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Giulietta degli spiriti Giulietta (Giulietta Masina) é uma mulher rica, que vive numa bonita casa junto à praia, servida por duas empregadas, mas com um marido (Mario Pisu) que não a corresponde romanticamente. Com uma família que a menospreza, Giulietta procura conforto espiritual em visitas a gurus, sessões de espiritismo, e aquilo para que a amiga Valentina (Valentina Cortese) a arraste. Ao descobrir que o marido a trai, e após conselhos de que deve deixar o sexo ganhar mais importância na sua vida, Giulietta vai procurar a companhia da vizinha Suzy (Sandra Milo), uma bela libertina, tão admirada quanto invejada nas redondezas, enquanto luta com visões do seu passado, sonhos aflitivos, e todo o conjunto de referências que põem as suas escolhas em cheque.

Análise:

A primeira longa-metragem a cores de Federico Fellini pode ser vista como uma espécie de continuação dos seu anteriores “A Doce Vida” (La Dolce Vita, 1960) e “Fellini 8½” (8½, 1963). Desta vez com Giulietta Masina como protagonista, “Julieta dos Espíritos” volta, como “Fellini 8½”, a olhar para o interior subjectivo de uma personagem, para nos trazer uma história onde a linearidade, as relações causa-efeito e a lógica mais racional estão ausentes. Em vez delas volta a atmosfera de sonho, de episódios descorrelacionados, onde o elemento comum são as preocupações interiores da protagonista. E repetindo a estrutura de “A Doce Vida” (La Dolce Vita, 1960), o filme passa por uma série de episódios, nos quais a protagonista é confrontada com situações e personagens, que dispensam linearidade.

Escrito por Fellini e os seus habituais parceiros, “Julieta dos Espíritos” fala-nos de Giulietta (Giulietta Masina), uma mulher casada com Giorgio (Mario Pisu), um homem que não lhe corresponde no romantismo, mas a quem nada de material lhe falta, numa vida protegida, e quase sem estímulos ou interesses. Estes provêm, habitualmente, das futilidades das pessoas da alta sociedade com quem Giulietta convive, como a amiga Valentina (Valentina Cortese), que a arrasta para consultar gurus esotéricos ou para sessões de espiritismo. É numa delas que Giulietta entra em contacto com o espírito Iris (voz de Sandra Milo). Pelo meio, Giulietta vê a repreensão e superioridade nos olhos da mãe (Caterina Boratto) e irmãs Sylva (Sylva Koscina) e Adele (Luisa Della Noce), descobre a infidelidade do marido com uma modelo, e conhece a vizinha Suzy (novamente Sandra Milo), desinibida sexualmente, e que tenta acordar Giulietta para uma maior auto-confiança.

Os episódios podem ser descritos assim: Aniversário e festa com sessão espírita; Ida à praia e sonhos; Chegada das irmãs e mãe; Giorgio que fala de Gabriella no sono; Visita com Valentina ao homem santo; História da bailarina que fugiu com o avô; Jantar com José e telefonema de Giorgio à amante; Ida ao detective com Adele; Conversa com a escultora; Memória de Giulietta criança no teatro das freiras; Visita a Suzy; Informação dos detectives; Nova visita a Suzy e tentativa de adultério; Nova festa com sessão psicodramática; Visita a casa de Gabriella; Confronto com Giorgio, e devaneio final. Neles Giulietta vai ganhando consciência de si e da sua realidade, seja nos exemplos da vida fútil das irmãs, nas buscas infrutíferas de espiritualidade com Valentina, nas conversas com amigos, e do despertar da liberdade trazido por Suzy, em confronto com a descoberta da infidelidade do marido.

Destacam-se as duas sessões em sua casa (uma espírita, outra psicodramática), a visita a um homem santo, a conversa com a escultora que lhe fala de Deus como um objecto físico, feito de beleza, as conversas com o advogado que vai aconselhando racionalidade. Temos também o ponto de vista interior de Giulietta, nos seus sonhos, de cariz religioso (a arca que vem por mar, o seu martírio e culpa no teatro das freiras), e todo um clima de festa, como um carrossel de personagens e situações que desfilam se se fazer anunciar perante os olhos (e a mente) de Giulietta, e que são, afinal, os espíritos que a atormentam.

Tudo isto Fellini envolve numa mise-en-scène fenomenal (quase sempre em interiores), de cenários estilizados, por vezes minimalistas, mas numa explosão de cor, e passagem irreal entre espaços labirínticos, onde não faltam desfiles bizarros, teatros feéricos, e até uma subida a árvores e uma cama com escorrega para uma piscina. Não falta a música de Nino Rota, ora circense, ora mais discreta, mas sempre acompanhando cada momento, como um fio condutor mais forte que a narrativa. Todos os motivos, personagens, cores, formas têm algo de simbólico, repetindo-se, voltando como num sonho atormentado, como acontece na sequência final, em que muito do que nos fora apresentado assalta Giulietta no momento da sua decisão mais importante.

Com uma interpretação de Giulietta Masina que compõe uma personagem discreta, quase sempre triste, ainda que aparentando um sorriso diplomático, que ainda torna essa tristeza e solidão interiores mais pungentes, todo o filme é um caleidoscópio de imagens e emoções, a que não será alheio o facto de Fellini (nas palavras do próprio) ter estado sob efeito de LSD durante parte da sua preparação. Nem tudo terá sido pacífico na relação entre Fellini e a esposa, que nem na interpretação do final concordaram, com ele a dizer que representava a o assumir da liberdade de Giulietta, e ela a preferir interpretá-lo como uma descida na solidão. Podemos deixar aqui a pergunta, não serão ambas as interpretações válidas com liberdade e solidão podendo ser duas faces da mesma moeda?

“Julieta dos Espíritos” valeu a Fellini o Globo de Ouro de Melhor Filme de Língua Estrangeira, e a Giulietta Masina o David di Donatello de Melhor Actriz.

Sandra Milo e Giulietta Masina em "Julieta dos Espíritos" (Giulietta degli spiriti, 1965), de Federico Fellini

Produção:

Título original: Giulietta degli spiriti; Produção: Rizzoli Film / Francoriz Production; Produtor Executivo: Angelo Rizzoli; País: Itália / França; Ano: 1965; Duração: 131 minutos; Distribuição: Cineriz (Itália), Rizzoli (EUA), Inter France Distribution (IFD) (França); Estreia: 16 de Outubro de 1965 (OCIC Film Festival, Itália), 20 de Outubro de 1965 (França), (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Federico Fellini; Produção: Henry Deutschmeister [não creditado], Clemente Fracassi [não creditado], Angelo Rizzoli [não creditado]; Argumento: Federico Fellini, Tullio Pinelli, Ennio Flaiano, Brunello Rondi; História: Federico Fellini, Tullio Pinelli; Música: Nino Rota; Direcção Musical: Carlo Savina; Fotografia: Gianni Di Venanzo [cor por Technicolor]; Montagem: Ruggero Mastroianni; Design de Produção: Giantito Burchiellaro, Luciano Ricceri, E. Benazzi Taglietti; Direcção Artística: Piero Gherardi; Cenários: Vito Anzalone; Figurinos: Bri-Nylon, Piero Gherardi; Caracterização: Otello Fava, Eligio Trani; Direcção de Produção: Mario Basili, Alessandro von Norman.

Elenco:

Giulietta Masina (Giulietta Boldrini), Sandra Milo (Suzy / Iris / Fanny), Mario Pisu (Giorgio, Marido de Giulietta), Valentina Cortese (Valentina), Valeska Gert (Pijma), José Luis de Vilallonga (Amigo de Giorgio), Friedrich von Ledebur (Medium), Caterina Boratto (Mãe de Giulietta), Lou Gilbert (Avô), Luisa Della Noce (Adele), Silvana Jachino (Dolores), Milena Vukotic (Elisabetta, a Criada), Fred Williams (Empresário de Lynx-Eyes), Dany París (Amigo Desesperado), Anne Francine (Psicodramatista), Sylva Koscina (Sylva), Elena Fondra (Elena), George Ardisson (Modelo de Dolores), Genius (Amante de Valentina), Elisabetta Gray (Teresina, A Empregada mais baixa), Alberto Plebani (Lynx-Eyes), Yvonne Casadei (Criada de Susy), Mario Conocchia (Advogado), Federico Valli (Empresário de Lynx-Eyes), Asoka Rubener (Ajudante de Bhisma), Alba Cancellieri (Giulietta criança), Sujata Rubener (Ajudante de Bhisma), Alberto Cevenini, Cesarino Miceli Picardi (Amigo de Giorgio), Riccardo Cucciolla (dobragem de voz de José Luis de Villalonga [não creditado].

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