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Il conformista Em Roma, em 1938, Marcello (Jean-Louis Trintignant) é um funcionário do governo de Mussolini, noivo de Giulia (Stefania Sandrelli), que não ama, mas que vai desposar porque é o que se espera dele. Com lua-de-mel marcada para Paris, o casal segue, com Maarcello carregando ordens de procurar e matar um seu ex-professor (Enzo Tarascio), que escreve contra o fascismo. Em casa do professor, Marcello reencontra a mulher deste, a sua ex-amante Anna (Dominique Sanda) e começa a acalentar sonhos de a reconquistar, e não levar o seu plano assassino até ao fim.

Análise:

Insistindo em co-produções de vários países europeus, e agora abraçando a grandiosidade da cor Technicolor, Bernardo Bertolucci continuou o seu percurso provocatório no cinema italiano com uma adaptação de um livro do escritor consagrado Alberto Moravia, no qual este lançava um olhar crítico à decadência do regime fascista de Mussolini.

Centrado mais numa ideia que propriamente num enredo, “O Conformista” mostra-nos o mundo de um agente da polícia política italiana, em 1938, em plena ditadura fascista, enviado a França, para matar um seu antigo professor, que escreve contra o regime. Ele é Marcello Clerici (Jean-Louis Trintignant, com voz de Sergio Graziani), que aproveita o casamento com a sua noiva Giulia (Stefania Sandrelli), para viajar para Paris, onde estabelece contacto com o seu alvo, o professor Quadri (Enzo Tarascio) e a sua esposa, Anna Quadri (Dominique Sanda, com voz de Rita Savagnone), antiga amante de Marcello. Bem recebido pelos Quadri, Marcello deixa-se envolver no clima festivo, saídas nocturnas e conversas libertárias do professor. Mas o seu maior interesse reside em Anna, que tenta reconquistar, e pela qual chega a comprometer o atentado que acontecerá mesmo, e resultará na morte do professor e sua esposa. Anos depois, com a queda de Mussolini, Marcello vendo o pânico dos seus colegas fascistas, que procuram escapar à nova ordem, sucumbe finalmente à sua consciência e culpas do passado.

Como dito atrás, mais que expor um enredo complexo, Bertolucci prefere investigar a personalidade da personagem de Jean-Louis Trintignant, um homem que vive perfeitamente em paz com o seu papel no fascismo italiano, não tanto por convicção, mas sim por ser esse o único modo que conhece. Esse «conformismo» nota-se na forma como aceita as incumbências, participa nas discussões, ou, mais explicitamente, como aceita um casamento, só porque sim, no seio da elite a que pertence, mesmo que sem amor ou sequer entusiasmo pela ideia. Essa máscara de passividade operacional cai quando Marcello é confrontado com o matar alguém do seu passado, e mais ainda quando revê na esposa do seu alvo, Anna, alguém que lhe poderá trazer a paixão que a sua vida não tem. Desde então, Marcello tenta jogar um novo jogo, em que consiga ludibriar todos, especialmente o atento Manganiello (Gastone Moschin), enviado para garantir que o assassinato ocorre. Obviamente, Marcello não consegue salvar ninguém, e vê-se, novamente de modo automático, empurrado para o cumprir de ordens, de um sistema que o transcende, e a que só lhe resta obedecer.

Também por tudo isso, “O Conformista” é uma espécie de ensaio sobre o Fascismo, do ponto de vista das motivações (ou falta delas) humanas. À luz do filme de Bertolucci, o Fascismo surge como um sistema que vive da falta de personalidade de muitos, sem força para se lhe opor, preferindo o caminho da menor resistência, isto é, o cumprir cego de ordens apenas porque assim é mais fácil para todos.

Filmado a cores, em ecrã panorâmico, com filmagens em cenários naturais, quer em Itália, quer em França, o que mais espanta visualmente em “O Conformista” são os interiores. Fazendo uso da estética dos anos 30, transversal a vários países, sobretudo nas ditaduras (da Rússia estalinista ao Portugal salazarista, passando pela Alemanha nazi), são os edifícios de linhas direitas e volumes imponentes, eles próprios conferindo ordem e prepotência, que marcam a atmosfera. Neles os personagens parecem minúsculos, muitas vezes filmados à distância, como se fossem secundários perante a verdadeira personagem principal, o Estado. Raras vezes um filme foi tão definido pela arquitectura.

De Bertolucci ficam ainda os seus habituais jogos de poder, muitas vezes temperados com sexo (onde o sexo é ele próprio um jogo de poder), em personagens que o usam como única forma de expressão (é só através dos seus momentos íntimos com Anna que Marcello solta a sua adormecida humanidade), ou mesmo de transgressão. E claro, a transgressão advém ainda do facto de Marcello ter um passado de abusos sofridos na infância, e de uma homossexualidade latente, que ele reprime, e que vai condenar violentamente nos outros, como na sequência (quase felliniana) em que passeia pela noite de Roma e encontra antigos conhecidos transacionando sexo a troco de um pedaço de comida e de um tecto. Fascista sem convicção, assassino revoltado, casado sem amor, homossexual que se comporta como homofóbico, estas são algumas das contradições que manietam Marcello, que não passa de uma vítima do seu tempo. Por outras palavras, é a forma de Bertolucci nos mostrar que tudo aquilo que está em jogo é um sistema de repressões, crimininalizações e medos, afinal as verdadeiras armas de um sistema totalitário, que uniformiza pela força, e condena todos os desvios da norma consagrada pela liderança.

Elogiado pela fotografia magistral de Vittorio Storaro, pelo uso da arquitectura fascista na definição do espaço, que chega a lembrar um pouco a estética do Expressionismo alemão, e pela atmosfera de densidade psicológica trazida pela interpretação de Trintignant, “O Conformista” seria premiado pela imprensa no Festival de Berlim, e venceria o David di Donatello da indústria italiana.

Jean-Louis Trintignant em "O Conformista" (Il conformista, 1970), de Bernardo Bertolucci

Produção:

Título original: Il conformista; Produção: Mars Film Produzione S.p.A., Roma / Marianne Productions / Maran Film G.M.B.H. di Munchen; Produtor Executivo: Giovanni Bertolucci; País: Itália / França | República Federal Alemã (RFA); Ano: 1970; Duração: 111 minutos; Distribuição: Paramount Films of Italy (Itália), Paramount Pictures (EUA), Cinema International Corporation (CIC); Estreia: 1 de Julho de 1970 (Festival de Berlim, RFA), 7 de Dezembro de 1970 (Itália), 24 de Setembro de 1988 (TV, Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Bernardo Bertolucci; Produção: Maurizio Lodi-Fè [não creditado]; Argumento: Bernardo Bertolucci [a partir do livro homónimo de Alberto Moravia]; Música: Georges Delerue; Fotografia: Vittorio Storaro [cor por Technicolor]; Montagem: Franco Arcalli; Design de Produção: Ferdinando Scarfiotti; Cenários: ; Figurinos: Gitt Magrini; Caracterização: Franco Corridoni; Direcção de Produção: Serge LeBeau.

Elenco:

Jean-Louis Trintignant (Marcello Clerici), Stefania Sandrelli (Giulia), Dominique Sanda (Anna Quadri), Gastone Moschin (Manganiello), Enzo Tarascio (Professor Quadri), Fosco Giachetti (O Coronel), José Quaglio (Italo), Yvonne Sanson (Mãe de Giulia), Milly (Mãe de Marcello), Giuseppe Addobbati (Pai de Marcello), Christian Aligny (Raoul), Carlo Gaddi (Assassino Contratado), Umberto Silvestri (Assassino Contratado), Furio Pellerani (Assassino Contratado), Luigi Antonio Guerra, Orso Maria Guerrini, Pasquale Fortunato (Marcello em Criança), Arturo Dominici (dobragem de voz de Fosco Giachetti) [não creditado], Sergio Graziani (dobragem de voz de Jean-Louis Trintignant) [não creditado], Giuseppe Rinaldi (dobragem de voz de José Quaglio) [não creditado], Rita Savagnone (dobragem de voz de Dominique Sanda) [não creditada], Lydia Simoneschi (dobragem de voz de Yvonne Sanson) [não creditada].

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