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Il vangelo secondo MatteoFilmando com actores não profissionais, com pouca encenação, e em cenários naturais da paisagem da Itália central, Pasolini conta a história de Jesus Cristo (Enrique Irazoqui), do momento da anunciação do anjo a Maria (Margherita Caruso) e José (Marcello Morante), até à sua morte na cruz e ressurreição, passando pelas várias etapas descritas no Evangelho atribuído a S. Mateus. Com uma fidelidade enorme ao texto bíblico, o filme destaca-se pelo ritmo, interpretações e jeito quase documental, que lhe confere realismo, sem deixar de trazer emoção.

Análise:

Depois de alguns documentários e segmentos para filmes de colaboração, um dos quais, La “La ricotta” (1963), lhe valeu processo de tribunal e condenação por atentado à moral, Pier Paolo Pasolini decidiu que a sua terceira longa-metragem abordaria, nem mais nem menos que a vida de Jesus Cristo. Tal valeu-lhe desde logo um olhar desconfiado, dadas as suas conhecidas posições políticas e sociais, mas o autor não se demoveu, acreditando poder trazer uma visão respeitosa e questionante, a uma história que não queria negar, mas antes repensar, na forma de uma homenagem que dedicou ao papa João XIII, um papa amado em Itália e conhecido pelas suas ideias reformadoras.

Voltando a pegar na cartilha neo-realista, Pasolini usou actores não profissionais (nalguns casos mesmo familiares e amigos), tendo recrutado o protagonista quase por acaso, quando foi abordado pelo estudante italiano Enrique Irazoqui, então em Itália para o conhecer, e activista sindical na luta contra Franco. Do mesmo modo, Pasolini escolheu filmar em cenários naturais, em diversos locais da Itália central, cuja paisagem lhe fizesse lembrar Israel, com o mínimo de encenação ou elementos decorativos não naturais.

Seguindo o texto do Evangelho atribuído a Mateus, Pasolini conta a história de Cristo (Enrique Irazoqui, de olhar intenso e quase incomodativo) desde o momento da anunciação da gravidez de Maria (Margherita Caruso), passando pelo massacre de Herodes, a fuga para o Egipto, o regresso a Israel, e recrutamento dos apóstolos, as tentações de Satanás, o encontro com João Baptista, a pregação e milagres, e finalmente, a entrada em Jerusalém, a traição de Judas, o calvário e ressurreição. Espanta, pela fidelidade ao texto bíblico, que Pasolini se limite a seguir algo tão literalmente, para de seguida se perceber que é na subtileza das entrelinhas que o filme ganha alma, naquilo que Pasolini chamou uma obra de poesia, sem pretensões religiosas ou ideológicas.

Esta alma está, principalmente, num realismo comovente, que começa logo na cena inicial, quando Maria e José se entreolham dolorosamente, sem saber o que fazer do anúncio da gravidez. Tudo acontece sem palavras, toscamente, e por isso mesmo criando maior comoção. Esse é o tom do filme onde o facto de os actores não serem profissionais confere um grau de brusquidão e imperfeição a cada cena, onde os diálogos são recitados abruptamente, os movimentos são desajeitados, e os muitos close-ups são por isso mais intensos. Esse realismo, quase em jeito de documentário, alia-se ao do cenário, onde as paisagens são escolhidas pelo efeito cénico, mas também por um realismo que afronta o cânone do cinema bíblico, onde a montanha, a aldeia e o lago de margens tristes e pobres de Itália nos surgem como uma Palestina perfeita.

Por essas razões, há um sentimento de presépio de rua que atravessa o filme. Nele sentimo-nos fora de uma obra artística, como se arte e vida de interceptassem, e fossemos nós que, de certo modo, déssemos vida ao filme, e por maioria de razão à própria vida de Cristo. A emoção é depois elevada pelo uso da música, nomeadamente a de Bach (Missa em Si menor, Paixão de S. Mateus), a que Pasolini junta espirituais negros, cantos hebraicos e a música de Luis E. Bacalov, ao lado de Mozart, Prokofiev e Webern.

“O Evangelho Segundo São Mateus” de Pasolini venceria o Prémio do Júri do Festival de Veneza e, embora com estreia envolta nalguma controvérsia, devido a grupos radicais que o consideravam blasfemo, recebeu a aprovação do Vaticano, com o Grande Prémio do Office Catholique International du Cinema (pela primeira vez vencido por um filme italiano), levando o jornal oficial do Vaticano, L’Osservatore Romano, a apelidá-lo de mais belo filme alguma vez feito sobre Cristo. Curiosamente Pasolini foi acusado de sectores mais à esquerda, por cedência aos valores religiosos. Pelo meio, o filme conseguiu três nomeações aos Oscars: Melhor Direcção Artística, Melhor Guarda-roupa e Melhor Banda Sonora, e Pasolini via finalmente o seu nome ao lado dos grandes mestres do cinema italiano.

Enrique Irazoqui em "O Evangelho Segundo São Mateus" (Il vangelo secondo Matteo, 1964), de Pier Paolo Pasolini

Produção:

Título original: Il vangelo secondo Matteo; Produção: Arco Film / Lux Compagnie Cinématographique de France; País: Itália / França; Ano: 1964; Duração: 131 minutos; Distribuição: Titanus Distribuzione (Itália), Compton Films (Reino Unido), Continental Distributing EUA); Estreia: 4 de Setembro de 1964 (Festival de Veneza, Itália), 2 de Outubro de 1964 (Itália), 4 de Abril de 1966 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Pier Paolo Pasolini; Produção: Alfredo Bini; Argumento: Pier Paolo Pasolini [baseado no “Evangelho Segundo S. Mateus”]; Música: Luis E. Bacalov, Johna Sebastian Bach, Wolfgang Amadeus Mozart, Sergei Prokofiev, Anton Webern; Orquestração: ; Fotografia: Tonino Delli Colli [preto e branco]; Montagem: Nino Baragli; Design de Produção: Luigi Scaccianoce; Cenários: Andrea Fantacci; Figurinos: Danilo Donati; Caracterização: Marcello Ceccarelli; Efeitos Visuais: Ettore Catalucci; Direcção de Produção: Manolo Bolognini, Eliseo Boschi.

Elenco:

Enrique Irazoqui (Jesus Cristo), Margherita Caruso (Maria – Jovem), Susanna Pasolini (Maria – Idosa), Marcello Morante (José), Mario Socrate (João Baptista), Settimio Di Porto (Pedro), Alfonso Gatto (André), Luigi Barbini (Tiago Maior), Giacomo Morante (João), Giorgio Agamben (Filipe), Guido Cerretani (Bartolomeu), Rosario Migale (Tomé), Ferruccio Nuzzo (Mateus), Marcello Galdini (Tiago, filho de Alfeu), Elio Spaziani (Judas Tadeu), Enzo Siciliano (Simão), Otello Sestili (Judas Iscariotes), Juan Rodolfo Wilcock (Caifás), Alessandro Clerici (Pôncius Pilatos), Amerigo Bevilacqua (Herodes I), Francesco Leonetti (Herodes II), Franca Cupane (Herodíade), Paola Tedesco (Salomé), Rossana Di Rocco (Anjo), Renato Terra (Endemoninhado), Eliseo Boschi (José de Arimateia), Natalia Ginzburg (Maria de Betânia), Enrico Maria Salerno (Dobragem de viz de Enrique Irazoqui).