Etiquetas

, , , , , , , ,

La Chiesa No século XX, a perseguição religiosa a uma comunidade de crentes do demónio levou ao massacre de toda uma população, enterrada numa vala comum, sobre a qual foi construída uma catedral gótica, como selo contra o ressurgimento demoníaco. No século XX, trabalhos de restauro descobrem fragilidades na estrutura e galerias subterrâneas que levam a estranhas brechas, seladas com crucifixos. É isso que descobrem a restauradora Lisa (Barbara Cupisti), e o novo bibliotecário, Evan (Tomas Arana), que começam a estudar alguns manuscritos antigos, sob o olhar desconfiado do velho bispo (Feodor Chaliapin Jr), e que poderão conduzir a um terrífico segredo enterrado.

Análise:

Michele Soavi é um realizador italiano que sempre esteve ligado ao fantástico e ao género de terror italiano decorrente das experiências de exploitation e gore que se tornaram um nicho imensamento profícuo nos anos 80 do século XX, e que o tornaram especialista em contextos visuais marcadamente provocadores. Note-se que Soavi foi assistente de Dario Argento e de Terry Gilliam antes de dirigir o seu primeiro filme, numa produção de um dos reis do gore italiano, Joe D’Amato. Foi com produção de outro monstro sagrado do terror italiano, o supracitado Dario Argento, que Michele Soavi realizou o seu segundo filme, “A Catedral”.

Filmado em Itália, Budapeste e Hamburgo, o filme de Soavi, tendo por tema a presença demoníaca, foi desde logo associado à série Demónios, que originara o filme “Os Demónios” (Dèmoni, 1985) e “Os Demónios 2 – Um Novo Pesadelo” (Dèmoni 2… l’incubo retorna, 1986) ambos de Lamberto Bava e com produção de Argento. Por esta razão o filme foi por vezes promovido com nomes como “Cathedral of Demons”, “Demon Cathedral”, ou mesmo “Demons 3”. Ainda assim, Soavi sempre combateu esta ideia, defendendo que o seu filme apostava numa visão mais sofisticada do regresso do Demónio, longe dos festins de acção e sangue dos dois filmes anteriores.

Com um argumento trabalhado por, pelo menos, seis pessoas, levemente inspirado num conto de M. R. James, “A Catedral” conta-nos a estranha origem de uma catedral gótica, construída no século XII, sobre uma vala comum onde foram sepultados, depois de massacrados por cavaleiros teutónicos, os crentes de uma seita satânica da Alemanha medieval. A catedral funcionava assim como um selo sobre as forças do mal, encerrando ainda em si um mecanismo de autodestruição, que funcionaria como último recurso, no caso de o selo ser quebrado. Após um cru e sangrento prólogo, somos trazidos ao tempo contemporâneo, quando decorrem obras de restauro, conduzidas por Lisa (Barbara Cupisti), ao mesmo tempo que o novo bibliotecário, Evan (Tomas Arana) começa a intrigar-se com a antiguidade de alguns manuscritos. Tudo isto decorre sob o olhar atento do bispo (Feodor Chaliapin Jr), um padre idoso, e que carrega consigo segredos que o fazem olhar com desconfiança todos à sua volta. Quando os trabalhos de restauro abrem algumas brechas na estrutura da catedral, Lisa manda parar tudo, mas Evan vai investigar, descobrindo velhos pergaminhos, e o crucifixo que sela a passagem para a vala comum dos crentes do demónio. Ao abri-la, Evan vai ser possuído, e dar início a uma série de acontecimentos que levam possessões, visões fantásticas, comportamentos erráticos e muitos crimes por parte daqueles que ficam então fechados no interior da catedral. Resta ao padre Gus, após a morte do bispo, decifrar o enigma da catedral, e accionar o mecanismo de destruição que volte a selar a entrada do mundo inferior.

Começando com uma introdução histórica, o filme de Michele Soavi tem o cuidado de tentar a elaborada criação de um ambiente que justifique o apocalipse por vir. Nesse sentido as histórias pessoais são pouco importantes o que justifica interpretações (e papéis) pouco interessantes de Tomas Arana, Barbara Cupisti e Hugh Quarshie. Acaba por ser a muito jovem Asia Argento que, embora num papel também ele muito inconsequente (adjectivo extensivo a quase todos os personagens e insípidas histórias paralelas), consegue uma interpretação mais emotiva.

Passado quase todo no interior de uma catedral (seja na igreja, sacristia, catacumbas ou áreas adjacentes), “A Catedral” centra-se na criação de um ambiente que faz uso da mitologia demoníaca para brincar com imagens, às vezes como aparições surreais, muitas das vezes retiradas de peças artísticas (como a criatura em forma de peixe que suga a alma de um ser humano, ou a mulher que vemos nua de costas, abraçada por um demónio alado, numa alusão a uma peça fantástica de Boris Valejo). Por entre essas imagens soltas temos ainda, na herança italiana, muito sangue, com trespassares violentos, quedas das alturas, carne dilacerada, peles arrancadas, e claro, numa tradição que já vinha de “A Semente do Diabo” (Rosemary’s Baby, 1968) de Roman Polanski, a cena de violação por um demónio.

Tudo acaba por se resolver numa espécie de caça ao tesouro, em que a solução é encontrada resolvendo um enigma. No final o mal é novamente enclausurado, ficando a ideia de que as antigas catedrais góticas encerravam algo de maléfico, tendo sido arquitectadas como o prodígio que foram, numa espécie de luta entre Deus e o Demónio, de segredos ancestrais maiores do que ao homem é dado a conhecer.

Em iguais doses de sangue, sadismo, imaginário gótico e mistério religioso, “A Catedral” destaca-se do vulgar gore italiano, tendo sido aclamado pela crítica internacional. O filme é notável ainda por unir na mesma banda sonora nomes como Keith Emerson (dos Emerson, Lake and Palmer), Philip Glass e a banda italiana (habitual colaboradora de Dario Argento) Goblin.

Imagem de "A Catedral" (La Chiesa, 1989), de Michele Soavi

Produção:

Título original: La Chiesa; Produção: ADC Films (as ADC) / Cecchi Gori Group / Tiger Cinematografica / Reteitalia; País: Itália; Ano: 1989; Duração: 102 minutos; Distribuição: TriStar Pictures; Estreia: Estreia: 18 de Março de 1989 (Itália).

Equipa técnica:

Realização: Michele Soavi; Produção: Dario Argento, Mario Cecchi Gori, Vittorio Cecchi Gori; História: Dario Argento, Franco Ferrini [baseado no conto “The Treasure of Abbot Thomas” de M. R. James]; Argumento: Dario Argento, Franco Ferrini, Michele Soavi, Fabrizio Bava (prólogo) [não creditado], Lamberto Bava [não creditado], Dardano Sacchetti [não creditado]; Diálogos da Versão Inglesa: Nick Alexander; Música: Keith Emerson, Philip Glass, Goblin, Fabio Pignatelli, Max Carola; Fotografia: Renato Tafuri [cor por Eastmancolor]; Montagem: Franco Fraticelli; Design de Produção: Massimo Antonello Geleng; Cenários: Caterina Napoleone; Figurinos: Maurizio Paiola; Caracterização: Rosario Prestopino; Efeitos Especiais: Renato Agostini; Criações Cénicas: Sergio Stivaletti; Direcção de Produção: Giuseppe Mangogna.

Elenco:

Hugh Quarshie (Padre Gus), Tomas Arana (Evan), Feodor Chaliapin Jr. (O Bispo), Barbara Cupisti (Lisa), Antonella Vitale (Modelo Noiva), Giovanni Lombardo Radice (Reverendo), Asia Argento (Lotte), Roberto Caruso (Freddie), Roberto Corbiletto (Hermann, o Sacristão), Alina De Simone (Mãe de Lotte), Olivia Cupisti (Mira), Gianfranco De Grassi (O Acusador), Claire Hardwick (Joanna), Lars Jorgensen (Bruno), John Karlsen (Heinrich).