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Prince of Darkness Numa igreja abandonada de Los Angeles, um padre (Donald Pleasence) descobre um segredo guardado há milénios, um estranho contentor que encerra um líquido verde que parece ganhar vida, enquanto os livros à sua volta apontam para referências religiosas que o descrevem como contendo a essência do demónio. Com a ajuda do professor de física, Howard Birack (Victor Wong), o padre monta um grupo multidisciplinar de cientistas para estudar e conter o fenómeno. Mas cedo os cientistas começam, um por um, a ser vítimas do estranho líquido verde, passando a agir de acordo com forças maléficas não compreendidas.

Análise:

Com “O Príncipe das Trevas”, John Carpenter realizava o segundo filme da sua chamada “Trilogia do Apocalipse”, que contém também “Veio do Outro Mundo” (The Thing, 1982) e “A Bíblia de Satanás” (In the Mouth of Madness, 1995). A sua inspiração para o filme que, como habitualmente, escreveu, realizou e musicou, chegou-lhe da física teórica, em particular da ideia de anti-matéria como metáfora para algo de maléfico, o que o fez ter chegado a um argumento carregado de linguagem e ambiente científicos. Depois do filme de fantasia e aventura, “As Aventuras de Jack Burton nas Garras do Mandarim” (Big Trouble in Little China, 1986), um filme que, para desespero do realizador, foi comercializado como se fosse um clone da saga de Indiana Jones, Carpenter voltava aos lados mais negros do cinema de terror, em produções independentes, optando por se manter fora do controlo das majors, assinando um contrato de vários filmes com a Alive Pictures, e assegurando controlo criativo.

Filmado em apenas trinta dias, “O Príncipe das Trevas” é uma história de confronto entre o mundo asséptico e claro da ciência, e aquilo que de mais obscuro possa ainda existir no conhecimento humano. Estes dois mundos são colocados em contacto quando um padre (Donald Pleasence) descobre numa igreja de Los Angeles, onde um idoso padre pertencente a uma seita secreta acabou de morrer, um contentor que encerra um líquido verde que parece vivo. A seita, agora desaparecida era reputada de guardar segredos milenares, e tudo o que dela fica são livros difíceis de decifrar, mas que apontam para a existência de algo maléfico entre nós. O padre chama então o seu conhecido professor de física teórica, Howard Birack (Victor Wong), que monta uma equipa pluridisciplinar de cientistas, teólogos e linguistas, que vão analisar o que se passa em torno daquele contentor.

Ao mesmo tempo, coisas estranhas começam a acontecer, como um enorme número de pessoas em estado zombie que os observa de fora, ruídos e movimentos estranhos no interior da igreja, e por fim, a manifestação de vontade própria por parte do líquido verde, que vai contagiando os cientistas um por um, tornando-os seus agentes. O objectivo é o uso de um deles como veículo pelo qual o líquido se torne um ser vivo, o próprio Satanás, que deverá depois chamar o seu pai, um anti-Deus encerrado noutra dimensão e que irá pôr em causa toda a criação de Deus.

Fazendo uso de actores habituais, como Victor Wong, Dennis Dun e Donald Pleasence, sendo que Peter Jason se estreava e se manteria com ele durante outros filmes, John Carpenter consegue com “O Príncipe das Trevas” um filme ao seu estilo, onde o horror está sobretudo nos temas, e a atmosfera inquietante é construída cena a cena, sem a necessidade de truques de banda sonora ou sustos gratuitos.

Com a maioria da acção a decorrer numa velha igreja, de corredores decadentes e caves sombrias, Carpenter usa a sua tradicional paleta de cores garridas, e uma alternância de planos largos e claustrofóbicos, para ir criando a tensão que deseja, e que nos é transmitida por um grupo de estudantes de ciência, em particular o par Brian Marsh (Jameson Parker) e Catherine Danforth (Lisa Blount). A um ritmo paciente, vemos como o grupo se vai desintegrando, vítima dos mais variados males, desde a paranóia e inquietação iniciais, até aos sangrentos ataques do bando de sem abrigo que os vigia do exterior (com destaque para a presença do músico rock Alice Cooper, trazido pelo seu agente e produtor executivo do filme, Shep Gordon), passando por estranhos sonhos hipnóticos que vão afectando todos, culminando no momento em que parte do grupo, sob influência maléfica começa a matar a outra parte. Por entre cenas violência, de puro gore, ou simples ameaça, “O Príncipe das Trevas” vai passando de um terror de ideias, para algo bem mais concreto e visual, terminando com a destruição de uma figura asquerosa que será a tentativa de encarnação de Satanás num corpo de forma humana.

“O Príncipe das Trevas”, apesar de passar despercebido entre o grande público, tornou-se desde então um filme de culto para fãs de John Carpenter, pelo modo elaborado e cru com que lida com o tema do mal absoluto, numa atmosfera de casa assombrada que tem mais de intriga criminal que das tradicionais e gastas intrigas de possessão demoníaca, numa cinematografia inspirada, e com momentos em que sentimos uma aura de um surrealismo onírico, talvez inspirada em Dario Argento. Pelo lado negativo fica a frieza do elenco, sem personagens que nos façam sentir grande empatia, onde, por exemplo, os citados Jameson Parker e Lisa Blount nunca nos convencem pelas suas histórias pessoais, e onde muitos dos outros personagens conseguem ser particularmente irritantes a ponto de os preferirmos mortos.

Susan Blanchard em "O Príncipe das Trevas" (Prince of Darkness, 1987), de John Carpenter

Produção:

Título original: Prince of Darkness; Produção: ; Produtores Executivos: Andre Blay, Shep Gordon; País: EUA; Ano: 1987; Duração: 98 minutos; Distribuição: Universal Pictures; Estreia: 23 de Outubro de 1987 (EUA), 26 de Agosto de 1988 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: John Carpenter; Produção: Larry J. Franco; Argumento: John Carpenter [como Martin Quatermass]; Música: John Carpenter, Alan Howarth; Fotografia: Gary B. Kibbe [filmado em Panavision, cor por DeLuxe]; Montagem: Steve Mirkovich; Design de Produção: Daniel A. Lomino; Cenários: Rick Gentz; Guarda-roupa: Deahdra Scarano; Caracterização: Francisco X. Pérez; Efeitos Especiais: Kevin Quibell; Efeitos Visuais: Robert Grasmere; Direcção de Produção: Stratton Leopold.

Elenco:

Donald Pleasence (Padre), Jameson Parker (Brian Marsh), Lisa Blount (Catherine Danforth), Victor Wong (Prof. Howard Birack), Dennis Dun (Walter), Susan Blanchard (Kelly), Anne Marie Howard (Susan Cabot), Ann Yen (Lisa), Ken Wright (Lomax), Dirk Blocker (Mullins), Jessie Lawrence Ferguson (Calder), Peter Jason (Dr. Paul Leahy), Robert Grasmere (Frank Wyndham), Thom Bray (Etchinson), Alice Cooper (Street Schizo), Joanna Merlin (Mulher do Saco), Betty Ramey (Freira), Jessie Ferguson (Figura de Negro).

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