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The Exorcist Chris MacNeil (Ellen Burstyn) é uma actriz, cuja filha Regan (Linda Blair) começa a demonstrar um estranho comportamento, que inclui ruídos estranhos, perturbações cinéticas no seu quarto, e mudanças de personalidade. Após uma série de exames médicos que apenas testemunham o agravar da situação, ao mesmo tempo que um amigo seu morre estranhamente, aparentemente projectado da janela de Regan, Chris é aconselhada a procurar um exorcista, o que faz na pessoa do Padre Karras (Jason Miller). Karras é um psiquiatra que presta auxílio dentro do clero, mas que, assistindo à recente morte da sua mãe, vê a sua vocação e fé a declinar. Convencido de que se trata de um caso digno de exorcismo, Karras recebe o auxílio do experiente Padre Merrin (Max von Sydow), um arqueólogo que tem uma história de encontros com o oculto, provinda de escavações no Iraque.

Análise:

Quando William Peter Blatty finalizou o seu livro de terror, “The Exorcist” era-lhe claro que estava perante matéria para um filme especial. Cedo fez um acordo com a Warner Bros. cedendo-lhe os direitos do livro, na condição de ser ele próprio o produtor, e a busca de um realizador iniciou-se. Fala-se que o projecto chegou a passar pelas mãos de Alfred Hitchcock, que Stanley Kubrick terá estado interessado, que a Warner fez pressão para que Arthur Penn, Peter Bogdanovich, Mike Nichols ou John Boorman assumissem a realização. A verdade é que Mark Rydell chegou a ser contratado, mas encontraria forte oposição do próprio Blatty que, contra tudo e contra todos, impôs aquele que para si era a escolha certa: William Friedkin, recentemente consagrado com o filme “Os Incorruptíveis Contra a Droga” (The French Connection, 1971).

Também a escolha do elenco foi acidentada, com um longuíssimo casting a ser necessário até se chegar a Linda Blair, e várias opções a caírem no que tocava a outros actores, dada a reputação que o filme já adquiria mesmo antes se a produção se iniciar. Ellen Burstyn foi escolhida para o papel da mãe da possuída Regan, depois de se tentar actrizes como Audrey Hepburn, Jane Fonda, Shirley MacLaine, Anne Bancroft, Geraldine Page, entre outras. O Padre Karras foi visto por Friedkin na pele de Jack Nicholson e Al Pacino, enquanto Blatty sugeria Stacy Keach, até se decidir por Jason Miller, um actor de teatro sem experiência de cinema. E apenas o Padre Merrin foi escolha simples, com Max von Sydow como primeira escolha.

A história gira em torno de uma criança, Regan MacNeil (Linda Blair), a mostrar progressivamente sinais de estar possuída por um ser sobrenatural. Tal leva a sua mãe (Ellen Burstyn), depois de falhadas as tentativas de dar explicações científicas aos fenómenos, a procurar uma explicação espiritual, na pessoa do Padre Karras (Jason Miller). Este, em pleno declínio da sua fé pessoal, após a morte da mãe, sugere que a solução é um exorcismo, que pratica com o experiente Padre Merrin (Max von Sydow), o qual tem uma história de encontros com demónios no Médio Oriente.

Segundo William Peter Blatty, tudo isto foi inspirado em factos reais, mudando apenas o local Cottage City, Maryland em vez de Georgetown, Washington, D.C. e o facto de a vítima real ter sido um rapaz e não uma rapariga. Os eventos terão ocorrido em 1949, e foram narrados por um padre local que contou como executou um exorcismo num rapaz de 13 anos, que terá levado cerca de seis meses. Para conferir ainda mais realismo ao pano de fundo da história, foram usados vários padres como consultores, um deles tendo mesmo participado como actor, no papel do Padre Dyer (William O’Malley).

O que marca o filme de William Friedkin é a novidade que trouxe em relação ao terror que então se fazia (e a muito do que se seguiu). Com tudo o que tem de efeitos especiais com vista a criar imagens horríficas e inesquecíveis, “O Exorcista” preocupa-se sobretudo com as ideias. Tudo começa com o traçar dos perfis psicológicos dos principais personagens. Temos primeiro o Padre Merrin, obcecado arqueólogo no Iraque, que teme ter encontrado mais do que queria. Segue-se Chris MacNeil, mãe separada, que tenta dar uma vida condigna à sua filha, esforçando-se como actriz. Temos finalmente o Padre Karras, um psiquiatra que guia espiritualmente os padres da sua congregação, numa carreira que o fez afastar-se da mãe doente, cuja morte vem agora pôr em causa a sua vocação e mesmo a sua fé.

Por estranho que pareça, e embora as imagens do exorcismo, com Linda Blair em completa maquilhagem, e comportamento violento (quer físico quer verbal) sejam as imagens icónicas do filme, elas ocupam poucos minutos, num filme que tem a fé como questão central. O facto de as MacNeil não terem uma educação religiosa afasta a hipótese de sugestão por obsessão com o tema. E afasta-as também da solução por via espiritual. O facto do Padre Karras estar numa crise de fé pode tanto ser visto como um convite à presença satânica, como pode ser essa necessidade de afirmação que tão rapidamente o leva a acreditar (e mesmo a desejar) que está em presença de uma possessão. E finalmente é essa mesma fé na luta entre o bem e o mal que traz o Padre Merrin, para quem o confronto é apenas mais um episódio de uma luta adiada.

Este conflito de fé, que para o espectador se torna um conflito entre a verdade a acreditar, é tão mais visível quanto, por um lado as explicações científicas vão falhando quando confrontadas com a realidade no quarto de Regan. Mas ainda assim algo parece não bater certo. Apesar de o suposto demónio parecer saber mais do que deve sobre quem o visita, falha quando se espera que fale línguas (recitando apenas frases feitas em francês), e tem uma estranha reacção a água que pensa ser benzida, mas não é. A dúvida vai persistindo. Se é verdadeiramente um demónio porque falha em provas que indicam fraude? A resposta, mais uma vez pode estar na fé de cada um, ou até no desejo puro e simples de confundir respostas da parte do demónio, para assim adiar a cura de Regan.

Seja como for, e após ruídos inexplicáveis, comportamentos erráticos de Regan, estranhas movimentações de objectos no seu quarto, e mortes misteriosas, chega-se ao confronto entre padres e demónio, que resultam nas cenas mais inesquecíveis do filme. William Friedkin não se poupou a nada para conseguir reacções genuínas dos personagens, as quais, muitas vezes, se limitavam a reagir à surpresa e susto provocados pelo realizador. Foram disparadas armas para assustar os actores; Linda Blair e Ellen Burstyn foram presas a arreios que as puxavam violentamente, causando as imagens de saltos intempestivos (ambas adquiriram lesões graças a isso); o vómito foi projectado sobre Jason Miller de surpresa; Max von Sydow não sabia da linguagem que Linda Blair utilizaria; William O’Malley levou mesmo uma estalada de Friedkin para causar a gesticulação nervosa com que o Padre Dyer administra a extrema-unção ao Padre Karras.

Junte-se a isto a incrível maquilhagem de Linda Blair (e mesmo a de Max von Sydow, que tinha 44 anos, e não os quase 80 que aparenta), a sua linguagem forte, os efeitos sonoros e perturbante mistura de vozes em camadas (com Mercedes McCambridge a ser a responsável pelas vozes demoníacas de Regan, algo que a actriz conseguiu com muito fumo e bebida, e presa a uma cadeira como a personagem), e muitas imagens subliminares de rostos demoníacos a surpreender o público de um modo quase onírico e subconsciente.

Friedkin evita os jump scares, e a banda sonora nunca é usada para assustar, não havendo sustos gratuitos, mas sim apenas o acumular de tensão com o complicar da situação de Regan, e o seu comportamento violentíssimo e perturbador, que chega a incluir uma muito badalada cena de masturbação sangrenta com um crucifixo.

Ainda quanto à banda sonora, a primeira escolha de Friedkin terá sido o veterano Bernard Herrmann (habitual colaborador de Hitchcock), mas perante essa impossibilidade a escolha recaiu sobre Lalo Schifrin. Este compôs uma partitura orquestral, que desagradou ao realizador que a rejeitou completamente. Optou-se então peças de compositores clássicos (Penderecki, Webern) e de Mike Oldfield, com apenas algum material composto propositadamente para o filme, por Jack Nitzsche.

Com imagens inesquecíveis de grande efeito e violência, e um crescendo que eleva o tema de possessão, de um início pleno de realismo, para um carrossel de emoções descontroladas, Friedkin conseguiu uma obra que seria referência para todo o terror que se lhe seguiu, poucas vezes à mesma altura.

“O Exorcista” tornou-se o primeiro filme de terror a ser nomeado pela Academia para o Oscar de Melhor Filme, o que provocou cisões dentro da própria Academia (sendo o discurso mais violento, o de George Cukor). O filme foi nomeado para dez Oscars, tenho ganho dois (Argumento Adaptado e Mistura de Som), a esses juntou quatro Globos de Ouro (Filme, Realizador, Argumento e Actriz Secundária – Blair), de um total de sete nomeações. É ainda hoje um dos filmes mais rentáveis da história do cinema.

Mas foi essencialmente fora que a polémica mais se fez sentir. O filme foi proibido em vários países e/ou cidades, foi perseguido por algumas seitas religiosas, e Linda Blair chegou a precisar de escolta policial, por quem a via como acólita de Satanás. Vários espectadores precisaram de cuidados médicos após reagirem mal durante os visionamentos, e muitos mitos se criaram acerca do filme, que se dizia albergar um demónio dentro, e ter causado factos misteriosos durante as filmagens incluindo a morte de pelo menos duas pessoas ligadas à produção. O próprio William Friedkin diz que passou a acreditar no demónio, e os locais da filmagem foram benzidos após o filme.

A popularidade de “O Exorcista” valeu-lhe, para além e um enorme número de imitações que se estendem até aos dias de hoje, as sequelas directas, “O Exorcista II: O Herege” (Exorcist II: The Heretic) de John Boorman e de novo com Linda Blair; ” O Exorcista III ” (The Exorcist III, 1990) escrito e realizado por William Peter Blatty, a partir do seu livro “Legion”. Seguiu-se, mais tarde uma prequela, que resultou em duas versões distintas: “Exorcista – O Princípio” (Exorcist: The Beginning, 2004) de Renny Harlin, e “Dominion: A Prequela de o Exorcista” (Dominion: Prequel to the Exorcist, 2005) de Paul Schrader, ambos com Stellan Skarsgård no papel de um mais jovem Padre Merrin.

Imagem de "O Exorcista" (The Exorcist, 1873), de William Friedkin

Produção:

Título original: The Exorcist; Produção: Warner Bros. / Hoya Productions; Produtor Executivo: Noel Marshall; País: EUA; Ano: 1973; Duração: 116 minutos; Distribuição: Warner Bros.; Estreia: 26 de Dezembro de 1973 (EUA), 1 de Novembro de 1974 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: William Friedkin; Produção: William Peter Blatty; Produtor Associado: David Salven; Argumento: William Peter Blatty [baseado no seu próprio livro]; Música: Krzysztof Penderecki, Hans Werner Henze, George Crumb, Anton Webern, Beginnings, Mike Oldfield, David Borden; Música Adicional: Jack Nitzsche; Fotografia: Owen Roizman, Billy Williams (Iraque) [filmado em Panavision, cor por Metrocolor]; Montagem: Jordan Leondopoulos, Evan A. Lottman, Norman Gay, Bud Smith (Iraque); Design de Produção: Bill Malley; Direcção Artística: John Robert Lloyd [não creditado]; Cenários: Jerry Wunderlich; Figurinos: Joseph Fretwell III; Caracterização: Dick Smith; Efeitos Especiais: Marcel Vercoutere; Efeitos Visuais: Marv Ystrom; Direcção de Produção: William Kaplan (Iraque).

Elenco:

Ellen Burstyn (Chris MacNeil), Max von Sydow (Padre Lankester Merrin), Lee J. Cobb (Tenente William Kinderman), Kitty Winn (Sharon), Jack MacGowran (Burke Dennings), Jason Miller (Padre Karras), Linda Blair (Regan), William O’Malley (Padre Dyer), Barton Heyman (Dr. Klein), Peter Masterson (Dr. Barringer, Director da Clínica), Rudolf Schündler (Karl), Gina Petrushka (Willi), Robert Symonds (Dr. Taney), Arthur Storch (Psiquiatra), Thomas Bermingham (Tom – Presidente da Universidade), Vasiliki Maliaros (Mãe de Karras), Titos Vandis (Tio de Karras), John Mahon (Director do Laboratório de Som), Wallace Rooney (Bispo Michael), Ron Faber (Chuck, Assistente de Realização / Voz Demoníaca), Donna Mitchell (Mary Jo Perrin), Roy Cooper (Reitor Jesuíta), Robert Gerringer (Senador na Festa), Mercedes McCambridge (Voz Demoníaca).