Etiquetas

, , , , , , ,

NoEm 1988, o Chile realizou um referendo eleitoral com a intenção de legitimar, aos olhos do mundo, a ditadura de Augusto Pinochet. As opções eram «Sim» para um mandato de mais 8 anos, ou «Não» para a realização de eleições gerais. Convencido de que o «Sim» venceria, o poder político não podia adivinhar que os movimentos opositores se uniriam por detrás de uma única campanha, a qual em vez do cinzentismo da mensagem política, se inspiraria na publicidade, e com o profissional de imagem René Saavedra (Gael García Bernal) à cabeça, iria apostar em anúncios de felicidade e modernidade para chamar o povo para a mudança.

 
Filme disponível para aluguer em:
(basta clicar na imagem ao lado)
 
 

Análise:

Depois de “Tony Manero” (2008) e “Post Mortem” (2010), Pablo Larraín realizava aquilo que se tem chamado o final da sua trilogia sobre a vida no Chile durante a ditadura de Augusto Pinochet. Mais que ensaios sobre essa ditadura, os dois primeiros filmes da trilogia são retratos de pessoas desumanizadas pela vida nesse regime, sendo que “Não” é o mais político dos três filmes, com o seu olhar sobre o fim dessa mesma ditadura, fim esse que surgiu inesperadamente daquilo que deveria ser um inconsequente plebiscito.

“Não” inicia-se com a ideia de que de é necessário que o regime ceda a pressões internacionais e realize um plebiscito que, inevitavelmente (assim se crê), decrete a vitória de Pinochet, que assim, de uma forma subtil, se legitimará a si próprio. Por entre as reuniões de velhos generais e políticos, vamos assistindo a esse planear do perpetuar do status quo, que se prevê eterno e simples de manter. Do outro lado está um povo que não acredita em mudança, e que sabe que votar é apenas participar no sistema que sabe corrupto, preferindo ficar em casa.

É então que a oposição, resolve unir esforços (pois de contrário os vários movimentos teriam apenas segundos de tempo de antena conjunto de 15 minutos), e apostar numa via publicitária de fazer a campanha, recrutando um especialista do género, René Saavedra (Gael García Bernal).

René é o protagonista, que vemos solitário, divorciado, e nem sequer com grande empenho político, cuja consciência se vai desenvolvendo durante o processo. Vemo-lo com o seu chefe Lucho Guzmán (Alfredo Castro) a apresentarem campanhas televisivas, e veremos mais tarde como essa mesma publicidade é inspiração para a campanha do «Não». A princípio esta é recebida com desconfiança pelas cúpulas políticas, que insistem que os anos de crimes, tortura e opressão sejam usados como estandartes da campanha, na necessidade de desmascarar um regime cruel perante o mundo. Mas René tem uma ideia diferente e trabalhando com uma equipa escolhida por si, à revelia do seu chefe, planeia uma campanha que em vez de falar dos crimes do passado, fala de alegria e esperança, mostrando pessoas felizes, no que se crê um Chile moderno e livre.

O que começa como um choque, assim que a campanha chega à televisão, torna-se um sucesso. A mensagem retira ao povo a ideia de inevitabilidade trágica, e a adesão é fantástica, com as sondagens a mostrarem que a campanha publicitária do «Não» supera a cinzenta, de números e poses de Pinochet, idealizada pelos mentores do «Sim». É então que Lucho Guzmán é contratado para dirigir o «Sim» com todos os recursos da sua agência e das estações de televisão à disposição, incluindo ameaças sobre René Saavedra. Mas com a campanha do «Sim» a limitar-se a ir a reboque da sua opositora, tentando a posteriori. contradizer a do «Não», esta soma pontos, e chegados ao dia do plebiscito, o «Não» irá vencer, convencendo os militares a retirar o seu apoio a Pinochet, e encetar o processo de abertura democrática que levará à eleição de um presidente em sufrágio live e universal.

Com a televisão e a publicidade em destaque, e uso de muitas imagens de arquivo, num filme que parece ele próprio filmado clandestinamente, de câmara ao ombro, com uma montagem saltitante, e uma película que lembra o VHS dos anos 80 (para o que contribui todo o design, guarda-roupa e estética em geral, a começar no aspecto descuidado do protagonista), “Não” é, acima de tudo, um manifesto de Larraín, cujo objectivo é mostrar-nos o poder da imagem, e o modo como esta pode ser usada na mudança dos destinos de um país.

Habituado a lidar, na sua obra, com uma espécie de ajuste de contas com o regime de Augusto Pinochet (ditador chileno de 1973 a 1990), Pablo Larraín, mais que interessado em descrever uma situação política ou em discutir conceitos ideológicos ou sociais, preocupa-se, tal como o seu protagonista, com a imagem, a sua força e poder manipulador. Não que a política esteja ausente. Ela surge nas entrelinhas, nas pressões, nos medos da equipa que se sente acossada, nas entrevistas às pessoas que temem votar, e nas imagens de arquivo que vão mostrando a imagem oficial do regime.

Em destaque está ainda a interpretação de Gael García Bernal, encabeçando um elenco bem conseguido. Como acontece com os protagonistas de Larraín, Bernal é sóbrio, sabendo ser distante e quase impenetrável, com os seus sentimentos e motivações a revelarem-se nas entrelinhas, deixando-nos um sabor agridoce pelo seu triunfo profissional quando comparado com o cinzentismo da sua vida pessoal.

Embora criticado por, tal como o seu protagonista, o filme deixar de fora os movimentos cívicos e campanhas de rua que mobilizaram a população para importância do voto, bem como esquecer a discussão de valores, em prole de uma homenagem ao poder da publicidade, “Não” foi acolhido com agrado internacionalmente, com uma nomeação para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, e muitos prémios internacionais, incluindo em Cannes.

Gael García Bernal em "Não" (No, 2012) de Pablo Larraín

Produção:

Título original: No; Produção: Participant Media / Funny Balloons / Fabula / Canana Films / Programa Ibermedia / Consejo Nacional de la Cultura y las Artes / Corfo; Produtores Executivos: Juan Ignacio Correa, Mariane Hartard, Rocío Jadue, Jonathan King, Jeff Skoll; País: Chile / França / México / EUA; Ano: 2012; Duração: 113 minutos; Estreia: 18 de Maio de 2012 (Festival de Cannes, França), 9 de Agosto de 2012 (Chile), 21 de Fevereiro de 2013 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Pablo Larraín; Produção: Daniel Marc Dreifuss, Juan de Dios Larraín, Pablo Larraín; Produtor Associado: Niv Fichman; Argumento: Pedro Peirano [a partir da peça de Antonio Skármeta]; Música: Carlos Cabezas; Orquestração: ; Fotografia: Sergio Armstrong [fotografia digital e Betacam, cor e preto e branco]; Montagem: Andrea Chignoli; Design de Produção: Estefania Larrain; Direcção Artística: Estefania Larrain; Cenários: María Eugenia Hederra; Figurinos: Francisca Román; Caracterização: Margarita Marchi; Efeitos Especiais: ; Efeitos Visuais: Ismael Cabrera; Direcção de Produção: Eduardo Castro.

Elenco:

Gael García Bernal (René Saavedra), Alfredo Castro (Lucho Guzmán), Luis Gnecco (José Tomás Urrutia), Néstor Cantillana (Fernando), Antonia Zegers (Verónica Carvajal), Marcial Tagle (Alberto Arancibia), Pascal Montero (Simón Saavedra), Jaime Vadell (Minister Fernández), Elsa Poblete (Carmen), Diego Muñoz (Carlos), Roberto Farías (Marcelo), Sergio Hernández (Militar), Manuela Oyarzún (Sandra), Paloma Moreno (Fran), César Caillet (Cliente).

Advertisement