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L'eclisseVittoria (Monica Vitti) acabou de terminar a sua relação com o desgostoso Riccardo (Francisco Rabal). Fá-lo friamente, sem nada sentir, e distancia-se procurando saber o que se está a passar consigo. Procura a companhia da mãe (Lilla Brignone), viciada na Bolsa de Roma, mais preocupada com lucro que em ouvir a filha, e entre as vizinhas, com quem tem, afinal, pouco em comum. É ainda na Bolsa, que conhece o jovem corretor Piero (Alain Delon), homem frenético, que procura conquistar Vittoria, com o entusiasmo e agressividade com que se comporta na Bolsa. Embora Vittoria vá cedendo aos avanços de Piero, algo os faz suspeitar de que não será possível uma relação profunda entre ambos.

 
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Análise:

Aquele que foi o terceiro filme de Antonioni na chamada «trilogia da Incomunicabilidade», e decerto o mais experimentalista (ou mais corajoso, nas palavras de Martin Scorsese) dos três, foi também o seu último filme a preto e branco. Depois de “A Aventura” (L’avventura, 1960) lidar com uma relação que nasce quase por equívoco, e de “A Noite” (La notte, 1961) nos mostrar uma relação que definha sem que os intervenientes consigam perceber porquê, chegava o terceiro tomo, uma história que nos mostrava um ainda maior distanciamento que faz parecer inútil tentar qualquer relacionamento.

Pela terceira vez, em três filmes, com Monica Vitti no elenco, agora contracenando com o francês Alain Delon, “O Eclipse” é a história de Vittoria (Vitti), a partir do momento em que diz a Riccardo (Francisco Rabal) que a relação entre ambos terminou. Ao contrário do dramatismo de Riccardo, Vittoria permanece fria, quase apática, limitando-se a seguir os seus dias, por exemplo encontrando-se a mãe (Lilla Brignone), viciada na Bolsa de Roma. É aí que conhece o jovem corretor Piero (Alain Delon) que, habituado a procurar agressivamente tudo o que quer, passa desde logo a cortejar Vittoria. Vittoria passa tempo com as vizinhas Anita (Rosanna Rory) e Marta (Mirella Ricciardi), esta uma colonialista que insiste em falar das suas propriedades no Quénia. Os encontros com Piero revelam-se frustrantes, já que ele se preocupa essencialmente com os seus bens materiais, como no episódio em que um bêbedo lhe rouba o carro e morre ao despenhar-se num lago. Os dois prosseguem a relação, ambos desejosos que ela se torne em algo mais profundo, mas, cada um à sua maneira, cientes que tal não vai poder acontecer.

Começando pelo final, aquilo que mais marca quem vê “O Eclipse” são os últimos minutos, que se seguem ao momento para o qual Vittoria e Piero tinham marcado o encontro a que ambos faltarão. São cerca de sete minutos, nos quais vemos uma sucessão de imagens descorrelacionadas, muitas vezes sem pessoas (quando surgem são banais transeuntes na distância, ou vemo-los em olhares perdidos), por vezes feitas de detalhes, outras de paisagens urbanas, cursos de água ou pedaços de céu, todas elas dando uma ideia de espaço, afastamento e/ou solidão. Esse final, puramente experimentalista, tornou-se um dos mais desconcertantes finais de um filme de um realizador famoso, talvez a par do final de “2001: Odisseia no Espaço” (2001: a Space Odissey, 1968) de Stanley Kubrick.

Esse epílogo imprevisto, e que faz sempre esperar que algo mais venha a acontecer, é como que uma bofetada em quem procura um sentido naquilo que não o deve ter, isto é, nas relações como a de Vittoria e Piero, sem bases ou motivações, apenas desconforto e estranheza. Esses são aliás os sentimentos que Vittoria parece carregar desde o primeiro momento. É a sua frieza e alienamento que chocam quando deixa Riccardo (numa sequência tão simples e espartana quanto bela e intensa), e a sua falta de à vontade perante as amigas, nos momentos com a mãe (mais preocupada com o lucro das suas acções que com os problemas da filha), e finalmente com Piero, que de personalidade electrizante, vive num «país diferente» como a dada altura ambos intuem. É um final em aberto, numa sobreposição de planos que podem também ser interpretadas simbolicamente, reforçando o estatuto de Antonioni na sua forma original de contar histórias por imagens, quebrando as convenções narrativas.

Com “O Eclipse”, Antonioni mostra, mais claramente ainda que nos dois filmes anteriores, que o seu mundo é frio, sem calor humano, onde a busca de algo mais profundo é ela própria mecânica, como uma reminiscência automática que já não se compreende. A realidade oprime, é desconfortável, num pós-modernismo alienante (aqui simbolizado pela actividade frenética e materialista da Bolsa de Valores), e as pessoas perderam (se alguma vez a tiveram) a capacidade de comunicar, de se tocarem e fazerem sentir algo que não seja mecânico ou fisiológico, como o próprio sexo parece ser. O nominal «eclipse» é, por isso, o dos sentimentos humanos, do calor humano, e do próprio sentido dos relacionamentos, perdido para sempre.

Filmando de um modo contemplativo, e em simultâneo realista (em cenários naturais), Antonioni traz-nos a cidade de Roma longe do seu romantismo, como factor alienante e de desolação, no qual as suas composições são sempre inquietantemente frias. Nelas Monica Vitti, encarnando melhor que nunca o paradigma de Antonioni, tem algo de permanentemente distante e vazio, mesmo nos seus sorrisos, lembrando-nos sempre que também nós estamos longe de saber o que se passa no seu âmago, muito menos de a poder compreender.

“O Eclipse” dividiu opiniões, desde aqueles que elogiaram o arrojo de Antonioni ao criar algo diferente, aos que acharam o filme uma extrema indulgência sem uma mensagem concreta a transmitir. Nos Estados Unidos o final chegou a ser cortado, por nada se passar em termos de enredo, e os distribuidores não perceberem a sua função. Ainda assim o filme ganhou o Prémio do Júri de Cannes, tendo sido nomeado para a Palma e Ouro do mesmo festival.

Alain Delon e Monica Vitti em "O Eclipse" (L'eclisse, 1962), de Michelangelo Antonioni

Produção:

Título original: L’eclisse; Produção: Cineriz, Interopa Film, Paris Film; País: Itália / França; Ano: 1962; Duração: 118 minutos; Distribuição: Cineriz (Itália), Compagnie Française de Distribution Cinématographique (CFDC) (França), Bavaria-Filmverleih (RFA), Gala Film Distributors (Reino Unido); Estreia: 12 de Abril de 1962 (Itália), 4 de Dezembro de 1963 (Cinema Império, Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Michelangelo Antonioni; Produção: Robert Hakim, Raymond Hakim; Argumento: Michelangelo Antonioni, Tonino Guerra, Ennio Bartolini, Ottiero Ottieri; História: Michelangelo Antonioni, Tonino Guerra; Música: Giovanni Fusco; Direcção Musical: Franco Ferrara; Canção: Mina; Fotografia: Gianni Di Venanzo [preto e branco]; Montagem: Eraldo Da Roma; Design de Produção: Piero Poletto; Figurinos: Bice Brichetto; Caracterização: Franco Freda; Direcção de Produção: Danilo Marciani.

Elenco:

Alain Delon (Piero), Monica Vitti (Vittoria), Francisco Rabal (Riccardo), Lilla Brignone (Mãe de Vittoria), Rossana Rory (Anita), Mirella Ricciardi (Marta), Louis Seigner (Ercoli), Cyrus (O Bêbedo) [não creditado], Gabriele Antonini (Dobragem de Voz de Alain Delon) [não creditado], Aldo Giuffrè (Dobragem de Voz de Francis Rabal) [não creditado].

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