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La ciociaraQuando os aliados entram em Itália, no final da Segunda Guerra Mundial, o aumento dos bombardeamentos sobre Roma leva Cesina (Sophia Loren), uma bela lojista, a deixar a cidade para salvaguardar a filha Rosetta (Eleanora Brown). As duas viajam para a província, terra natal de Cesina, em busca de um lugar pacífico, mesmo que cheio de privações. Só que, aos poucos, Cesina descobre que nem ali estão a salvo, e mesmo entre a gentileza dos locais, onde se destaca o intelectual Michele (Jean-Paul Belmondo), irão conhecer as agruras de uma guerra onde todos os lados cometem atrocidades.

Análise:

Considerado um dos pais do Neo-realismo italiano, que para alguns autores terminou na sua obra “Humberto D” (Umberto D, 1952), o realizador e prolífico actor Vittorio De Sica começou a partir da década de 50 a dedicar-se principalmente à comédia, onde ajudaria a definir o que se viria a chamar a commedia all’italiana. Pelo meio, a partir de um romance de Alberto Moravia, e com argumento do seu habitual colaborador Cesare Zavatini, De Sica realizou este “Duas Mulheres”, de 1960, que parece um retorno, já fora de época, à estética e sensibilidade dos filmes que tornaram De Sica um mestre do cinema italiano, nomeadamente “Sciuscià” (1946), “Ladrões de Bicicletas” (Ladri di biciclette, 1948) e o supracitado “Humberto D”.

É por isso, a preto e branco, em paisagens naturais que são tanto exteriores, como interiores lúgubres fazendo uso de casas verdadeiras, e numa história que lida com as dificuldades de todo um povo, de modo realista, que De Sica conta a história de Cesina (Sophia Loren), disposta a tudo para proteger a sua filha Rosetta (Eleanora Brown) dos horrores da guerra. Por ela, e quando os bombardeamentos sobre Roma se intensificam, fruto do avanço aliado, Cesina decide abandonar a cidade e o negócio que lhe dá segurança financeira (toda a gente precisa sempre de hortaliças, em paz ou em guerra), para levar Rosetta para um lugar seguro. Cesina pensa encontrá-lo no campo, na região onde cresceu, por entre gente humilde que não quer saber de guerra ou política. Aí, lutando por um pedaço de comida, Cesina conhece Michele (Jean-Paul Belmondo), um intelectual que se insurge contra a guerra, e se apaixona por bela mulher. Mas Cesina não tem tempo ou disponibilidade para mais que pensar em Rosetta, que protege como mãe-galinha. Quando um grupo de alemães em fuga leva consigo, à força, Michele, Cesina percebe que é tempo de voltar a Roma. Só que o pior está para vir, com um grupo de soldados marroquinos a violar Cesina e Rosetta. Indignada, Cesina não pode fazer mais que reanimar Rosetta e tentar que esta ultrapasse o trauma, mesmo temendo que a inocência tenha para sempre abandonado a sua filha.

Se, do Neo-realismo, temos a estética visual, o realismo (note-se como grande parte do filme é falado em dialecto ou regionalismos – o próprio título «La ciociara» refere-se aos habitantes da Ciociaria, uma zona não oficial entre Roma e Nápoles, onde se fala um dialecto próprio), e o tema de cariz social reflectindo a Itália de 1945, em “Duas Mulheres” nota-se a tendência de De Sica para criar heróis individuais e momentos de grande sentimento (dizendo-se que o próprio De Sica terá chorado no set, várias vezes). No centro, como verdadeira heroína trágica, temos Sophia Loren, uma actriz provinda do mundo da comédia, e que domina completamente o filme com a sua força interior, numa interpretação vívida e inesquecível.

Lembrando um pouco o filme “Belíssima” (Bellissima, 1951), de Luchino Visconti, e também escrito por Cesare Zavatini, “Duas Mulheres” vive da relação entre uma mãe e uma filha, num mundo em escombros, onde se torna difícil saber que valores são intemporais, e o quanto tudo aquilo que se deseja passageiro irá moldar aqueles que lhe sobrevivem. É missão de Cesina proteger a todo o custo a vida (e mais ainda, a inocência) de Rosetta, sendo Rosetta o motivo para que Cesina mantenha a sua humanidade quando o mundo parece desabar. Se em Visconti o papel da mãe, como força da natureza, quase uma mãe em sentido divino, era representado com naturalidade pela conhecida Anna Magnani, De Sica deu esse papel a uma actriz menos conhecida em papéis dramáticos, Sophia Loren, cuja prestração deslumbrou, e lhe valeria o Oscar de Melhor actriz, que pela primeira vez foi atribuído a uma actriz de uma filme que concorria como Filme Estrangeiro.

A história de mãe e filha torna-se uma viagem, física e emocional, que nos ajuda a descrever a Itália de 1945, com Mussolini em queda, os aliados a avançar, os alemães em retirada, e uma grande incerteza do que iria acontecer de seguida quando qualquer metro de terreno podia tornar-se palco de escaramuças e bombardeamentos. Essa incerteza era pasto para movimentos de refugiados, e escassez de comida, sobretudo nas zonas mais pobres para onde Cesina e Rosetta viajam para fugir da guerra.

A viagem é também uma viagem sobre o comportamento humano, e mais que tudo, sobre a maldade humana. Notem-se os paralelismos. Giovanni (Raf Vallone) em Roma, Michele na montanha, como homens que procuram o afecto de Cesina, conseguem a sua atenção, mas que acabarão rejeitados, pois ela apenas tem olhos para a sua filha. Os dois sairão de cena, sem pompa, para não mais serem vistos. Temos o paralelo da tragédia na viagem, com o velho ciclista que morre vítima de rajadas de metralhadora, quando Cesina e Rosetta chegam ao campo, e o ataque e violação quando as duas mulheres voltam à cidade. Temos o comportamento dos soldados, todos mostrados como violentos, desde os milicianos fascistas, cruéis até no momento da retirada; os alemães que levam Michele e por maldade o matam; os americanos que não prestam auxílio às duas mulheres; e os marroquinos, que as violam. Apenas os desertores se parecem salvar, tanto os irmãos italianos que fugiram da Albânia e prestam auxílio a Cesina no início, como o desertor russo, jovial e simpático. De Sica parece dizer-nos que na guerra não há inocência, e todos são culpados, que é, afinal a tese do pacifista Michele.

Temos, depois, a vida no campo, difícil, mas partilhada com amizade e cumplicidade. Aí, o povo quer sobreviver, admira o trabalho, tem esperança na mudança, mas não sabe (nem quer saber) de política. Para eles Mussolini é apenas um homem feio, que Cesina já dizia que ao menos no seu tempo não havia bombardeamentos e o negócio corria bem. Por isso as palavras de Michele (o idealista) não encontram terreno fértil. Onde ele fala em valores (humanismo, paz, religião), os outros apenas ouvem insolência barata. Por isso ele acaba sempre a falar sozinho, nem que seja ao ler-lhes a Bíblia. Note-se por exemplo que, embora Cesina goste de Michele, o valor que dá a um livro é o de o usar para segurar uma janela numa noite ventosa, numa cabal demonstração do confronto entre o idealismo e o realismo.

Mas a tal guerra que tudo corrompe vai fazê-lo de modo bem concreto na personalidade de Rosetta. Mostrada inicialmente como frágil, é-lhe sempre destacada a beleza da inocência (como os olhos belos que os soldados ingleses admiram). Rosetta paira sobre tudo o resto num mundo só seu, no qual a guerra é apenas um papão mítico, que Cesina afasta com promessas pueris. Por isso a rapariga ri quando Cesina lhe diz que um dia também ela casará, e por isso não entende quando as mulheres brincam com a ideia de alguém ir para a cama com Mussolini («falamos de política», respondem-lhe quando ela pergunta do que falam). Mas o recontro com os marroquinos que a violam, transforma-a, e a Rosetta do final procura a companhia masculina, escapando-se à mãe, numa clara demonstração de que a guerra pode ter terminado, mas nada ficou como antes. Por fim, no último paralelismo, é a notícia da morte de Michele que vai trazer a emoção de volta a Rosetta, que volta aos braços da mãe, como no início do filme, no primeiro bombardeamento.

Com o seu habitual jeito para heróis emocionais, e uma interpretação soberba de Sophia Loren, De Sica tecia o seu comentário sobre a guerra, dava voz ao mais profundo existencialismo do seu povo, e relembrava o melhor Neo-realismo, numa revisita das tragédias da Segunda Guerra Mundial, que ajudaria a relançar o cinema político italiano que daria cartas nos anos 60 e 70.

Sophia Loren e Eleonora Brown em "Duas Mulheres" (La ciociara, 1960), de Vittorio De Sica

Produção:

Título original: La ciociara; Produção: Compagnia Cinematografica Champion / Les Films Marceau / Société Générale de Cinématographie (S.G.C.); País: Itália / França; Ano: 1960; Duração: 97 minutos; Distribuição: Titanus Distribuzione (Itália), Embassy Pictures (EUA), Metro-Goldwyn-Mayer (MGM); Estreia: 23 de Dezembro de 1960 (Itália).

Equipa técnica:

Realização: Vittorio De Sica; Produção: Carlo Ponti; Argumento: Cesare Zavattini [a partir do livro de Alberto Moravia]; Música: Armando Trovajoli; Fotografia: Gábor Pogány [preto e branco]; Montagem: Adriana Novelli; Design de Produção: Gastone Medin; Cenários: Elio Costanzi; Figurinos: Elio Costanzi; Caracterização: Giuseppe Annunziata; Efeitos Especiais: Serse Urbisaglia; Efeitos Visuais: Joseph Nathanson; Direcção de Produção: Jone Tuzi.

Elenco:

Sophia Loren (Cesira), Jean-Paul Belmondo (Michele Di Libero), Eleonora Brown (Rosetta), Carlo Ninchi (Filippo, Pai de Michele), Andrea Checchi (Um Fascista), Pupella Maggio (Uma Camponesa), Emma Baron (Maria), Raf Vallone (Giovanni), Bruna Cealti (Uma Refugiada), Antonella Della Porta (A Mãe Enlouquecida), Mario Frera, Franco Balducci (O Alemão Desertor), Luciana Cortellesi, Curt Lowens, Tony Calio, Remo Galavotti, Elsa Mancini, Giuseppina Ruggeri, Luciano Pigozzi (Scimmione, Chefe Miliciano), Luigi Terribile, Antonio Gastaldi, Carolina Carbonaro.

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