo artístico por trás dos filmes e a partir daqui a minha sede de conhecimento foi aumentando exponencialmente. A minha forma de olhar o cinema nunca mais seria a mesma.

Ignorando alguns filmes importantes da sua filmografia, falo aqui daqueles que me são mais pessoais, numa escolha que se divide entre os filmes descobertos na televisão, por certo em sessões fora-de-horas espreitando timidamente por cima dos cobertores bem puxados para tapar a cabeça numa falsa sensação de segurança, e os filmes vistos no cinema, incluindo algumas das suas experiências à margem do terror.

A paixão cinéfila, quando apareceu, veio acompanhada de um impulso colecionista que cedo se traduziu em recortar todos os cartazes de filmes que apanhava em jornais — a preto-e-branco, portanto — colando-os sistematicamente em cadernos para a posteridade. Um dos mais intrigantes era “O Nevoeiro” (The Fog, 1980), com uma mulher em pânico a tentar forçar o fecho de uma porta de onde saía uma mão assustadora. Quando finalmente vi o filme descobri o poder subtil da sugestão nesta história de fantasmas que materializa os piores pesadelos dos contos e fábulas contados em acampamentos à volta de uma fogueira. Utilizando o isolamento com mestria, elemento recorrente na sua obra, constrói com a ajuda da fotografia de Dean Cundey — que já havia fotografado “Halloween” — uma pequena pérola subvalorizada do gótico americano. Pelo caminho junta a heroína do seu filme anterior, Jamie Lee Curtis, com a sua mãe, Janet Leigh, homenageando no processo este ícone do cinema do terror imortalizado por “Psico”, de Alfred Hithcock.

Com “Veio do Outro Mundo” (The Thing, 1982) Carpenter subverte o template clássico do filme de cowboys encurralados ao transpor uma ameaça inicialmente externa para o seio do grupo onde qualquer um pode ser o inimigo mortífero disfarçado, conseguindo um feito raro: o equilíbrio perfeito entre a tensão, a desconfiança e o terror sugerido com o horror gráfico absolutamente grotesco. Os efeitos especiais práticos são de outra era, mas mantêm a vitalidade e, a cada minuto que passa, corremos o risco de assistir a transformações cada vez mais inesperadas e violentas. O argumento de Bill Lancaster é exímio na economia e eficiência da caracterização das personagens e da progressão da acção. Na fronteira da caricatura e do estereótipo, cada personagem é, no entanto, distinta e provida de personalidade própria. Conseguimos perceber quem é quem e, da mesma forma, a gestão espacial permite-nos saber onde estamos a cada momento, com o mistério de quem poderá estar, ou não, infectado a ser claramente e consistentemente gerido pelos autores. “Veio do Outro Mundo” foi um fracasso de bilheteira quando estreou, claramente violento demais para um público que tinha acabado de conhecer o simpático extraterrestre de Steven Spielberg, mas o tempo fez justiça a este filme superior e é, hoje em dia, invariavelmente apontado como uma das obras maiores do seu autor.

Uma das primeiras recordações que tenho de “Christine: O Carro Assassino” (Christine, 1983) é a de ver o seu trailer em cassetes VHS de aluguer. Em conjunto com o trailer para “Alien – O Oitavo Passageiro”, de Ridley Scott, era o mais próximo de um pesadelo que já tinha visto, prometendo uma história fantástica de um automóvel inexplicavelmente senciente e vingativo. Especialmente perturbante era a sensação de implacabilidade e perseverança das investidas do automóvel clássico Plymouth Fury de 1958, para não falar da sua aparente indestrutibilidade. A precisão da adaptação de Carpenter de um conto de Stephen King teve dois efeitos: o primeiro foi dar a conhecer os elementos típicos de uma narrativa deste autor de terror como a nostalgia pelos anos 50, a preferência por personagens principais tímidas e/ou vítimas de abusos ou o elemento sobrenatural, felizmente deixado por explicar: o segundo foi ter elevado a fasquia das adaptações cinematográficas de livros do Stephen King, deixando muitos títulos envergonhados por comparação.

“Starman – O Homem das Estrelas” estreou em Dezembro de 1984, chegando a Portugal em Junho do ano seguinte. Contrariando as expectativas que envolviam um novo filme de John Carpenter, é um filme de ficção-científica, mas também um road movie com elementos dramáticos e de romance. Vi-o no desaparecido cinema Miramar em Cascais na sua exibição original, alheio a qualquer tipo de expectativa dados os meus oito anos de idade na altura. Carpenter, autoproclamado pessimista, revela aqui um lado optimista e positivo. Uma das várias cenas mágicas do filme vê Jeff Bridges — num dos momentos definidores da sua carreira — ressuscitar um veado naquele que é o ponto de viragem para a sua relutante companheira de viagem Jenny, em tentativa de fuga até então — uma interpretação convincente de Karen Allen exprimindo subtilmente uma mistura de vulnerabilidade, coragem, inteligência e paixão. A disponibilidade e a abertura emocional que revelam daqui para a frente tornam o romance entre os dois verosímil e adulto, nunca resvalando para o sentimentalismo fácil ou gratuito. Apesar do relativo sucesso de Starman e do reconhecimento da qualidade da interpretação de Jeff Bridges, nomeado para o Óscar de Melhor Actor, Carpenter foi acusado de se ter vendido ao fazer uma obra romântica.

“As Aventuras de Jack Burton Nas Garras do Mandarim” é o título em português inexplicavelmente longo de “Big Trouble in Little China” (1985). Vi-o no cinema, presumo que algures entre 1986 e 1987, e fiquei fascinado — especialmente pela sugestão de um submundo de magia que se esconde nos subterrâneos por baixo dos nossos pés. Durante anos, vivi na ilusão que este filme de exceção era unanimemente acarinhado. Até ao dia em que, com grande surpresa, leio algures que tinha sido um flop de bilheteira e que não era considerado como um dos melhores momentos de John Carpenter. Mais um caso de incompreensão da obra do autor: Kurt Russel é hilariante na desconstrução do herói confiante e autocentrado que o próprio, em conjunto com o realizador, tinha celebrizado com o Snake Plissken de “Nova Iorque, 1997” (Escape From New York, 1981) ou R. J. MacReady de “Veio do Outro Mundo” (The Thing, 1982). Em retrospectiva, percebi também que este foi o primeiro filme de John Carpenter após a aclamação com o mais sério e dramático “Starman: O Homem das Estrelas” e o último deste, na altura, para um grande estúdio, desiludido com os resultados e com a experiência. Em retrospectiva, nada disto me parece dramático pois logo de seguida fomos brindados com os filmes de menor orçamento, mas não menos impacto, “O Príncipe das Trevas” (Prince of Darkness, 1987) e “Eles Vivem” (They Live, 1988).

“Eles Vivem” (They Live, 1988) foi o primeiro filme que vi sozinho no cinema, em 1989. Tinha doze anos, tempo para matar e dinheiro da mesada no bolso. Foi com uma enorme sensação de libertação e emancipação que entrei no saudoso cinema Oxford em Cascais para ver um filme adulto e supostamente inacessível para uma criança da minha idade. A falta de controlo no acesso aos cinemas no nosso país apenas serviu para empolar o meu gosto por uma cinefilia de transgressão que reconheci nesta obra satírica de Carpenter, resultado da sua reação ao Reaganismo e ao florescer de uma sociedade materialista e de consumo na década de 80. O inimigo já está no meio de nós e apenas o uso de uns óculos especiais nos permite ver a verdade: estamos rodeados por alienígenas que ocupam lugares de poder e governação e, desde a televisão até às revistas e reclamos publicitários, tudo serve para nos controlar e subjugar subliminarmente. O futuro da humanidade encontra-se, então, nas mãos de Nada, o ex-wrestler Roddy Piper. “Eles Vivem” é um verdadeiro filme de culto. Dificilmente aparece em listas dos melhores ou é mencionado em retrospectivas. Porém considero-o imprescindível para quem tenha algum interesse, mesmo que passageiro, na filmografia de John Carpenter.

Filmes escolhidos:
vistos em casa:
• “O Nevoeiro” (The Fog, 1980)
• “Veio do Outro Mundo” (The Thing, 1982)
• “Christine: O Carro Assassino” (Christine, 1983)
vistos no cinema:
• “Starman – O Homem das Estrelas” (Starman, 1984)
• “As Aventuras de Jack Burton Nas Garras do Mandarim” (Big Trouble in Little China, 1985)
• “Eles Vivem” (They Live, 1988)