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Me and the ColonelEm 1940, Paris está sob iminência da chegada das tropas alemãs. Tal leva o judeu polaco S. L. Jacobowsky (Danny Kaye) a precisar de fugir, encontrando-se sem transporte. Na sua pensão está hospedado o coronel polaco Tadaeusz Prokoszny (Curd Jürgens), que precisa levar documentos secretos para Londres. Jacobowsky tem então uma ideia, com a autoridade do coronel e o seu próprio engenho conseguirão um carro e combustível que os tire de Paris. Só que o coronel é demasiado orgulhoso para seguir um civil, sobretudo um judeu. Os dois vão ter de conviver e concordar ir primeiro buscar Suzanne (Nicole Maurey) a esposa do coronel, cuja presença acrescentará mais conflito ao grupo.

Análise:

Em 1958, então numa produção do independente William Goetz, Danny Kaye voltava a fugir ao domínio da comédia musical mais histriónica, para se lançar na comédia dramática de menor orçamento (e de novo a preto e branco) “Jacobowsky e o Colonel”. Realizado por Peter Glenville, o filme era a adaptação ao cinema da peça de teatro “Jacobowsky und der Oberst”, do austro-boémio Franz Werfel, que estreou na Suíça no início da década de 1940 (durante a Segunda Guerra Mundial, que retrata), e chegou à Broadway em 1945, com encenação de S. N. Behrman. Com argumento de S. N. Behrman e George Froeschel, “Jacobowsky e o Colonel ” é a oportunidade para Kaye se expressar num registo diferente onde, não obstante o tom ligeiro e bem disposto que atravessa todo o filme, se sente o peso do dramatismo iminente e o carácter trágico do protagonista.

E este protagonista é S. L. Jacobowsky (Danny Kaye), um judeu polaco que vive em Paris, de onde vai ter de fugir, agora que os alemães avançam sobre a França, e depois de já ter tido que deixar vários países devido à expansão nazi. Na pensão onde se encontra albergado, Jacobowsky conhece o coronel Prokoszny (Curd Jürgens), orgulhoso militar da nobreza polaca, e que despreza Jacobowsky e o seu povo. Se Jacobowsky precisa de fugir para escapar ao holocausto (nunca mencionado, mas sugerido no filme), Prokoszny precisa faze-lo por razões políticas, levando documentos secretos para entregar em Londres. Onde o coronel é autoritário e obstinado, Jacobowsky vai-se mostrar diplomata e engenhoso, conseguindo gasolina e um carro que os retire de Paris, acompanhados pelo soldado Szabuniewicz (Akim Tamiroff). Mas primeiro há que fazer uma paragem para resgatar a bela francesa Suzanne Roualet (Nicole Maurey), esposa do coronel. Com vários recontros com os alemães, e outras tantas fugas engenhosas orquestradas por Jacobowsky, a sua reputação sobe no grupo, o que apenas enfurece ainda mais o coronel que chega a desafiá-lo para um duelo, por ciúmes de Nicole. Dado o clima do grupo, Jacobowsky opta por seguir a pé, acabando preso dos alemães, que o tentam forçar a confessar onde vai o coronel embarcar. Perante a recusa deste, é montada vigia, e quando Jacobowsky pensa que o espera a morte, o coronel, chega para o salvar.

Descrito como alguém que desistiu da ideia de ser amado, bastando-lhe cultivar o espírito como consolação, a história de Jacobowsky é várias vezes trágica. É-o pela sua aceite condição de homem solitário, é-o pela constante fuga, como judeu, é-o finalmente por estar num grupo onde é sempre mal visto, apaixonando-se por aquela que sabe nunca poder ser sua. O mais surpreendente é que tal papel tenha sido entregue a um actor cómico, mas Danny Kaye veste-o com elegância, compondo um personagem que sabe mostrar um optimista bom humor (expresso na sua frase habitual «há sempre duas soluções para cada problema»), com uma seriedade sincera e uma perene tristeza no olhar. Tal compõe um contraste eficaz com o teimoso coronel de Curd Jürgens, o qual, dos dois, é o mais espalhafatoso, dadas as suas cóleras e fugas para a bebida. À pragmática luta pela sobrevivência do primeiro, o segundo contrapõe um sentido de honra a toda a prova, que o faz (como dirá Jacobowsky a certa altura) «uma das mais brilhantes mentes do século XII». Mas mesmo os momentos mais burlescos (como o duelo no castelo) são armas que apelam à tal tragédia interior, e onde a pesonagem feminina serve como o espelho onde diferenças, sonhos e anseios se revelam.

Escrito por alguém que conheceu os horrores da guerra, e estreado inicialmente num país que lhe ficou imune (a Suíça), depois de chegar aos Estados Unidos, a peça (e o filme) tenta manter-se à margem dos temas mais complexos e facilmente manipuláveis sentimentalmente (a destruição, a maldade nazi, o holocausto), referindo-os com a tal tristeza séria, apenas num piscar de olhos a quem sabe do que se trata, sem o abordar directamente. Por isso, “Jacobowsky e o Colonel” vê o seu tom bem disposto provir das reacções dos acompanhantes de Jacowbsky, que aprendem a admirá-lo silenciosamente, e a respeitar divertidos, sabendo nós que a atmosfera é de drama, que só não é mais pesado porque o próprio Jacobowsky tenta fazer-nos esquecê-lo, apesar do seu olhar triste.

Por todas estas ambiguidades e riquezas da interpretação de Kaye, o filme toca, faz sorrir, e ao mesmo tempo lembra-nos do tanto que está em jogo, num tom de comédia ligeira, ou de drama ligeiro, se assim o preferirmos definir, enquanto nos mostra o quanto o humor é necessário mesmo nos momentos mais tristes, e quando vem de um peito que por dentro sangra. E quase sem se dar por isso, “Jacobowsky e o Colonel” aborda os temas do preconceito racial, dos orgulhos ancestrais e das tradições sem sentido perante os valores mais altos que vão transformando o mundo.

Pela sua surpreendente interpretação, Danny Kaye venceria o Globo de Ouro de Melhor Actor, enquanto a Writers Guild of America premiava o filme como Melhor Argumento no campo da comédia. O filme originaria o musical da Broadway “The Grand Tour”, estreada em 1979.

Curd Jürgens, Danny Kaye e Akim Tamiroff em "Jacobowsky e o Colonel" (Me and the Colonel, 1958), de Peter Glenville

Produção:

Título original: Me and the Colonel; Produção: William Goetz Productions; País: EUA; Ano: 1958; Duração: 105 minutos; Distribuição: Columbia Pictures; Estreia: 26 de Agosto de 1958 (EUA).

Equipa técnica:

Realização: Peter Glenville; Produção: William Goetz; Argumento: S. N. Behrman, George Froeschel [a partir da peça “Jacobowsky und der Oberst” de Franz Werfel]; Música: George Duning; Fotografia: Burnett Guffey [preto e branco]; Montagem: William A. Lyon, Charles Nelson; Direcção Artística: Georges Wakhévitch, Walter Holscher; Cenários: William Kiernan; Figurinos: ; Caracterização: Clay Campbell.

Elenco:

Danny Kaye (S. L. Jacobowsky), Curd Jürgens (Coronel Tadaeusz Boleslav Conde de Prokoszny), Nicole Maurey (Suzanne Roualet), Françoise Rosay (Madame Bouffier), Akim Tamiroff (Szabuniewicz), Martita Hunt (Madre Superiora), Alexander Scourby (Major Von Bergen), Liliane Montevecchi (Cosette), Ludwig Stössel (Dr. Szicki), Gérard Buhr (Capitão Alemão), Franz Roehn (Monsieur Girardin), Celia Lovsky (Mme. Arle), Clément Harari (Agente da Gestapo), Alain Bouvette (Motorista dos Rothschild), Albert Godderis (Monsieur Gravat), Karen Lenay (Denise), Eugene Borden (Pierre Michel), Maurice Marsac (Tenente Francês).

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