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Il portiere di notte Maximilian Theo Aldorfer (Dirk Bogarde), é um ex-oficial das SS, que vive discretamente em Viena como porteiro nocturno de um hotel, seguro de que o grupo de ex-SS a que pertence, vai conseguindo eliminar provas e testemunhas que o possam ligar ao seu passado de abuso nos campos de concentração nazis. Até que um dia entra no hotel Lucia Atherton (Charlotte Rampling), hoje esposa de um director de orquestra internacional, e antiga vítima de Max. Só que, após a surpresa do encontro, e o não saber lidar com a situação, ambos decidem que o que querem é retomar a relação sadomasoquista que o fim da guerra os obrigou a interromper.

Análise:

Iniciando-se na televisão, como realizadora de documentários, Liliana Cavani teve a sua primeira longa-metragem de ficção em 1966, com o filme “Francisco de Assis” (Francesco d’Assisi). Cedo a realizadora passou de temas consensuais para um cinema mais independente e de temáticas complexas, que a viria a trazer àquela que ficou como a sua obra de referência, o polémico “O Porteiro da Noite”.

Filmando a Viena do pós-guerra, onde ainda se escondem antigos nazis, temendo virem a ser julgados por crimes de guerra, Cavani mostra-nos Maximilian Theo Aldorfer (Dirk Bogarde), um ex-oficial das SS, que se fazia passar por médico para fotografar e procurar mulheres nos campos de concentração. Agora um anónimo porteiro nocturno de um hotel da capital austríaca, Maximilian vai ver o seu segredo ameaçar voltar à luz do dia, quando vê entrar no hotel a esposa de um director de orquestra em digressão, Lucia Atherton (Charlotte Rampling), uma das suas antigas vítimas, e com quem Max manteve uma relação sexual sadomasoquista durante a guerra. De um primeiro instante, que parece de medo para ambos os oponentes, aumentado pelo facto de sabermos que um grupo de ex-nazis, comandado por Klaus (Philippe Leroy), trabalha para desconstruir acusações, falsificando testemunhos e destruindo documentos, somos surpreendidos pelo facto de que Max e Lucia são atraídos ferozmente um para o outro, mesmo que isso faça perigar o casamento de Lucia e o anonimato de Max. Mesmo sob pressão dos seus pares, Max vai perdendo a sua calma, envolvendo-se cada vez mais doentiamente com Lucia, a ponto de ser considerado um perigo para os outros ex-nazis, que vêem na aniquilação do casal a sua única saída.

Pisando um terreno difícil, que passa por uma abordagem explícita de perversões sexuais, e a ferida ainda recente do nazismo, num campo que muitos associaram à infame nazisploitation (um subgénero de filmes de gosto duvidoso, baseados em crime e sexo num contexto da perversão nazi), Liliana Cavani construiu um filme alternativo, onde não teve pudor de abordar os temas dos criminosos de guerra escondidos, e de perversões sexuais como as relações sadomasoquistas com claro confronto de dominação e submissão. Tal é o papel de Max, que a início vemos como um nazi escondido, procurando passar despercebido numa nova realidade, e de Lucia, a inocente vítima, ainda torturada por memórias dos tempos em que foi abusada. Logo essa realidade se esfuma para percebermos uma outra bem mais complexa em que ambos parecem dependentes de uma relação doentia, capaz de os torturar, e por fim levar à ruína.

Pelo meio, Cavani traz-nos momentos icónicos, como o primeiro encontro de Max e Lucia, envolvendo esbofeteamentos, e posterior agrilhoamento, a cena de cabaré com Charlotte Rampling em topless e uniforme nazi a cantar ao jeito de Marlene Dietrich, e os diversos e fugazes flashbacks para um passado de campo de concentração, de filas de pessoas condenadas e a sua desumanização no processo de catalogação e inspecção, num voyeurismo doentio da nudez humana de seres a ser humilhados. O filme passa ainda por momentos simbólicos, como a dança de um bailarino masculino que sugere conteúdo homossexual, e a oferta da cabeça do homem que teria incomodado Lucia, num paralelo do mito de Salomé e a decapitação de S. João Baptista.

O universo privado de Max e Lucia funciona como intemporal, capaz de esquecer as barreiras do medo ou do tempo, e mesmo que fora desse universo Max mostre uma frieza e indiferença a toda a prova. Exemplos são a forma fria com que trata a condessa (Isa Miranda), ou como mata o amigo que sabe quem é Lucia. Descrito como quase um vampiro (alguém que apenas vive de noite), Max revela-se apenas na presença de Lucia, numa obsessão que é correspondida, e causará a morte de ambos, depois de praticamente se barricarem em casa, sem terem comida ou algo mais que um ao outro.

Nesse sentido “O Porteiro da Noite” é também um romance, ainda que Cavani o desenhe com linhas tortas, chocando, revelação após revelação, quase como se procurasse que não possamos ter empatia pelos personagens, de resto condenados à tragédia. Nele, o imaginário nazi parece ser uma espécie de pano de fundo para a violência e crueldade do sadomasoquismo, enquanto a constante alusão a flashbacks do passado funciona como uma atmosfera onírica, que nos transporta para uma propositada irrealidade.

Inesquecíveis tornar-se-iam as presenças de Charlotte Rampling e Dirk Bogarde, ambos tendo já contracenado em “Os Malditos” (La caduta degli dei/The Damned, 1969), de Lucchino Visconti, e, no caso de Rampling, uma rampa de lançamento, já que até então era ainda uma actriz pouco conhecida.

Pelo seu teor, o filme seria muito criticado nalguns países (como os Estados Unidos), mas visto, por outro lado como um uma interessante peça artística, na Europa.

Produção:

Título original: Il portiere di notte; Produção: Lotar Film Productions; Produtor Executivo: Joseph E. Levine (EUA); País: Itália; Ano: 1974; Duração: 113 minutos; Distribuição: Ital-Noleggio Cinematografico (Itália), AVCO Embassy Pictures (EUA); Estreia: 3 de Abril de 1974 (França), 16 de Setembro de 1976 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Liliana Cavani; Produção: Esa De Simone, Robert Gordon Edwards; Argumento: Liliana Cavani, Italo Moscati [com a colaboração de: Barbara Alberti, Amedeo Pagani]; História: Liliana Cavani, Barbara Alberti, Amedeo Pagani; Música: Daniele Paris; Fotografia: Alfio Contini [cor por Technicolor e Eastmancolor]; Montagem: Franco Arcalli; Direcção Artística: Nedo Azzini, Jean Marie Simon; Cenários: Osvaldo Desideri; Figurinos: Piero Tosi; Caracterização: Egidio Santoli; Direcção de Produção: Umberto Sambuco.

Elenco:

Dirk Bogarde (Max), Charlotte Rampling (Lucia), Philippe Leroy (Klaus), Gabriele Ferzetti (Hans Folger), Giuseppe Addobbati (Stumm), Isa Miranda (Condessa Stein), Nino Bignamini (Adolph), Marino Masé (Atherton), Amedeo Amodio (Bert), Piero Vida (Porteiro Diurno), Geoffrey Copleston (Kurt), Manfred Freyberger (Dobson), Ugo Cardea (Mario), Hilda Gunther (Greta), Nora Ricci (A Vizinha), Piero Mazzinghi (Concierge), Kai-Siegfried Seefeld (Jacob), Karl Böhm (Maestro de “A Flauta Mágica”).