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AmarcordTransportando-nos para a Rimini fascista dos anos 30, Fellini, em jeito de documentário encenado, mostra-nos as suas memórias da cidade onde cresceu. Acompanhando um ano da vida da cidade, centramo-nos na personagem do jovem Titta (Bruno Zanin), um aluno irreverente, que com o seu grupo de amigos insolentes vai descobrindo os segredos de Rimini. Com eles conhecemos a beldade Gradisca (Magali Noël), a prostituta Volpina (Josiane Tanzilli), as aulas mecânicas, a chegada do ideal fascista, os rituais sazonais, o peso da Igreja, etc.. A par da cidade temos a vida familiar de Titta, com as histórias rocambolescas de gritarias e comoção, onde pontificam o pai (Armando Brancia), a mãe (Pupella Maggio), o avô (Giuseppe Ianigro), e os tios (Ciccio Ingrassia e Nando Orfei).

Análise:

Um pouco a exemplo do que fizera em relação a Roma, no seu filme anterior “Roma de Fellini” (Roma, 1972), Federico Fellini voltou a explorar o seu passado, e sobretudo as suas memórias, agora centrando-se em Rimini, a sua cidade natal. Usando como título a expressão em dialecto local que significa «eu lembro-me» («Io mi ricordo», que resulta em: Amarcord), Fellini, que escreveu o filme com Tonino Guerra, construiu uma obra semi-autobiográfica, na qual, mesmo que os episódios individuais sejam inventados, o espírito geral e a descrição de espaços e comportamentos é uma homenagem à Rimini fascista dos anos 30, onde o pequeno Fellini cresceu, aqui vista pelos olhos do seu alter ego Titta (Bruno Zanin).

O olhar tão inocente quanto irreverente e rebelde de uma criança como motor narrativo é um recurso hoje bastante em voga, tendo já criado obras primas como “Os Dias da Rádio” (Radio Days, 1987), de Woody Allen, e “Cinema Paraíso” (Nuovo Cinema Paradiso, 1988) e “Malèna” (2000), ambos de Giuseppe Tornatore. Mas, em Fellini, a opção, mais que um recurso dramático ou tom autobiográfico, é principalmente espaço para encantamento, inocência, rebeldia e o politicamente incorrecto que habitualmente gere a sua carreira. Voltando a ter como foco a descrição da vida mundana de uma cidade, “Amarcord”, ao contrário de “Roma de Fellini”, segue de modo mais conciso episódios da vida de uma família, a do citado Titta. Ela é composta por um pai, orgulhosamente honrado, anti-fascista, e constantemente colérico (Armando Brancia), uma mãe à beira de um ataque de nervos (Pupella Maggio), um avô que recorda o sexo com nostalgia (Giuseppe Ianigro), um tio no manicómio (Ciccio Ingrassia), etc. É uma família de conflitos, de gritarias, de episódios tão rocambolescos quanto trágicos, mas, ao seu modo, unida, retrato da Itália humilde do seu tempo.

Mais uma vez, numa câmara que passeia como personagem por entre os personagens que desfilam de modo quase circense, temos um olhar tão nostálgico quando crítico e corrosivo, que por vezes descreve em tons patéticos os episódios anedóticos que se tornam quase lendas urbanas, vistas com uma ternura que compete com o tom trágico que lhes é inerente. Temos por fim algumas histórias contadas por um ostensivo narrador (Luigi Rossi) que quebra a quarta parede e nos fala como cicerone de um documentário, confidente de segredos quase lendários, ou pelo menos fantasiosos.

Mas, como sempre em Fellini, é sempre o agridoce que marca a sua narrativa. Se por um lado temos a alegria familiar, as descobertas da adolescência, e aquele dourar da pílula tradicional de quem olha o passado com os olhos nostálgicos de uma criança, não falta a crítica sarcástica às prepotências do provincianismo, fascismo e religião, de uma sociedade que se acreditava detentora de toda a verdade.

Temos todo o anedótico urbano, da beldade local Gradisca (Magali Noël), de quem tantas histórias se contam, e por quem todos suspiram, ao acordeonista cego (Domenica Pertica), vítima da criançada em cada sessão solene. Conhecemos Volpina (Josiane Tanzilli), a prostituta meio louca, com reputação de ninfomaníaca, Biscein (Gennaro Ombra), o vendedor ambulante, famoso pelas mentiras que propaga, e a voluptuosa vendedora da tabacaria (Maria Antonietta Beluzzi), de quem o tamanho dos seios será motivo de fantasias entre os rapazes. Estas e outras figuras ilustram os episódios da cidade no curso de um ano, começando na chegada de mais uma Primavera, anunciada pelos esvoaçantes dentes-de-leão, e celebrada com uma enorme e ritual fogueira. Vemos as aulas, num ensino mecânico e opressor, que os rapazes debelam com insolência e humor. Vemos os playboys como o tio materno de Titta (Nando Orfei), de festa em festa, e o papel da Igreja, com um padre apenas interessado em saber da masturbação dos jovens (enquanto dirigia a decoração da igreja). Assistimos a uma parada fascista, que empolga toda a cidade, e a peripécias de uma corrida Mille Miglia. Acompanhamos a família no episódio rocambolesco da saída de Teo, num dia de folga do hospício. Por fim acompanhamos a pitoresca saída para o mar, qual piquenique nocturno, para ver a passagem de um paquete. O filme termina com um enorme nevão que leva à doença de Titta e depois à morte da sua mãe. Mas a Primavera regressa, trazendo o casamento de Gradisca, que encontrou «o seu Gary Cooper», e deixa a cidade em apoteose, como símbolo do passagem das estações.

Por entre o anedótico e o quase documental, temos o tal olhar infantil, que chega por vezes em tom fantasioso. Por isso “Amarcord” tem também muito de onírico e irreal, como os pensamentos de Titta na confissão, o casamento fantasioso de Ciccio perante uma efígie de Mussolini que o casava com Aldina no ideal fascista, o nevoeiro que inunda toda a cidade, ou as histórias fantásticas do Grand Hotel, contadas em terceira mão, pelo Advogado que as terá ouvido ao mentiroso Biscein.

Em suma, é todo um anedotário feito de fantasias, mentiras, sonhos e mitos urbanos, que compete com os factos, eles próprios produto de memórias distorcidas, que ajudam a pintar um retrato de Rimini, que tem muito de poético e nostálgico, sem esquecer a fealdade, grotesco e horror (com os ecos do fascismo, tortura e guerra presentes). É o mundo felliniano, onde a mentira não é menos válida que a verdade e o feio não tem menos destaque que o belo. Onde o sagrado das grandes memórias e eventos convive com o profano do mundo comezinho, sujo e familiar, onde coexistem a descoberta sexual, o regionalismo e a alegria de viver no que ela tem de mais básico. É, sobretudo, a alma felliniana, feita de sentimento, memória, e todo um carrossel de emoções e eventos que desfilam perante os nossos olhos como num circo, embelezado pela bonita música de Nino Rota, mostrando que tudo na vida é um espectáculo, desde que saibamos como o olhar.

Como prova do reconhecimento dessa forma de olhar, “Amarcord” foi consagrado em Hollywood com o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, que juntou aos David di Donatello para Melhor Filme, Melhor Realizador e Melhor Argumento Original. A estrela de Fellini chegava ao zénite, e o mundo prestava-lhe homenagem.

Imagem de "Amarcord" (1973), de Federico Fellini

Produção:

Título original: Amarcord; Produção: F.C. Produzioni / PECF; Produtores Executivos: ; País: Itália / França; Ano: 1973; Duração: 124 minutos; Distribuição: Dear International (Itália); Estreia: 18 de Dezembro de 1983 (Itália), 13 de Junho de 1974 (Cinema Castil, Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Federico Fellini; Produção: Franco Cristaldi; Argumento: Federico Fellini, Tonino Guerra; História: Federico Fellini, Tonino Guerra; Música: Nino Rota; Direcção Musical: Carlo Savina; Fotografia: Giuseppe Rotunno [cor por Technicolor]; Montagem: Ruggero Mastroianni; Design de Produção: Danilo Donati; Direcção Artística: Giorgio Giovannini; Cenários: Italo Tomassi; Figurinos: Danilo Donati; Caracterização: Rino Carboni; Efeitos Especiais: Adriano Pischiutta [não creditado]; Direcção de Produção: Lamberto Pippia.

Elenco:

Pupella Maggio (Miranda, Mãe de Titta), Armando Brancia (Aurelio, Pai de Titta), Magali Noël (Gradisca), Ciccio Ingrassia (Teo, Tio Paterno de Titta), Nando Orfei (Patacca, Tio Materno de Titta), Luigi Rossi (Advogado), Bruno Zanin (Titta), Gianfilippo Carcano (Baravelli), Josiane Tanzilli (Volpina), Maria Antonietta Beluzzi (Dona da Tabacaria), Giuseppe Ianigro (Avô), Ferruccio Brembilla (Fascista), Antonino Faà di Bruno (Conde), Mauro Misul (Professor), Ferdinando Villella (Fighetta), Antonio Spaccatini (Federale), Aristide Caporale (Giudizio), Gennaro Ombra (Biscein), Domenico Pertica (Cego), Marcello Di Falco (Príncipe).
Os adolescentes:
Stefano Proietti (Oliva, Irmão de Titta), Alvaro Vitali (Naso), Bruno Scagnetti (Ovo), Fernando De Felice (Ciccio), Bruno Lenzi (Gigliozzi), Gianfranco Marrocco (Filho), Francesco Vona (Candela), Nella Gambini [como Donatella Gambini] (Aldina).