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L'avventura Anna (Lea Massari) é uma moça rica, insatisfeita com a sua relação com Sandro (Gabriele Ferzetti), pois estão mais tempo separados que juntos, e ela duvida do empenho dele. Um momento de reencontro dá-se numa viagem de iate pelas ilhas Eólias. Aí, Anna e Sandro são acompanhados por Claudia (Monica Vitti), a melhor amiga de Anna, e uma série de amigos, ricos e de gostos decadentes. Após uma paragem numa ilha, Anna desaparece, não se sabendo se terá caído ao mar, ou seguido nalgum barco, depois de se chatear com Sandro. Claudia e Sandro ficam para trás para a procurar, mas acabam por se envolver amorosamente.

Análise:

Depois de muitos argumentos escritos para outros realizadores, de algumas curtas-metragens e de cinco longas-metragens em seu nome, Michelangelo Antonioni conseguia, com “A Aventura”, o reconhecimento internacional, que começou logo na apresentação, no Festival de Cannes. O filme passou por uma falência a meio da produção, e contou com o internamento, por paragem cardíaca, de Lea Massari. Conta-se que a primeira exibição do filme foi recebida com apupos (com Antonioni e Monica Vitti a fugirem da plateia antes que as luzes se reacendessem), para depois se passar ao aplauso na exibição seguinte, e o realizador acabar por vencer o Grande Prémio do Júri. Tudo se deveu à estrutura inovadora, em que a história inicial deixa de ter importância, e o que nasce dela termina sem conclusão, num filme contemplativo e lento, e que por isso não satisfez o público mais convencional.

Foi, por outro lado, essa mesma estrutura que agradou aos críticos, e tornou “A Aventura”, vulgarmente citado como o primeiro filme de uma trilogia de incomunicabilidade, apelativo, pelo modo como quebrava convenções.

“A Aventura” começa por ser a história de Anna (Lea Massari), uma moça rica, insatisfeita com a sua relação com Sandro (Gabriele Ferzetti), sempre ausente, e que talvez a traia. Uma reunião do casal ocorre num retiro para um passeio de barco com um grupo de amigos, todos eles ricos e amiúde entregues ao ócio. Numa passagem por uma ilha rochosa nas Éólias, Anna desaparece. Fica a dúvida se caiu nalgum precipício, no mar, ou se algum barco de passagem a terá levado. Sandro e Claudia (Monica Vitti), a melhor amiga de Anna, começam por ficar na ilha, com as autoridades que vêm ajudar na busca, para concluir que ela deve ter partido nalgum barco piscatório. Então o par inicia uma busca pelos portos vizinhos, seguindo pistas, sempre que alguém diz ter conhecimento de alguma coisa (um bando de traficantes que lhe pode ter dado boleia, um jornalista que escreve um artigo sobre o desaparecimento, um farmacêutico que diz tê-la tido por cliente). De lugar em lugar, Sandro e Claudia vão errando sem esperança, enquanto se envolvem sentimentalmente. A busca torna-se quase uma busca interior, cada um tentando saber o que quer para si, Sandro pensando na arquitectura que deixou para trás, Claudia temendo ser abandonada por Sandro na eventualidade do regresso de Anna.

Assim, da história de Anna, e das suas dúvidas quanto à relação com Sandro, passa-se pelo seu desaparecimento, para logo de seguida percebermos que o motivo principal do filme é a busca de Sandro e Claudia. Como se não bastasse vemos como, desde logo, passa a haver uma relação entre ambos, enquanto ainda procuram Anna. É caso para se perguntar se essa busca não se torna apenas um motivo para o par estar junto, como aquilo que os une, ou seja, o amor a Anna. Assumir a sua perda retiraria a Sandro e Claudia o pretexto para continuarem na presença um do outro, como aos poucos se vai percebendo nas dúvidas de Claudia (note-se como reage quando pensa que Sandro encontrou Anna no hotel), e nas traições de Sandro, que continua uma busca física que não o deixa estabilizar emocionalmente.

Estas deambulações são-nos dadas por Antonioni também do ponto de vista da paisagem. Do mar das Eólias à paisagem siciliana, filmada num tom saturado que traz ainda mais desolação (note-se com o fato de Sandro quase se confunde com a paisagem). O ritmo lento, os tempos mortos e, principalmente, o o rosto de Monica Vitti, que funciona quase como um mediador dos nossos sentimentos, tornam “A Aventura” um exercício contemplativo, onde a acção vai aos poucos perdendo a primazia, substituída por episódios soltos que espelham os momentos interiores das personagens. São exemplo a contemplação da igreja, o episódio dos sinos, a conversa com os estudantes de arquitectura, etc.

Segundo o próprio Antonioni, o seu objectivo era a descrição da forma de nascer e evoluir de sentimentos humanos que surgem por motivos errados, sem uma base que os sustente, e estão por isso condenados ao fracasso. Em conjunção com os seus dois filmes seguintes, “A Noite” (La Notte, 1961) e “O Eclipse” (L’Eclisse, 1962), “A Aventura” é um retrato de estados de espírito contraditórios e convulsivos, que levam a uma dificuldade de compreensão de si mesmo, e maior ainda na partilha e comunicação com aqueles que deviam estar próximos.

Há, no tema, algo do silêncio de Bergman, mas aqui expresso de um modo visualmente mais exuberante. A fotografia é mesmo um dos pontos altos de “A Aventura”, que é quase que uma visita guiada a uma certa arquitectura barroca italiana (a permanência contra a o transitório das personalidades), plena de nostalgia e solidão, em planos cheios, onde o foco pode estar no rosto de Monica Vitti, mas o fundo parece sempre igualmente imponente. Começando, como se disse, como a história do desespero de Anna, o filme passa ao desaparecimento de Anna, para se tornar aos poucos na história de um outro desespero, o das relações não satisfatórias de Sandro e Claudia, numa atmosfera que é a de morte anunciada (a morte da relação que parece começar logo torta), em que ambos embarcam, como numa fuga para a frente, em que nenhum dos dois acredita verdadeiramente.

Essa é também uma crítica da sociedade do pós-guerra, ultrapassadas as dificuldades financeiras, numa Itália ainda em ruínas (e aqui pontifica de novo a arquitectura), onde a opulência material resulta numa ausência de valores, e numa decadência moral, como exemplificado no ócio dos amigos do casal, e na personagem da prostituta Gloria Perkins (Dorothy De Poliolo) tomada, e idolatrada como estrela internacional, só porque isso ajuda a vender uma imagem. Da história às personagens, tudo nos faz pensar em superficialidade e uma ausência de sentimentos profundos (Note-se como, para além de Sandro e Claudia, todos parecem ter imediatamente esquecido que Anna existiu).

Como o seu modo solto, e uma narrativa não conclusiva, “A Aventura” acaba por ecoar aquilo que estava a acontecer em França, com a «Nouvelle Vague», onde Truffaut e Goddard tinha dado exemplos desse mesmo cinema onde a causa-efeito clássicas não predominam, e o modo de filmar se preocupa mais com sentimentos interiores. Por essa razão, o filme de Antonioni tem sido apontado como um exemplo de um novo cinema, e frequentemente nomeado como um dos mais importantes filmes da história do cinema.

Para além do triunfo em Cannes, “A Aventura” recebeu ainda o British Film Institute Sutherland Trophy, o Globo de Ouro de Melhor Actriz (Vitti) e o prémio de Melhor Banda Sonora do Italian National Syndicate of Film Journalists. Tal não impediu que o filme fosse censurado nalguns países, pela imoralidade das personagens. Alheio a isso, Antonioni encontrava a sua voz, e a Europa um novo modelo de cinema.

Gabriele Ferzetti e Monica Vitti em "A Aventura" (L’Avventura, 1960), de Michelangelo Antonioni

Produção:

Título original: L’Avventura; Produção: Cino del Duca / Produzioni Cinematografiche Europee (P.C.E.) / Societé Cinématographique Lyre; País: Itália / França; Ano: 1960; Duração: 143 minutos; Distribuição: Cino del Duca (Itália), Athos Films (França), Janus Films (EUA); Estreia: 15 de Maio de 1960 (Cannes Film Festival, França), 29 de Setembro de 1960 (Itália), 16 de Outubro de 1969 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Michelangelo Antonioni; Produção: Amato Pennasilico; Argumento: Michelangelo Antonioni, Elio Bartolini, Tonino Guerra; História: Michelangelo Antonioni; Música: Giovanni Fusco; Fotografia: Aldo Scavarda [preto e branco]; Montagem: Eraldo Da Roma; Design de Produção: Piero Poletto; Figurinos: Adriana Berselli; Caracterização: Ultimo Peruzzi; Direcção de Produção: Luciano Perugia.

Elenco:

Gabriele Ferzetti (Sandro), Monica Vitti (Claudia), Lea Massari (Anna), Dominique Blanchar (Giulia), Renzo Ricci (Pai de Anna), James Addams (Corrado), Dorothy De Poliolo (Gloria Perkins), Lelio Luttazzi (Raimondo), Giovanni Petrucci (Príncipe Goffredo), Esmeralda Ruspoli (Patrizia), Enrico Bologna, Franco Cimino, Giovanni Danesi, Rita Molè, Renato Pinciroli (Zuria, Jornalista), Angela Tommasi Di Lampedusa (A Princesa), Vincenzo Tranchina, Jack O’Connell (Velho na Ilha), Prof. Cucco (Ettore), Isa Bellini (Dobragem de voz de Dominique Blanchar) [não creditada].