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Il Casanova di Federico FelliniBaseado na autobiografia de Giacomo Casanova, Fellini conta-nos a sua versão das aventuras do libertino (Donald Sutherland), aventureiro, escritor, bon vivant, e frequentador das mais variadas cortes europeias, onde nunca se negava às suas investigações sexuais, exibição de proezas e participação nas mais devassas festas, sendo era exibido como atracção, inspiração para homens e desejo de mulheres. A sua obra e comportamento é ainda retrato de uma época e forma perversa de uma classe, que se identifica nos excessos que levaram ao fim do Antigo Regime.

Análise:

Apresentado como um filme adaptado livremente do livro de “Histoire de ma vie”, Fellini dedicou um filme ao mundo obscuro de libertinagem e aventura do célebre Giacomo Casanova. Casanova foi um escritor de origem italiana, da segunda metade do século XIX, conhecido pelas suas viagens, espírito aventureiro, e uma busca obcecada dos prazeres sensuais a que devotou a sua vida (o que o levou a interromper as carreiras militar e eclesiástica a que antes se houvera dedicado). Correndo a Europa, provocando escândalos, sendo várias vezes preso, e deixando as suas conclusões em livro, a obra de Casanova é também um retrato das cortes ociosas do Antigo Regime. A produção começou sob os auspícios de Dino De Laurentiis, mas várias dissensões com Fellini (entre as quais a escolha do protagonista) levaram-no a abandonar a ideia, e o filme foi produzido por Alberto Grimaldi. Os problemas continuaram com sucessivas paragens, o roubo de grande parte da película que obrigou a que sequências inteiras tivesse de ser filmadas de novo, e o abandono de alguns cenários e actores (Barbara Steele tem algumas cenas que não surgiram na versão final), num processo que demorou cerca de quatro anos.

No centro de tudo temos o personagem-título interpretado por Donald Sutherland (com voz de Luigi Proietti), numa interpretação muito estilizada e caracterização exagerada. Ao ritmo do Carnaval de Veneza, temos uma introdução à vida decadente das cortes italianas. Nela conhecemos Casanova, já reputado pelas suas proezas sexuais, e chamado a ter relações com uma falsa freira para deleite de um nobre voyeur. Casanova acaba preso e condenado por imoralidade, onde recorda outras conquistas, antes de fugir pelos telhados e partir para Paris. Na capital francesa, na corte de Madame d’Urfé (Cicely Browne), Casanova envolve-se em sexo ritual e projectos de alquimia. Passa depois à corte do Marquês Du Bois (Daniel Emilfork), que organiza orgias e mostra tendências homossexuais. Aí Casanova apaixona-se por Henriette (Tina Aumont), mas depois de jurarem amor, esta desaparece, e ele vai procurá-la em Londres, onde tenta suicidar-se, para se deixar fascinar pela imagem de uma princesa gigante (Sandra Elaine Allen) e seus anões. Viajando para Roma, Casanova é recebido nas festas orgiásticas de Lord Talou (John Karlsen), onde compete com o cocheiro Righetto (Mario Gagliardo) pelo número de orgasmos que consegue numa hora. De seguida viaja para a Suiça, Dresden e Württemberg, onde participa em novas orgias, e conhece a boneca mecânica Rosalba (Leda Lojodic), mas começa a ressentir-se de não ser levado a sério como autor. Já mais idoso, Casanova vê-se como bibliotecário do conde Waldstein, onde é tratado como mero criado, e humilhado por outros criados, levando-o a perder-se em sonhos do passado.

Escolhendo filmar inteiramente em estúdio, na Cinecittà, Fellini compôs, muito à imagem de “Fellini-Satyricon” (1969), um filme com uma mise-en-scène muito forte, que impressiona pelos cenários e cores, mas também pelo efeito de irrealidade que confere ao filme, numa espécie de teatralidade dos espaços que trocam um lado fisicamente concreto por um tom quase onírico, e quase sempre envolto em simbolismo e mistério. Neste invólucro visual, o personagem de Casanova (de modos e caracterização estilizada), as situações quase anedóticas, e os comportamentos surgem-nos como feéricos, grotescos até, num exagero teatral que roça o patético, como forma de expressão, num elogio do conceito de barroco.

O filme apresenta-se como uma série de vinhetas (ou situações, mais que episódios), quase descorrelacionadas, no modo felliniano como decorre um sonho, de cenas soltas e não necessariamente ligadas. Em comum, estas têm as situações em que Casanova é recebido nas diversas cortes, com uma reputação que o impele para o centro dos acontecimentos, seja como atracção de um nobre, motivo de uma competição sexual, foco de voyeurismo, ou objecto de desejo. Em comum também, a atmosfera barroca, exagerada, quer do cenário aos comportamentos, da cor à progressão narrativa, ela própria um adorno que visa apenas realçar a ostentação.

Estudioso do seu tempo, encapsulador dos excessos de uma geração e classe, aventureiro sexual, desafiador de convenções, o Giacomo Casanova de Donald Sutherland, é uma figura semi-trágica que precipita as suas penas, produto de um tempo que o próprio tenta subverter, eterno curioso de tudo o que envolva sensualidade e sexualidade, que procura tanto por lirismo inocente e poético, como por uma arrogância que lhe valha o reconhecimento geral. Na perversidade que é o sexo por competição, o triunfo físico pela vaidade do intelecto, o símbolo do boneco mecânico na consumação do prazer, ou o simples deleite na relação mecânica (literalmente, com uma boneca mecânica), Casanova passa de momento em momento num acumular de experiências e reputações de carácter artificial, num elogio da teatralidade, futilidade e grotesco, de arte pela arte, como é, afinal, o cinema de Fellini.

Proeza estética, num tour de force que celebra o universo visual e onírico de Fellini numa experiência puramente cinemática, onde a narrativa é deixada para segundo plano, “Casanova” foi agraciado com o Oscar de Melhor Guarda-roupa, os BAFTA de Melhor Guarda-roupa e Direcção Artística, e o David di Donatello para Melhor Banda Sonora.

Donald Sutherland em "Casanova" (Il Casanova di Federico Fellini, 1976), de Federico Fellini

Produção:

Título original: Il Casanova di Federico Fellini; Produção: Produzioni Europee Associati (PEA) / Fast Film; País: Itália / EUA; Ano: 1976; Duração: 147 minutos; Distribuição: Titanus Distribuzione (Itália), Gaumont (França), Twentieth Century Fox Film Company (Reino Unido), Universal Pictures (EUA); Estreia: 7 de Dezembro de 1976 (Itália), 25 de Novembro de 1977 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Federico Fellini; Produção: Alberto Grimaldi; Argumento: Federico Fellini, Bernardino Zapponi [baseado na autobiografia de Giacomo Casanova “Histoire de ma vie”]; Poemas: Andrea Zanzotto, Tonino Guerra, Antonio Amurri, Carl A. Walden; Música: Nino Rota; Direcção Musical: Carlo Savina; Fotografia: Giuseppe Rotunno [cor por Technicolor]; Montagem: Ruggero Mastroianni; Direcção Artística: Danilo Donati; Cenários: Giantito Burchiellaro; Figurinos: Danilo Donati; Caracterização: Rino Carboni; Efeitos Especiais: Adriano Pischiutta; Pinturas: Rinaldo e Giuliano Geleng; Frescos: o Mario Fallani; Desenho da Lanterna Mágica: Roland Topor; Esculturas: Giovanni Gianese; Coreografia: Gino Landi; Direcção de Produção: Lamberto Pippia.

Elenco:

Donald Sutherland (Giacomo Casanova), Tina Aumont (Henriette), Cicely Browne (Madame D’Urfé), Carmen Scarpitta (Madame Charpillon), Clara Algranti (Marcolina), Daniela Gatti (Giselda), Margareth Clémenti (Irmã Maddalena), Olimpia Carlisi (Isabella), Silvana Fusacchia (Irmã de Isabella], Leda Lojodic [como Adele Angela Lojodice] (Rosalba, A Boneca Mecânica), Sandra Elaine Allen (Angelina, A Gigante), Clarissa Mary Roll (Anna Maria), Daniel Emilfork [como Daniel Emilfork Berenstein] (Marquês Du Bois), Luigi Zerbinati (Papa), Hans van de Hoek, Dudley Sutton (Duque de Würtemberg), John Karlsen (Lord Talou), Reggie Nalder (Faulkircher), Mario Cencelli (Moebius), Luigi Proietti (Dobragem de voz de Donald Sutherland), Mario Gagliardo (Righetto) [não creditado].

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