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The Sentinel A modelo nova-iorquina Alison Parker (Cristina Raines) recebe uma proposta de casamento do namorado, o advogado Michael Lerman (Chris Sarandon), mas decide, ao invés, que é tempo de ir morar sozinha. Para tal aluga um apartamento num prédio antigo de Brooklyn, dominado pela figura à janela do padre Halliran (John Carradine), um velho cego e recluso, e onde os vizinhos, liderados por Charles Chazen (Burgess Meredith), começam a surgir-lhe, nem sempre dos modos mais simpáticos, culminanando no ataque pela figura fantasmagórica do seu pai, já falecido. Isto leva o detective Gatz (Eli Wallach) a desconfiar que Lerman está a tentar enlouquecer a namorada, já que a história dela não faz sentido, pois o prédio é desabitado, e todos os nomes que ela dá são de assassinos mortos há muitos anos. Ao mesmo tempo Lerman decide investigar por conta própria, chegando ao Monsenhor Franchino (Arthur Kennedy), o qual tem um estranho dossier sobre Alison.

Análise:

A partir do livro homónimo de Jeffrey Konvitz, Michael Winner realizou “A Sentinela”, filme que foi escrito e produzido Konvitz e Winner em colaboração para a Universal Pictures. Um pouco na senda dos novos clássicos de terror como “A Semente do Diabo” (Rosemary’s Baby, 1968) de Roman Polanski, “O Exorcista” (The Exorcist, 1973) de William Friedkin e “O Génio do Mal” (The Omen, 1976) de Richard Donner, aquilo que interessava a Konvitz e Winner era o evoluir de uma história de terror psicológico, baseada nos acontecimentos que vão sucedendo a uma jovem mulher, tornando-a cada vez mais próxima da loucura, numa realidade que começa a não fazer mais sentido.

A mulher é Alison Parker (Cristina Raines), uma jovem modelo, que namora o advogado Michael Lerman (Chris Sarandon). Michael pede Alison em casamento, mas esta sente que, perante algumas dificuldades no seu passado, está na hora de morar sozinha durante uns tempos, para se fortalecer interiormente. Aluga para isso um apartamento num antigo prédio, do topo do qual espreita sempre o sinistro padre Halliran (John Carradine) cego, recluso, e que não fala com ninguém. Assim que se muda, Alison começa a ser contactada por vizinhos, ouve ruídos estranhos, e é convidada para festas surreais. Quando descobre que, para além do padre, ninguém mais mora no prédio, Alison julga enlouquecer, dando-se o colapso quando certa noite, é perseguida pela figura fantasmagórica do seu pai, já falecido.

Lerman decide então investigar o que se passa, com o detective Gatz (Eli Wallach) no seu encalço, pois Lerman é ainda suspeito da morte da sua primeira mulher. A pista de Lerman leva-o até à diocese responsável por Halliran, onde descobre que o Monsenhor Franchino (Arthur Kennedy) tem um dossier sobre Alison, que pertencerá a uma estirpe de pessoas condenadas a desaparecer e reaparecer como clérigos sob outro nome, cada um exactamente no dia em que a antecessora morre. Lerman volta ao prédio para obter a verdade de Halliran, e no desespero quase o mata, sendo morto por Franchino no processo. Quando Alison regressa, descobre que todos aqueles que vira no prédio são demónios, encarnando antigos assassinos, que tentam levá-la ao suicídio. Mas com ajuda de Franchino, Alison resiste, e no momento em que Halliran morre, é ela a carregar a sua cruz, como Sentinela que envia aquelas almas para o inferno, e vigia (cega à janela, como Halliran fizera) as portas do inferno.

A primeira crítica a fazer a “A Sentinela” é pela forma como segue quase como um decalque, a história de “A Semente do Diabo”. Tal como no filme de Polanski, temos alguém que se muda para um prédio antigo, para ser confrontada por sinistros vizinhos, que lhe tentam mudar o modo de vida, levando-a à paranóia e medo, que a farão estar sozinha contra todos, e a poderão levar à tragédia. No caso de “A Sentinela”, Alison tem o apoio do noivo, mas este, com um passado obscuro que poderá envolver a morte da primeira mulher, é ele próprio perseguido pela polícia, e poderá ter algo a esconder. O filme tem pontos fortes na atmosfera sinistra do prédio antigo, e na presença quase omnisciente do personagem de John Carradine, que quase sem uma palavra incomoda, e impõe respeito.

Michael Winner (realizador com carreira tanto na Inglaterra, como nos Estados Unidos, particularmente em thrillers de espionagem e de acção) sabe jogar com os espaços, as sombras e a noite (com parte das filmagens num verdadeiro antigo edifício de Brooklyn, Nova Iorque), seguindo com mestria o exemplo de Polanski no filme supracitado. “A Sentinela” é, de resto, bem servido de um elenco simplesmente notável, onde, para além dos citados Cristina Raines, Chris Sarandon, John Carradine, Eli Wallach e Arthur Kennedy, temos em papéis secundários: Ava Gardner como a agente imobiliária de intenções desconhecidas, Martin Balsam como um excêntrico e distraído especialista de latim, José Ferrer como um elusivo cardeal, Burgess Meredith como uma espécie de líder dos fantasmagóricos vizinhos de Alison, Christopher Walken como o silencioso detective Rizzo, Jeff Goldblum como o fotógrafo de Alison, Sylvia Miles e Beverly D’Angelo como as vizinhas lésbicas de Alison, Deborah Raffin como a amiga Jeffiner e Hank Garrett como o infortunado detective privado, para além de cameos de Jerry Orbach, William Hickey, Tom Berenger e Nana Visitor

O filme não se coíbe de mostrar orgias, exibicionismo, lesbianismo, tentativas de suícido, canibalismo, e uma série de figurantes de deformidades várias, que contribuem para um crescendo, não só da tensão, mas do desconforto geral. Ao mesmo tempo, “A Sentinela” procura referências eruditas, como o habitual recurso ao peso Igreja Católica e ainda ao livro “O Paraíso Perdido” de Milton, para ajudar ao lado mais sério da ameaça demoníaca, que parece espreitar naquele prédio sinistro, que funciona como uma ponte (com tanto de onírico) entre dois mundos. Essa mistura de um lado mais grotesco e sangrento com um lado onírico, remete sempre à influência do cinema do italiano Dario Argento, que no mesmo ano realizava o seu célebre “Suspiria”.

Pelo lado negativo, para além de ter sido sempre visto como um filme derivativo de “A Semente do Diabo”, “A Sentinela” sofre por Cristina Raines não ser Mia Farrow, e por se perder um pouco numa série de enredos paralelos que não acabam devidamente explorados.

Jeffrey Konvitz escreveria mais tarde uma sequela intitulada “The Guardian”, a qual nunca foi adaptada ao cinema.

John Carradine em "A Sentinela" (The Sentinel, 1977), de Michael Winner

Produção:

Título original: The Sentinel; Produção: Universal Pictures / Jeffrey Konvitz Productions; País: EUA; Ano: 1977; Duração: 92 minutos; Distribuição: Universal Pictures; Estreia: 17 de Janeiro de 1977 (EUA).

Equipa técnica:

Realização: Michael Winner; Produção: Michael Winner, Jeffrey Konvitz; Argumento: Michael Winner [a partir do livro de Jeffrey Konvitz]; Música: Gil Melle; Fotografia: Richard C. Kratina: [filmado em Panavision, cor por Technicolor]; Montagem: Bernard Gribble, Terry Rawlings; Design de Produção: Philip Rosenberg; Cenários: Edward Stewart; Figurinos: Peggy Farrell; Caracterização: Dick Smith, Robert Laden [como Bob Laden]; Efeitos Especiais: Tony Parmelee; Efeitos Visuais: Albert Whitlock; Direcção de Produção: Robert Grand.

Elenco:

Chris Sarandon (Michael Lerman), Cristina Raines (Alison Parker), Martin Balsam (Professor Ruzinsky), John Carradine (Padre Halliran), José Ferrer (Cardeal), Ava Gardner (Miss Logan), Arthur Kennedy (Monsenhor Franchino), Burgess Meredith (Charles Chazen), Sylvia Miles (Gerde Engstrom), Deborah Raffin (Jennifer), Eli Wallach (Detective Gatz), Christopher Walken (Detective Rizzo), Jerry Orbach (Michael Dayton), Beverly D’Angelo (Sandra), Hank Garrett (James Brenner), Robert Gerringer (Hart), Nana Visitor [como Nana Tucker] (Rapariga no Final), Tom Berenger (Homem no Final), William Hickey (Perry), Gary Allen (Malcolm Stinnett), Tresa Hughes (Rebecca Stinnett), Kate Harrington (Anna Clark), Jane Hoffman (Lilian Clotkin), Elaine Shore (Emma Clotkin), Sam Gray (Dr. Aureton), Reid Shelton (Padre), Fred Stuthman (Mr. Parker), Lucie Lancaster (Mary Parker), Anthony Holland (Anfitrião da Festa), Jeff Goldblum (Jack), Zane Lasky (Raymond), Mady Kaplan [como Maddy Heflin] (Alice Marshak, Estudante), Diane Stilwell (Secretária de Brenner), Ron McLarty (Agente Imobiliário).