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Post Morten Mario Cornejo (Alfredo Castro) é um funcionário de uma morgue, onde é encarregue de registar os relatórios de autópsia, do seu superior, o Dr. Castillo (Jaime Vadell). Com uma vida monótona e solitária, Mario vai-se interessar pela vizinha Nancy Puelma (Antonia Zegers), e quando esta, num momento de fraqueza, o procura fisicamente, Mario passa a considerar que os dois têm um futuro juntos. Mas ao rebentar o golpe de estado de Pinochet, Nancy desaparece, pois o pai e o irmão eram activistas políticos. Alheio às convulsões políticas, Mario é recrutado pelo exército para trabalhar em casos de mortos políticos, enquanto procura saber o que aconteceu a Nancy.

 
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Análise:

Dois anos depois do seu filme anterior, “Tony Manero”, o realizador Pablo Larraín voltava a filmar uma história centrada na sua terra natal, o Chile nos tempos da ditadura militar, novamente em torno de um personagem criado por Alfredo Castro. Desta vez, a história tem bases reais, passando-se durante o golpe de estado que levou ao poder Augusto Pinochet, e baseando-se na figura real de Mario Cornejo (interpretado por Alfredo Castro).

Começando a acção semanas antes do golpe de estado de 11 de Setembro de 1973, que deporia o presidente Salvador Allende, “Post Mortem” é um retrato do dia a da de Mario Cornejo, um técnico de Medicina Legal num hospital de Santiago do Chile, onde se limita a escrever os relatórios que lhe são ditados. Pessoa solitária e de rotinas cinzentas, Mario vive uma vida triste, sem amigos ou actividades lúdicas, até ao momento em que começa a cruzar caminho com a vizinha, e bailarina num cabaré, Nancy Puelma (Antonia Zegers), a quem dá boleia, e recebe mais tarde em casa, quando esta, cansada da política que se fala em sua casa e necessitando de calor humano, o procura, quase por piedade. Para Mario isso é uma revelação como nunca teve na vida e decide que quer casar com Nancy, propondo-se-lhe, e procurando o patrão dela para o ameaçar quando ela é despedida. Mas desponta a revolução, e Nancy desaparece, depois de buscas a sua casa. Preocupado, Mario não tem mãos a medir no emprego, agora com os militares a tomarem conta da sua equipa, e recrutando-os para sanearem as mortes por crimes durante o golpe. Mario vem a encontrar Nancy escondida no quintal, e promete protegê-la, enquanto volta a acalentar esperanças de um casamento. Só que numa visita seguinte ao esconderijo, Mario encontra Nancy com um namorado, e, sem mais palavras tranca os dois lá dentro.

Embora cobrindo um dos períodos mais marcantes e controversos da história moderna do Chile, “Post Mortem” é a história de Mario Cornejo, um homem simples, desprovido de capacidade de exteriorizar emoções (se exceptuarmos a cena em que chora, quase por simpatia, quando vê Nancy chorar, sem saber bem porquê). Como o próprio se define, é apenas um funcionário, sem qualquer importância no seu cargo, o que é espelhado pelo facto de que nem usar uma máquina de escrever eléctrica sabe, precisando de passar as notas à mão, para as dactilografar em casa. Tudo na sua vida é rotina, humildade e pequenez, tal como o são a sua capacidade de sonhar, envolvimento com outros ou olhar para o seu país. Por isso Mario não toma posições políticas, pois nem as entende. Pela mesma razão, vai interpretar mal a procura de companhia de Nancy, acreditando que essa revolução de sentimentos que sente seja um amor correspondido.

Pelos seus gestos tristes, cenários lúgubres, e situações de impavidez passa muito do filme, que é afinal a história de um momento triste, que Mario, na sua posição privilegiada, testemunha sem emoção (por exemplo ao contrário da colega enfermeira, que perde as estribeiras e acaba assassinada). Como se não compreendesse o momento histórico, ou tivesse interesse no destino de todo um povo. Mario não modifica os seus dias a não ser para começar a incluir planos com Nancy, que não adivinha o que ela significa para ele. É nesse distanciamento amoral e apolítico, interpretado com solidez por Alfredo Castro, que o filme se destaca, escapando ao que, de outro modo poderia ser uma história melodramática.

Tal como fizera em “Tony Manero”, Pablo Larraín (que filma em cores cruas, num tom que lembra de imediato os anos 70) deixa que os acontecimentos decorram em fundo, e deles saibamos lateralmente, quando algo toca o mundo do seu protagonista, o qual prefere passar ao lado de tudo o resto, enfiado na sua vida pequenina. Mas na chegada dos corpos, nalgumas discussões que vamos testemunhando, na descrição da autópsia daquele que saberemos depois ser Allende, na prepotência dos militares e no assassinato da enfermeira, temos testemunhos suficientes de que se vive um momento duro, envolto em tragédia e crime. Dela acaba por usufruir, de certo modo, Mario, que sentindo-se protegido pelo seu novo emprego, o irá usar como vingança daquela que considera a pior das traições, a de Nancy que tem outro namorado.

Num certo sentido, “Post Mortem” não é assim tão diferente de “Tony Manero”. Ambos contam com Alfredo Castro no papel de um homem desligado da realidade que o rodeia, preocupado com o seu próprio egoísmo, e à sombra do regime, não hesitando em trair ou matar. Se o Raúl de “Tony Manero” matava por necessidade de acrescentar passos à sua senda de ser alguém (o Tony Manero do Chile), o Mário de “Post Mortem” (que por ironia vive da morte, ao trabalhar numa morgue), ao ver frustrado o seu desejo amoroso, prepara-se para entregar aquela que, na sua visão o traiu. Ambas são histórias de desumanidade, ou como alguns autores têm dito, de terror, vindo da sobrevivência e desumanização de uma sociedade martirizada por um regime opressor.

Alfredo Castro em "Post Mortem" (2010), de Pablo Larraín

Produção:

Título original: Post Mortem; Produção: Fabula / The Hubert Bals Fund of the Rotterdam Festival / World Cinema Fund / Consejo Nacional de la Cultura y las Artes / Ibermedia / Autentika Films / Canana Films / Latina Estudio; Produtores Executivos: Mariane Hartard, Andrea Carrasco Stuven, Juan Ignacio Correa; Co-Produtor Executivo: Geminiano Pineda; País: Chile / Alemanha / México; Ano: 2010; Duração: 93 minutos; Estreia: 5 de Setembro de 2010 (Festival de Veneza, Itália), 16 de Fevereiro de 2011 (França), 22 de Setembro de 2011 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Pablo Larraín; Produção: Juan de Dios Larraín; Argumento: Pablo Larraín, Eliseo Altunaga, Mateo Iribarren; Música: Alejandro Castanos, Juan Cristóbal Meza; Fotografia: Sergio Armstrong; Montagem: Andrea Chignoli; Design de Produção: Polin Garbizu; Figurinos: Muriel Parra; Direcção de Produção: Ruth Orellana.

Elenco:

Alfredo Castro (Mario Cornejo), Antonia Zegers (Nancy Puelma), Jaime Vadell (Dr. Castillo), Amparo Noguera (Sandra), Marcelo Alonso (Víctor), Marcial Tagle (Capitão Montes), Santiago Graffigna (David Puelma), Ernesto Malbran (Arturo Puelma), Aldo Parodi (Pato), Constanza B. Majluf (Enfermeira), Steve Nave (Tenente Davenport).

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