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Il deserto rossoNuma área industrial, morta pelos fumos e dominada pelo cinzento, Giuliana (Monica Vitti) é a esposa do engenheiro Ugo (Carlo Chionetti), com quem pouco consegue comunicar. Sentido-se à beira do colapso nervoso, sem conseguir aceitar o mundo onde vive, e sem conseguir comunicar o que sente, Giuliana vê a sua neurose ligeiramente aplacada pelo interesse do engenheiro Corrado Zeller (Richard Harris), um colega do marido que está de visita. Os dois tornam-se mais próximos, enquanto Giuliana fala do seu papel, aspirações e anseios, mas talvez Corrado apenas a esteja a usar para satisfazer os seus desejos físicos.

Análise:

“O Deserto Vermelho”, que antes esteve para se chamar “Celeste e Verde”, foi o primeiro filme a cores de Michelangelo Antonioni. Nem por isso se trata de um filme mais colorido, e esse uso da cor quase que serve para exacerbar a sua falta, em cenários cinzentos, filmados com um distanciamento frio, quase que a descrever um mundo frio, inóspito, estranho, sem nada de familiar, quente, ou… colorido.

Com argumento do próprio, e de Tonino Guerra, Antonioni tem em “O Deserto Vermelho” uma continuação temática da sua trilogia anterior, “A Aventura” (L’Avventura, 1960), “A Noite” (La Notte, 1961) e “O Eclipse” (L’Eclisse, 1962), todos com Monica Vitti (embora no segundo não como protagonista). É mais uma história de distanciamento em relação ao mundo, aos outros, e aos sentimentos, filmado de uma forma friamente desconcertante, sem apresentar razões ou soluções, centrada na personagem de Monica Vitti, que encarna na perfeição a heroína de Antonioni, a um passo entre uma loucura imperceptível e uma racionalidade complexa, num misto de sentimentos escondidos e comportamento distante.

Ela é Giuliana, uma esposa, mãe de um filho, que vemos caminhar sem sentido pela orla da grande fábrica, e que vemos o marido Ugo (Carlo Chionetti), engenheiro numa instalação petroquímica, descrever como uma pessoa que nunca mais ficou psicologicamente bem depois de um grave acidente de automóvel. A quem ele o descreve é ao seu associado Corrado Zeller (Richard Harris, com voz dobrada por Giuseppe Rinaldi), que está em busca de trabalhadores para um empreendimento na Patagónia. Interessado no caso de Giuliana, Corrado visita-a e os dois conversam sobre o sentimento de desconforto dela. Giuliana acaba por acompanhar Corrado numa visita de trabalho, na qual lhe fala da ideia de amar alguém como salvação contra a sua situação de desespero. Giuliana, Ugo e Corrado participam numa saída de repouso, na qual a ideia de uma quarentena vem perturbar Giuliana. Mais tarde, já com Ugo ausente, Giuliana teme pelo filho, que parece paralisado da cintura para baixo, revelando-se ser apenas fingimento, o que a faz sentir-se ainda mais sozinha. Tal leva-a a procurar Corrado, e os dois envolvem-se sexualmente, sem que isso mude nada nela, que continua a sentir o mesmo isolamento, como demonstrado na cena final que imita a inicial com a deambulação pela fábrica de Ugo, e a observação dos gases venenosos que dela saem.

Como dito atrás, mesmo filmado a cores, “O Deserto Vermelho” (embora numa cor artificializada, como o são os desconfortos da sua protagonista) é mais um exemplo do distanciamento, alienação, solidão e incapacidade de comunicação do universo de Antonioni. Aqui nas mãos de uma Monica Vitti que encarna uma personagem a braços com problemas psicológicos, fica-nos desde logo a pergunta (já que não a conhecemos antes do referido acidente), foi o seu estado de neurose causada pelo tal acidente, ou é ele apenas reflexo do espírito perturbado de Giulia, entregue ao desespero, sem objectivos, sem acreditar no amor nem nas pessoas. Esse desencontro é perceptível na forma como Giuliana e Ugo nunca comunicam, e mesmo quando tentam parecem ser de planetas diferentes. A incompreensão caseira é visível no episódio da paralisia do filho e, de um modo mais claro, a cena em que Giuliana procura confessar-se a um marinheiro estrangeiro, sem que nenhum deles entenda uma palavra do outro, é também sintomática.

Pelo meio surge Corrado, que é apenas uma novidade para Giuliana, uma tentativa de comunicar, que parte mais da insistência e fascínio dele, que da vontade ou crença dela. Mesmo que ambos se vão aproximando, e nasça alguma atracção entre eles, há sempre muito mais que os distancia, o que é, por exemplo, lembrado com a viagem que ele deve empreender à Patagónia, onde deve passar meses quase sem contacto com o exterior (como explicado aos seus possíveis empregados). Através dele, chega-nos a ideia da adaptabilidade do ser humano, literalmente às condições inóspitas que ele advoga, figurativamente ao mundo social que nos rodeia, e pelo qual não sentimos afinidade.

É toda esta atmosfera de desolação, solidão e principalmente um sentimento de incapacidade, que Antonioni filma com um granulado de nevoeiro, por entre o cinzento das fábricas, as paisagens mortas que as rodeiam (na região industrial de Ravena), e os fumos venenosos capazes de matar toda a vida, conferindo a tudo uma certa abstracção. Nos interiores, Antonioni optou por fortes zooms que trouxessem um efeito bidimensional que criasse um maior sentido de claustrofobia e desconforto. O resultado é um filme onde parecemos ver uma sequência de pinturas, por isso com uma componente poética muito própria, que chega a ir para lá dos contextos trazidos pelos seus personagens. Note-se que a sequência da lenda contada por Giuliana ao filho é a única em que não há manipulação de cor.

Mesmo odiado por Andrei Tarkovsky, “O Deserto Vermelho” ganhou imediatamente o elogio da crítica, e seria galardoado com o Leão de Ouro no Festival Internacional de Veneza.

Monica Vitti, aqui mais uma vez sublime pela forma como, quase sem expressão, dá vida à ideia de uma neurose como extrema actividade interior, que não deve chegar-nos por exagero, só viria a trabalhar de novo com Antonioni dezasseis anos depois, em “O Mistério de Oberwald (Il mistero di Oberwald, 1980).

Monica Vitti em "O Deserto Vermelho" (Il deserto rosso), de Michelangelo Antonioni

Produção:

Título original: Il deserto rosso; Produção: Film Duemila / Federiz / Francoriz Production; Produtores Executivos: ; País: Itália / França; Ano: 1964; Duração: 117 minutos; Distribuição: Rizzoli Film (Itália), Inter France Distribution (IFD) (França); Estreia: 7 de Setembro de 1964 (Festival de Veneza, Itália), 27 de Outubro de 1964 (França), 29 de Outubro de 1964 (Itália), 12 de Fevereiro de 1965 (Cinema Monumental, Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Michelangelo Antonioni; Produção: Tonino Cervi [como Antonio Cervi]; Co-Produção: Angelo Rizzoli; Argumento: Michelangelo Antonioni, Tonino Guerra; Música: Giovanni Fusco, Vittorio Gelmetti; Direcção Musical: Carlo Savina; Fotografia: Carlo Di Palma [cor por Technicolor]; Montagem: Eraldo Da Roma; Direcção Artística: Piero Poletto; Cenários: ; Figurinos: Gitt Magrini; Caracterização: Giancarlo De Leonardis; Efeitos Especiais: Franco Freda; Direcção de Produção: Ugo Tucci.

Elenco:

Monica Vitti (Giuliana), Richard Harris (Corrado Zeller), Carlo Chionetti (Ugo), Xenia Valderi (Linda), Rita Renoir (Emilia), Lili Rheims (Mulher do Operador de Rádio-telescópio), Aldo Grotti (Max), Valerio Bartoleschi (Valerio, Filho de Giuliana), Emanuela Pala Carboni (Rapariga na Fábula), Bruno Borghi, Beppe Conti, Giulio Cotignoli, Giovanni Lolli, Hiram Mino Madonia, Giuliano Missirini (Operador de Rádio-telescópio), Arturo Parmiani, Carla Ravasi, Ivo Scherpian, Bruno Scipioni, Giuseppe Rinaldi (dobragem de voz de Richard Harris) [não creditado].

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