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Tony ManeroRaúl Peralta (Alfredo Castro) é um homem de 51 anos, desempregado, que vive no Chile de Pinochet, em 1978, obcecado com a figura de Tony Manero, o personagem de John Travolta no filme “Febre de Sábado à Noite”. Convencido que pode sair da obscuridade ganhando um concurso televisivo de imitações, Raúl procura tornar-se o mais possível parecido com Travolta, imitando-no no filme, aprendendo a dançar, e encarnando o personagem. Para tal tenta converter a pensão em que vive num palco como o do filme, nem que para isso tenha que usar o crime, para obter o suficiente para comprar um pavimento envidraçado.

 
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Análise:

Segunda longa-metragem do chileno Pablo Larraín, “Tony Manero” é uma incursão num tema habitual do realizador, o Chile da ditadura militar de Pinochet, visto de lado, através de histórias do dia a dia, daqueles que sofrem indirectamente a repressão do regime, em vidas humildes e desprovidas de esperança.

No centro temos o titular Tony Manero… ou melhor, Raúl Peralta (Alfredo Castro), um homem de 51 anos, desempregado, e sem outro interesse que não seja ser imitar na perfeição o personagem de John Travolta no filme “Febre de Sábado à Noite” (Saturday Night Fever, 1977) de John Badham. Raúl vive numa pensão que divide com um grupo de pessoas, sob a senhoria Wilma (Elsa Poblete), que os deixa usar um palco improvisado para treinarem rotinas de dança retiradas do filme. Entre os outros residentes estão a namorada de Raúl, Cony (Amparo Noguera), e os jovens revolucionários Goyo (Héctor Morales) e Pauli (Paola Lattus), esta filha de Cony. Os dias de Raúl decorrem sob duas prioridades, conseguir um palco de vidro com iluminações de discoteca como no filme, e participar no concurso televisivo “Festival de la Una”, que terá um concurso de imitadores de John Travolta. Para tal, Raúl não hesita em matar uma velhinha para lhe roubar a TV a cores, e roubar um relógio de alguém morto pela polícia política, para os trocar pelo desejado chão, para, quando percebe não ter ainda suficiente espólio para a troca, matar o próprio vendedor, um traficante. Em casa a sua amoralidade continua, não hesitando em ir para a cama com a filha da namorada, ou em deixar Goyo ser levado pela polícia, quando o seu interesse é apenas estar no concurso a horas. Finalmente Tony consegue o seu objectivo, para ficar apenas em segundo lugar.

Com um tema de auto-ilusão, Pablo Larraín traz-nos o Chile do final dos anos 70, que nos mostra como um lugar sem esperança que não seja o mundo falso da televisão e cinema, com os seus mitos fabricados e verdades a metro. É esse mundo que seduz Raúl Peralta, um homem sem interesses ou objectivos que não sejam imitar Tony Manero, o icónico personagem de John Travolta. Tudo na vida de Raúl passa por aproximar-se mais de Tony Manero, seja treinando rotinas de dança, aprendendo maneirismos (pelo que passa o tempo no cinema a ver o filme), procurar um guarda-roupa igual e obter um palco que lembre o da discoteca do filme.

É através dos seus esforços que, quase fazendo parecer ser algo secundário, Larraín nos pinta um quadro de perda de identidade, decadência, pessimismo, vidas ocas de ilusão e amoralidade, sem hesitação para cair no mundo negro da violência, apenas por este ser uma solução tão natural como qualquer outra. Por isso vemos Raúl matar, roubar, trair, não por maldade, dever ou ambição desmedida, apenas para continuar o passo a passo do seu quotidiano alienado em que se dedica em construir um personagem.

Tudo isto é filmado com uma câmara sempre móvel, em planos-sequência que seguem Alfredo Castro intrusivamente, dando-nos a sua expressão ausente e modo desprendido de emoções de olhar o que o rodeia. Através dele, temos um Chile frio, sem emoção, sujo, prestes a cair cada vez mais baixo, numa corrida para a frente que é a da alienação trazida por agendas políticas e posta em prática pelo mundo de falsidade dos programas ocos de televisão onde tudo é plástico. É aí que vemos um homem que acredita que esse mundo lhe pode trazer redenção, já que para ele a dignidade máxima será concretizar o objectivo de ser reconhecido como o Tony Manero chileno. É este mundo que Larraín nos mostra, sem tentar explicar ou julgar, com a mesma frieza e distanciamento que sentimos em relação àquela era, e que Raúl parece sentir para com tudo o que o rodeia.

“Tony Manero” venceu prémios em Turim e Istambul, tendo sido o concorrente chileno ao Oscar de Melhor Filme de Língua Estrangeira.

Produção:

Título original: Tony Manero; Produção: Fabula Productions / Latina Estudio ProDigital / Universidad UNIACC / TVN; Produtores Executivos: Mariane Hartard, Juan Ignacio Correa; País: Chile / Brasil; Ano: 2008; Duração: 93 minutos; Distribuição: Bazuca Films (Chile); Estreia: 17 de Maio de 2008 (Festival de Cannes, França), 28 de Agosto de 2008 (Chile), 11 de Março de 2010 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Pablo Larraín; Produção: Juan de Dios Larraín; Produtor Associado: Tomás Dittborn; Co-Produção: Cao Quintas, Octavio Escobar; Argumento: Pablo Larraín, Mateo Iribarren, Alfredo Castro; Música: ; Orquestração: ; Fotografia: Sergio Armstrong; Montagem: Andrea Chignoli; Design de Produção: Polin Garbizu; Figurinos: Muriel Parra; Caracterização: Margaritta Marchi; Coreografia: Francisca Sazlé; Direcção de Produção: Ruth Orellana.

Elenco:

Alfredo Castro (Raúl Peralta), Amparo Noguera (Cony), Héctor Morales (Goyo), Elsa Poblete (Wilma), Paola Lattus (Pauli), Nicolás Mosso (Tomás), Enrique Maluenda (Apresentador de TV), Marcelo Alonso (O Romeno).

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