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Last Tango in ParisPaul (Marlon Brando) e Jeanne (Maria Schneider) são dois desconhecidos que se encontram fortuitamente num apartamento que ambos visitam em Paris. Rapidamente se lançam numa voraz relação sexual que não tem outro fim que esgotar as suas emoções numa alienação de sentimentos, de motivação puramente física. Paul está de luto, sofrendo pelo suicídio da mulher que amava, enquanto Jeanne vive presa a uma relação insatisfatória com o cineasta Tom (Jean-Pierre Léaud), sentindo necessidade de se afirmar pela transgressão sexual. Mas a curiosidade começa a fazer o par querer saber mais um sobre o outro, e trazer sentimentos para a relação. É então que o fascínio termina, e a relação se torna perigosa.

Análise:

Continuando a filmar em França, com a fotografia de Vittorio Storaro, Bernardo Bertolucci deu-nos em 1972 aquele que será, porventura, o seu mais controverso filme. Partindo das suas próprias fantasias sexuais (o próprio terá dito que a história teve origem na ideia de ter sexo com uma estranha sem nunca saber quem ela era), Bertolucci levou mais longe a ideia de sexo como uma forma de expressão ou transgressão que já antes usara como definição de posições e revoltas (mesmo que figurativas, ou apenas interiores). Desta vez a transgressão advinha da ideia de sexo apenas pela expressão sexual, no que se tornaria um dos filmes mais provocantes do seu tempo, e onde a presença de Marlon Brando lhe veio dar uma projecção (e consequente polémica) talvez inesperada.

“O Último Tango em Paris” conta-nos a história de dois amantes, Paul (Marlon Brando) e Jeanne (Maria Schneider) que se encontram fortuitamente e se dedicam a uma relação puramente física, onde existe uma recusa expressa de saberem mais um do outro. Inicialmente não sabemos nada sobre eles, vendo-os pela primeira vez quando eles se conhecem, no apartamento onde se vão sempre encontrar, e que será o palco (até mesmo no sentido teatral) de todas as suas interacções. É aí que os vemos darem-se de modo animal, hipnótico, e por vezes violento, a algo que os retire do mundo real.

Aos poucos que vamos conhecendo mais sobre a vida dos dois amantes. Paul (Brando igual a si próprio, intempestivo, duro, desconcertante e manipulador) está de luto, dilacerado pelo suicídio da mulher que amava, e sem vontade de voltar a viver. Já Jeanne (Schneider, com apenas 19 anos, mostrando um misto de docilidade submissa e curiosidade assertiva) vive presa a uma relação demasiado pueril para a satisfazer. Mas, quando o par começa a falar de amor, e a querer revelar-se, o fascínio termina, e a relação resulta num total desencanto, desembocando em tragédia.

“O Último Tango em Paris”, produto do seu tempo, traz-nos o período de rebeldia sexual e quebra de convenções que surgia um pouco por todo o mundo, e definia novas temáticas e abordagens estéticas, desde a Nouvelle Vague francesa (de notar que Agnès Varda esteve envolvida no filme, que conta ainda com a participação de Jean-Pierre Léaud), à Nova Hollywood, que explorava a contra-cultura, a violência e os protestos políticos, e ajudava a trazer o sexo e o erotismo para a fila da frente das novas temáticas cinematográficas.

Com argumento do próprio Bertolucci e de Franco Arcalli, o filme é um elogio da relação física, como dimensão extra, e talvez mais pura, que qualquer outro tipo de relação que traga prisões, sofrimento e desgosto. É um abordar directo da sexualidade, com tudo o que esta possa ter de mais carnal e agressivo, sem a necessidade de amarras sentimentais. A própria cor da carne era então realçada, com Vittorio Storaro a escolher uma tonalidade alaranjada para o filme, para contrastar com a frieza dos exteriores de Paris, num clima intenso, e claustrofóbico (toda a relação acontece num apartamento fechado), onde a intensidade sexual é sempre aliada de desespero, urgência e alienação.

Se ao espectador de hoje, “O Último Tango em Paris” parecerá apenas um drama psicológico, em 1972, tal temática, linguagem e modo cru e violento de a tratar (da sodomia, à submissão e quase violação), chocou, tornando-o um filme maldito, para alguns mesmo pornográfico (embora todo o sexo seja simulado, e não exista nudez masculina), que passaria por alguns cortes para exibição em mercados menos permissivos. A presença de Brando ajudou a cimentar o estatuto do filme, como ensaio desinibido e frontal sobre a sexualidade, mas a controvérsia foi a sua melhor publicidade, com a censura de vários países a aguçar o interesse dos espectadores. Exemplo foi Portugal, pela estreia do filme logo após o 25 de Abril de 1974, gerando longas filas de espectadores ávidos de verem um filme diferente onde o sexo era quase explícito.

Texto adaptado da crítica escrita para a revista Take Cinema Magazine Nº 43.

Maria Schneider e Marlon Brando em "O Último Tango em Paris" (Ultimo tango a Parigi/Last Tango in Paris, 1972), de Bernardo Bertolucci

Produção:

Título original: Ultimo tango a Parigi; Produção: Les Productions Artistes Associés / PEA Produzioni Europee Associate s.a.s.; País: França / Itália; Ano: 1972; Duração: 129 minutos; Distribuição: Les Artistes Associés (França), United Artists; Estreia: 14 de Outobro de 1972 (New York Film Festival, EUA), 13 de Dezembro de 1972 (Itália), 30 de Abril de 1974 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Bernardo Bertolucci; Produção: Alberto Grimaldi; Argumento: Bernardo Bertolucci, Franco Arcalli [a partir de uma história de Bernardo Bertolucci]; Diálogos em Francês: Agnès Varda, Jean-Louis Trintignant; Música: Gato Barbieri; Direcção Musical: Oliver Nelson; Fotografia: Vittorio Storaro [cor por Technicolor]; Montagem: Franco Arcalli; Design de Produção: Philippe Turlure; Cenários: Maria Paola Maino; Figurinos: Gitt Magrini; Caracterização: Maud Begon, Phil Rhodes; Direcção de Produção: Mario Di Biase, Gérard Crosnier (França).

Elenco:

Marlon Brando (Paul), Maria Schneider (Jeanne), Maria Michi (Mãe de Rosa), Giovanna Galletti (Prostituta), Gitt Magrini (Mãe de Jeanne), Catherine Allégret (Catherine), Luce Marquand (Olympia), Marie-Hélène Breillat (Monique), Catherine Breillat (Mouchette), Dan Diament (Engenheiro de Som da TV), Catherine Sola (Script Girl da TV), Mauro Marchetti (Cameraman da TV), Jean-Pierr Léaud (Tom, o Noivo de Jeanne), Massimo Girotti (Marcel), Peter Schommer (Camaraman Assistente da TV), Veronica Lazar (Rosa), Rachel Kesterber (Christine), Ramón Mendizábal (Chefe de Orquestra de Tango), Mimi Pinson (Presidente do Júri de Tango).