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MommyDiane ‘Die’ Després (Anne Dorval) é uma mãe, viúva há três anos, que luta com as armas que tem para ir mantendo empregos, mesmo que isso lhe valha o olhar desconfiado dos vizinhos. O seu filho Steve (Antoine-Olivier Pilon) está numa instituição de educação para jovens problemáticos, devido à sua instável condição mental. Quando este provoca um incêndio, a instituição chama Die para lhe aconselhar o internamento de Steve, mas esta recusa, e decide educé-lo em casa. Só que Steve é dado a grandes mudanças de humor, comportamentos instáveis e violentos, que levam Die a temer por si própria. Isto até a chegada da tímida mas doce vizinha Kyla (Suzanne Clément) vem trazer algum equilíbrio e esperança a Die e Steve.

 
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Análise:

“Mamã”, o quinto filme de Xavier Dolan, filmado quando o autor tinha apenas 25 anos, foi um regresso à temática das relações mãe-filho, deixando de lado, por uma vez, os assuntos relacionados com a sexualidade. Isto não é novidade, se tivermos em conta o seu filme de estreia “Como Matei a Minha Mãe” (J’ai tué ma mère, 2009), e as presenças pesadas da figura materna em “Laurence para Sempre” (Laurence Anyways 2012) e “Tom na Quinta” (Tom à la ferme, 2013), onde o pai está sempre ausente, ou pelo menos suficientemente afastado para não contar. Segundo Dolan, a história (que mais uma vez, também escreveu), foi inspirada na sua relação com a sua mãe, e na experiência de filmar o videoclip musical “College Boy” para a banda Indochine, no qual trabalhou com Antoine-Olivier Pilon. Outra inspiração foi o tema “Experience” de Ludovico Einaudi, que lhe sugeriu a sequência em que a mãe do seu filme sonha com um futuro brilhante para o filho, e através de cuja desconstrução Dolan escreveu o resto do filme.

A história de “Mamã” começa quando, Diane ‘Die’ Després (Anne Dorval) é chamada (provavelmente pela enésima vez) ao Centro de Correcção onde se encontra o seu filho Steve (Antoine-Olivier Pilon), por este ter provocado um incêndio que deixou um dos colegas com queimaduras, no hospital. É-lhe sugerido que use a nova (fictícia) lei S-14, que permite que um progenitor mande internar um filho sem decisão judicial, mas Die não quer sequer ouvir falar nisso, e decide responsabilizar-se ela própria pela educação do filho. Cedo Die, viúva há três anos, e sem estabilidade financeira, se apercebe da dificuldade. Steve é rebelde, dado a ataques de violência, insolente para com todos, não respeita regras, sendo capaz de roubar, insultar ou agredir, sem nenhuma dificuldade. A vida em casa torna-se uma guerra constante, com Die a tentar insuflar alguns limites em Steve, o qual passa repentinamente de estados de alegria e doçura para estados de violência que a chegam a fazer temer pla sua integridade física. Com dificuldades em conseguir um emprego, Die vê na chegada da vizinha Kyla (Suzanne Clément) um alívio. Esta interessa-se pelo par, e mesmo chocando inicialmente com Steve, vai ganhar a sua confiança, e sentir alguma empatia com o caos reinante na casa dos Després. Mas depois de chegar a intimação do tribunal pelos danos causados por Steve, e com este, por ciúmes, a sabotar todas as hipóteses de Die recrutar para o seu lado o advogado e vizinho Paul (Patrick Huard), ela não vê alternativa senão finalmente activar a lei S-14, e entregar o filho às autoridades clínicas competentes.

Novamente procurando um tema difícil, e ainda que tenha confessado não ter relações próximas com pessoas que sofram da condição clínica do seu personagem Steve (Transtorno de Défice de Atenção e Hiperactividade, associado a crises de violência, provavelmente por carências afectivas), Xavier Dolan, constrói em “Mamã” um drama tenso e imprevisível, onde a força das interpretações é o maior trunfo. Com a sua já conhecida Suzanne Clément (intérprete premiada de “Laurence para Sempre”), Dolan tem agora uma incrivelmente convincente Anne Dorval e o surpreendente Antoine-Olivier Pilon (então apenas com 17 anos), que nos dão personagens que, como habitualmente em Dolan, são realistas, conseguindo ser únicos, diferentes do que quer que tenhamos visto, estabelecendo relações e dinâmicas, também elas originais e inesquecíveis.

Filmando agora de um modo mais fechado e claustrofóbico, longe da grandiosidade dos dois filmes anteriores, Dolan optou pela estranha decisão de usar o formato 1:1, num ecrã quadrado, fechado, que segundo o autor, pretende mostrar a pequenez dos gestos, espaços e situações, onde os personagens são sempre seguidos com handycam. Esse formato é apenas quebrado, na sequência (com a música de Einaudi) em que Die imagina um futuro bem-sucedido para o seu filho, para logo se voltar a fechar quando voltamos à fria realidade de Steve.

Feito de confrontos, tentativas e erros, momentos tensos, alguma violência, uma linguagem dura, e desenvolvimentos desconcertantes, “Mamã” é fiel ao espírito da filmografia de Xavier Dolan, de histórias difíceis, personagens imperfeitos, e resoluções amargamente em aberto. Tudo isto sempre servido por grandes interpretações de um elenco, que nos faz sentir próximos da acção, sem nunca se cair no sentimentalismo óbvio. Curioso é que, se no filme de estreia, Dolan optara pela perspectiva do filho (afinal a sua), agora, mais distante e maduro, mostra-nos a da mãe, onde parecem residir as suas simpatias.

O filme foi bem recebido, tanto pela crítica como pelo público, tornando-se o mais rentável filme de Dolan até então. Estreado em Cannes, venceria o Prémio do Juri, a que juntaria nove prémios da indústria canadiana (entre eles o de Melhor Filme, Melhor Realizador e de Melhores Actores para o trio de protagonistas), e o César para Melhor Filme Estrangeiro.

Produção:

Título original: Mommy; Produção: Les Films Séville / Metafilms / Sons of Manual / Téléfilm Canada / Société de Développement des Entreprises Culturelles (SODEC) / Quebec Film and Television Tax Credit / Canadian Film or Video Production Tax Credit (CPTC) / Radio Canada / Super Écran / ARTV; País: Canadá; Ano: 2014; Duração: 133 minutos; Distribuição: Entertainment One (Canadá), Les Films Séville (Canadá), MK2 Diffusion (França), Diaphana Films (França); Estreia: 22 de Maio de 2014 (Festival de Cannes, França), 19 de Setembro de 2014 (Canadá), 18 de Dezembro de 2014 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Xavier Dolan; Produção: Nancy Grant, Xavier Dolan; Produtores Associados: Sylvain Corbeil, Lyse Lafontaine; Argumento: Xavier Dolan; Música: Noia; Fotografia: André Turpin [fotografia digital]; Montagem: Xavier Dolan; Design de Produção: Colombe Raby; Cenários: Pascale Deschênes, Jean-Charles Claveau; Figurinos: Xavier Dolan; Caracterização: Maïna Militza, Erik Gosselin; Efeitos Visuais: Jean-François Ferland (Alchemy24); Direcção de Produção: Carole Mondello, Germain Petitclerc.

Elenco:

Anne Dorval (Diane ‘Die’ Després), Suzanne Clément (Kyla), Antoine-Olivier Pilon (Steve O’Connor Després), Patrick Huard (Paul), Alexandre Goyette (Patrick), Michèle Lituac (Directora da Escola de Correcção), Viviane Pascal (Marthe), Natalie Hamel-Roy (Natacha), Isabelle Nélisse (Filha de Kyla), Ted Pluviose (Taxista), Pierre-Yves Cardinal (Segurança do Hospital), Reda Guerinik (Segurança do Hospital), Justin Laramée (Segurança do Hospital), Sabrina Bisson (DJ Karaoke).

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