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Juste la fin du mondeLouis (Gaspard Ulliel) é um jovem dramaturgo a lidar com uma doença terminal, tendo decidido suicidar-se. Antes de o fazer, viaja para a família que deixou para trás há doze anos, sem lhes dizer o motivo da visita. A sua chegada gera reacções díspares, desde os excessod da mãe (Nathalie Baye), que o recebe como filho pródigo, à raiva do irmão Antoine (Vincent Cassel), que se sente abandonado, e preterido pela mãe, passando pela irmã Suzanne (Léa Seydoux), ressentida e entusiasmada, entre os os excessos da mãe e os abusos de Antoine, e pela Catherine cunhada (Marion Cotillard), tímida, silenciosa, mas observadora da dor interior de Louis.

 
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Análise:

Já como autor consagrado, Xavier Dolan estreou o seu sexto filme em Cannes para uma audiência que, desta vez, o achou aquém das expectativas. Talvez o problema fossem mesmo essas expectativas, depois de uma sequência de filmes aclamados trazer Dolan a um ponto onde o ohar da crítica se tornou mais acutilante. Não ajuda o facto de o seu novo filme “Tão Só o Fim do Mundo” contar com um elenco de luxo, e uma equipa de produção (e financiamento) alargada, cujo orçamento incluiu, por exemplo, a contratação do célebre compositor Gabriel Yared.

Fiel a si próprio, Dolan não alterou os seus métodos ou ideias, voltando a filmar uma história de pessoas normais, na claustrofobia caseira e familiar. Desta vez a novidade era que não partia de um texto seu, mas de uma peça de teatro, de Jean-Luc Lagarce. Nela podem reconhecer-se pontos de de contacto com a sua obra anterior, nomeadamente com “Tom na Quinta” (Tom à la ferme, 2013), que também lida com a ideia de um regresso à província de um jovem homossexual da grande cidade, que terá de se confrontar com situações familiares tensas, uma mãe possessiva e um irmão ciumento (que no filme de 2013 eram mãe e irmão do amante falecido do protagonista).

“Tão Só o Fim do Mundo” conta-nos a história de Louis (Gaspard Ulliel), que logo nos primeiros instantes nos diz ter uma doença terminal, e que decidiu suicidar-se, mas antes quer ver a família que deixou para trás há doze anos. Gera-se uma espécie da encenação da parábola do filho pródigo, com a mãe (Nathalie Baye) a tentar todos os exageros para fazer Louis sentir-se bem-vindo, o irmão Antoine (Vincent Cassel), ressentido pelo abandono, a ser incapaz de esconder o ciúme pelo «filho preferido», e a irmã Suzanne (Léa Seydoux), ao mesmo tempo magoada e entusiasmada, condenando os excessos da mãe e sofrendo os abusos de Antoine. Com eles está ainda a cunhada Catherine (Marion Cotillard), introvertida, cautelosa, mas observadora o suficiente para estabelecer uma ligação silenciosa com um Louis nostálgico, em desconforto e dor.

Há, certamente, algo de autobiográfico em “Tão Só o Fim do Mundo”, quanto mais não seja porque Jean-Luc Lagarce morreu vitimado pela SIDA em 1995, doença do seu protagonista na peça (o qual é também dramaturgo), e que, hoje menos fatal, nunca é nomeada no filme. Com um elenco de estrelas do cinema francófono actual (Vincent Cassel, Léa Seydoux, Marion Cotillard, Gaspard Ulliel e Nathalie Baye), o filme segue as pisadas da obra de Tennessee Williams, com uma família disfuncional no seu centro, e como na peça em que se baseia, vive dos espaços fechados de uma casa, e dinâmicas tensas de um grupo conciso de protagonistas que sabemos em conflito ainda antes de os vermos, antevendo a sombra da tragédia que nos chega desde a primeira frase como um rumo para uma desgraça anunciada, profunda e dolorosa.

Nesse terreno, Dolan exercita a sua linguagem temática, o personagem homossexual (que aqui surge sem que isso contribua para a história), a violência interna das personagens, o peso da figura materna, o conflito amor/ódio com a família, o confronto cidade/província como espaços onde a vida acelera e desacelera e trazem (ou retiram) tempo para pensar, reavaliar e analisar uma vida.

Filmado com uma elegância exemplar (nos movimentos de câmara, na busca dos rostos, na atenção subtil aos detalhes periféricos), e intercalado com curtos flashbacks que servem como momentos de respiração que não diminuem a unidade da obra, “Tão Só o Fim do Mundo” faz-nos sentir intrusos numa família que se torna quase nossa, e que, como tal, quase sem explicação, nos incomoda e prende. Os diálogos (por vezes quase monólogos) são sempre fulminantes, ou não fosse o filme servido por um elenco impressionante. Numa lição de Dolan no saber para onde nos guiar a atenção, nenhum gesto, palavra ou olhar se perdem, da violência de Cassel, uma espécie de Caim para o bem-amado e inseguro Abel de Ulliel, à timidez imponente de Cottilard, sem esquecer a energia nervosa de Seydoux ou os tiques da mãe Nathalie Baye, personagem que parece saída de uma peça de Tennessee Williams, todos os actores brilham, num filme que, apesar do tema já visto, não deixa de impressionar.

Tendo como exemplo o citado Tennessee Williams, já tantas vezes adaptado ao cinema, e o recente “Um Quente Agosto” (August: Osage County, 2013), de John Wells, baseado numa peça de Tracy Lets, e protagonizado por Meryl Streep, pode-se criticar Dolan por, ao seguir tantas referências, os seus personagens se tornarem mais personagens-tipo que as habituais figuras de uma idiossincrasia muito original que os torna habitualmente crus e únicos. É como se, por uma vez, Dolan se tivesse vergado ao material e aos actores, deixando menos de si no filme do que fizera nos anteriores.

Tal não evitou que “Tão Só o Fim do Mundo” fosse saudado em Cannes, onde recebeu o Grande Prémio do Júri. O filme recebeu ainda três prémios Cesar da indústria francesa incluindo o de Melhor Realizador.

Texto adaptado da crítica escrita para a Take Cinema Magazine a 20 de Outubro de 2016.

(no sentido dos ponteiros do relógio) Marion Cotillard, Vincent Cassel, Gaspard Ulliel, Léa Seydoux e Nathalie Baye em "Tão Só o Fim do Mundo" (Juste la fin du monde, 2016), de Xavier Dolan

Produção:

Título original: Juste la fin du monde; Produção: Sons of Manual / MK2 Productions / France 2 Cinéma / 120 Films / Canal+ / Centre National du Cinéma et de l’Image Animée / Ciné + / Fonds Quebecor / France Télévisions / Le Fonds Harold Greenberg / Ministère de la Culture et de la Communication / My Unity Production / Radio Canada / Société de Développement des Entreprises Culturelles (SODEC) / Super Écran / Téléfilm; Produtor Executivo: Patrick Roy; País: Canadá / França; Ano: 2016; Duração: 95 minutos; Distribuição: Entertainment One (Canadá), Les Films Séville (Canadá), Diaphana Films (França); Estreia: 19 de Maio de 2016 (Festival de Cannes, França), 21 de Setembro de 2016 (Canadá, Bélgica, França), 27 de Outubro de 2016 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Xavier Dolan; Produção: Sylvain Corbeil, Xavier Dolan, Nancy Grant, Elisha Karmitz, Nathanaël Karmitz, Michel Merkt, Vincent Cassel [não creditado]; Argumento: Xavier Dolan [a partir de uma peça de Jean-Luc Lagarce]; Música: Gabriel Yared; Fotografia: André Turpin [fotografia digital]; Montagem: Xavier Dolan; Design de Produção: Colombe Raby; Cenários: Pascale Deschênes, Jean-Charles Claveau; Figurinos: Xavier Dolan; Caracterização: Maïna Militza, Audrey Bitton; Efeitos Especiais: Dana Campbell; Efeitos Visuais: Jean-François Ferland (Alchemy24); Direcção de Produção: Germain Petitclerc.

Elenco:

Nathalie Baye (A Mãe), Vincent Cassel (Antoine), Marion Cotillard (Catherine), Léa Seydoux (Suzanne), Gaspard Ulliel (Louis), Antoine Desrochers (Pierre Jolicoeur), William Boyce Blanchette (Louis (15 anos)), Sasha Samar (Taxista), Arthur Couillard (Criança no Avião), Emile Rondeau (Louis (5-6 anos)), Théodore Pellerin (Antoine (16-22 anos)), Jenyane Provencher (Rapariga no Trampolim).

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