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A Song Is BornQuando Honey Swanson (Virginia Mayo), cantora de jazz e namorada do gangster Tony Crow (Steve Cochran), procura desaparecer de circulação, para escapar aos olhares da polícia, que a quer como testemunha nos crimes de Crow, acaba numa biblioteca onde o professor Hobart Frisbee (Danny Kaye) e a sua equipa de musicólogos trabalham numa enciclopédia de música universal. Mas logo a presença de Honey se vai revelar uma distracção, não só por trazer a novidade dos ritmos da música moderna que os eruditos ainda não conhecem, como por fazer com que Frisbee se apaixone por ela.

Análise:

No seu quinto filme consecutivo para Samuel Goldwyn (quarto contracenando com Virginia Mayo), este filmado a partir de um conto de James Thurber (o qual, segundo consta propos-se a pagar para o filme não ser feito), Danny Kaye deixou a comédia mais física e burlesca, numa história escrita por Billy Wilder e Thomas Monroe, e realizada pelo mais ecléctico dos realizadores da era clássica de Hollywood, Howard Hawks, que assim fazia um remake do seu próprio filme “Bola de Fogo” (Ball of Fire, 1941), protagonizado por Gary Cooper e Barbara Stanwyck.

Com provas dadas, da comédia ligeira à screwball comedy (para não falar em obras primas em quase todos os géneros do cinema norte-americano), Hawks usou desta vez a música como base para a sua narrativa, contando para isso, em papéis de destaque, com nomes grandes da cena jazz do seu tempo, como Benny Goodman (o qual tem mesmo um dos papéis principais), Tommy Dorsey, Louis Armstrong, Lionel Hampton, Charlie Barnet e Mel Powell.

Tudo isto na história de um conjunto de musicólogos, liderados pelo professor Hobart Frisbee (Danny Kaye), fechados há anos numa biblioteca, onde tentam conseguir escrever e gravar uma enciclopédia da música universal. Só que, um dia chega, fugida, a bela Honey Swanson (Virginia Mayo), cantora de clubes nocturnos (a voz no canto é dobrada por Jeri Sullavan), namorada do gangster Tony Crow (Steve Cochran), que está a contas com um processo em tribunal, e pede que Honey se mantenha escondida para não ser chamada a testemunhar. Ouvindo a música clássica e étnica que vem da sala de estudo, Honey não resiste a apresentá-los a canções jazz, ao mesmo tempo que dois lavadores de janelas (Buck and Bubbles) lhes vão trazendo novos ritmos de jazz, swing, boogie woogie e rebop. O resultado são improvisações da banda dos professores, que alargam o espectro musical da obra a escrever. Pelo meio Frisbee apaixona-se por Honey, que não o percebe até ser demasiado tarde, e este a pedir em casamento. Crow vê nessa ideia um pretexto para os professores levarem Honey até ele sem levantar suspeita, mas quando o carro em que viajam tem um acidente Crow aparece para levar Honey, mostrando a todos quem é. Só que, Honey, já enamorada de Frisbee recusa-se a ficar com Crow, que para a chantagear toma a biblioteca de assalto. É mais uma vez a música, na forma de reverberações que fazem cair objectos que neutralizam os gorilas de Crow, que salva a situação e une os dois enamorados.

Com a presença de tantos nomes importantes da música, embora estejamos numa comédia romântica protagonizada pelo par Danny Kaye-Virgina Mayo, logo isso parece irrelevante, numa história de resto banal. É a música que conduz o filme, na forma de pequenas discussões que levam à explicação de formas modernas de jazz, logo exemplificadas em sessões de improvisação por uma banda repleta de grandes músicos. São essas jams os momentos mais altos de “O Professor de Música”, e não deixa de ser curioso que será a música, e não atributos físicos, de acção ou de outra argúcia, a decidir a prisão dos gangsters e o final feliz dos protagonistas.

Desta vez Kaye não canta ou dança, devido à sua recente separação de Sylvia Fine, que habitualmente escrevia as suas canções. O comediante optaria mesmo por um papel sério, sem a sua habitual mímica desconcertante, réplicas corrosivas ou os cómicos jogos fonéticos que o caracterizam. A falta de humor que Kaye atravessava na sua vida levou Hawks a detestar o projecto, compensando com uma maior ênfase na componente musical, já que a comédia parecia toldada desde a nascença.

O que resta é um filme que decorre a ritmo lento, onde Hawks tenta dar uma atmosfera clássica pesada, com um desenvolvimento de personagens bastante demorado, como que em fundo para não interferir nas sequências mais fulgurantes, aquelas nas quais a banda toca entusiasticamente. Comparada com isto, a história de gangsters é perfeitamente secundária, quase desaparecendo por longos períodos do filme. Também por essa razão, a história de amor proibido é fraca, não se encontrando aqui a química que Kaye e Mayo tinham mostrado nos filmes anteriores.

Não obstante as dificuldades e debilidades, “O Professor de Música” foi um dos maiores sucessos de 1948, ficando inclusivamente à frente do outro filme de Hawks desse ano, o celebrado western “O Rio Vermelho” (Red River, 1948), com John Wayne e Montgomery Clift. Tal não evitaria, no entanto, que “O Professor de Música” fosse um fracasso financeiro para Samuel Goldwyn. A verdade é que este seria o último filme de Kaye para Goldwyn, rumando em seguida para a major Warner Bros.

Virginia Mayo, Danny Kaye e o elenco de "O Professor de Música" (A Song Is Born, 1948), de Howard Hawks

Produção:

Título original: A Song Is Born; Produção: The Samuel Goldwyn Company; País: EUA; Ano: 1948; Duração: 112 minutos; Distribuição: RKO Radio Pictures; Estreia: 19 de Outubro de 1948 (EUA), 13 de Abril de 1950 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Howard Hawks; Produção: Samuel Goldwyn; Produtor Associado: ; Argumento: Harry Tugend [a partir da história “From A to Z” de Billy Wilder e Thomas Monroe]; Direcção Musical: Emil Newman, Hugo Friedhofer; Canção ‘Daddy-O’: Don Raye, Gene De Paul; Orquestração: Sony Burke; Fotografia: Gregg Toland [cor por Technicolor]; Montagem: Daniel Mandell; Design de Produção: ; Direcção Artística: George Jenkins, Perry Ferguson; Cenários: Julia Heron; Figurinos: Irene Sharaff; Caracterização: Robert Stephanoff; Efeitos Especiais: Harry Redmond Jr. [não creditado]; Efeitos Visuais: John P. Fulton; Direcção de Produção: Raoul Pagel [não creditado].

Elenco:

Danny Kaye (Professor Hobart Frisbee), Virginia Mayo (Honey Swanson), Benny Goodman (Professor Magenbruch), Tommy Dorsey (Tommy Dorsey), Louis Armstrong (Louis Armstrong), Lionel Hampton (Lionel Hampton), Charlie Barnet (Charlie Barnet), Mel Powell (Mel Powell), Buck and Bubbles (Lavadores de Janelas), The Page Cavanaugh Trio, Golden Gate Quartette,
Russo And The Samba Kings, Hugh Herbert (Professor Twingle), Steve Cochran (Tony Crow), J. Edward Bromberg (Dr. Elfini), Felix Bressart (Professor Gerkikoff), Ludwig Stössel (Professor Traumer), O.Z. Whitehead (Professor Oddly), Esther Dale (Miss Bragg), Mary Field (Miss Totten), Howland Chamberlain (Mr. Setter), Paul Langton (Joe), Sidney Blackmer (Adams), Ben Welden (Monte), Ben Chasen (Ben), Peter Virgo (Louis), Harry Babasin (Baixo), Louie Bellson (Bateria), Alton Hendrickson (Guitarra).

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