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Tom à la fermeEm luto pela morte, por acidente, do seu namorado Guillaume, Tom (Xavier Dolan) viaja para a terra da famíla daquele, para assistir ao funeral. Aí tem de lidar com Agathe (Lise Roy), a mãe que nada sabe da orientação sexual do filho falecido, e com Francis (Pierre-Yves Cardinal) o violento irmão de Guillaume, que insta Tom a manter a aparência que ele sempre alimentou sobre Guillaume. A aparente homofobia de Francis é uma ameaça constante para Tom, ao mesmo tempo que uma estranha fascinação parece surgir da relação entre os dois, onde violência, fobia e abuso podem ser sinais de atracção e desejo ou apenas de conflito e teste sobre si próprios.

 
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Análise:

Ao seu quarto filme, e depois de ter chamado a atenção da crítica internacional com os seus filmes anteriores, o jovem realizador, produtor e actor Xavier Dolan adaptou uma peça de Michel Marc Bouchard, com quem escreveu o argumento deste “Tom na Quinta”.

A temática é recorrente na obra de Dolan, com a afirmação sexual e os dramas familiares daí decorrentes a tomarem o protagonismo na história de Tom (Dolan), um jovem cujo namorado, Guillaume, morreu num acidente de viação, apenas com 25 anos. É, imerso em dor, que Tom deixa a cidade de Montréal para viajar para a província, para a casa da família de Guillaume, onde quer assistir ao funeral. Só que a Agathe (Lise Roy), a mãe de Guillaume nada sabe da orientação sexual do filho, e Tom tem de manter a versão de ser apenas um amigo, e que Guillaume tinha uma namorada chamada Sarah. Com Agathe vive o seu filho mais velho, Francis (Pierre-Yves Cardinal), que faz questão de lembrar a Tom, tão violentamente quanto lhe apetece, que a mãe não pode ser magoada com a verdade sobre Guillaume. Se a relação é tensa, com Francis a mostrar homofobia e uma má vontade geral para com Tom, por outro lado parece nascer uma estranha fascinação entre ambos, que pode advir simplesmente do perigo que cada um faz o outro sentir. Tal leva a avanços e recuos entre os dois, com Francis a ensinar Tom nas práticas da quinta, ou a confessar a sua atracção pela dança, para de seguida lhe bater, e fazer Tom querer fugir. E se Francis sabota o carro de Tom, para este ser obrigado a ficar, mais tarde Tom declina a oportunidade de fugir, quando a verdadeira Sarah (Evelyne Brochu) chega para o salvar.

Num filme cheio de ambiguidades, desejos reprimidos, sentimentos de culpa e de perda, Xavier Dolan expõe mais um pouco da sua personalidade. Interpretando Tom de uma forma intensa, e ao mesmo tempo discreta, Dolan constrói uma história que se torna quase um thriller dramático onde nunca nos é possível saber o que os personagens farão com os seus sentimentos. Temos por um lado Tom, homossexual em luto pela morte do namorado, sensível e bondoso, e do outro lado Francis, o seu oposto, homofóbico, rude e violento. Mas onde parece que o conflito será total, nascem as tais ambiguidades.

Francis odeia Tom pela sua homossexualidade, ou tem ciúmes dele? Transporta na carteira uma foto do irmão a beijar uma mulher, porque (como diz) não tem outra, ou porque esta simboliza algo que precisa de recordar? Mutilou um antigo namorado de Guillaume por não querer que se soubesse que ele era homossexual, ou, mais uma vez, por ciúme? Ressente-o como o filho pródigo que um dia voltará, ou sente culpa por ter forçado a partir? E Tom, constantemente assustado por Francis, não parte por pena da família, ou porque algo nele o fascina?

A farsa intensifica-se com a chegada de Sarah, a suposta namorada de Guillaume, colocando todos os personagens em desajuste. Todos menos Agathe, que repara que Sarah não reage como quem perdeu quem ama. Em cenas e situações simples (a chegada de Sarah, o confronto com Francis, a conversa a três com Tom, a sequência do baú de recordações), Dolan mostra-nos como uma história se conta com olhares inquietos, gestos nervosos e conflitos surdos.

Com uma câmara nervosa, que espelha o estado de espírito dos personagens, Dolan demora-se nos rostos que quase enchem o ecrã, tal como se espraia na paisagem dos campos circundantes, para logo voltar ao tal nervosismo com que a câmara imita movimentos e percorre os espaços fechados. Aí tudo é claustrofobia, em interpretações intensas, dolorosas e com toda a imperfeição que só o perfeito realismo confere. Com uma constante tensão, e diálogos cortantes, que coexistem com a subtileza dos momentos contemplativos, onde o olhar de Dolan diz mais que mil palavras, “Tom na Quinta” prende, provoca e intriga. Acima de tudo, conta-nos uma história que sentimos real, e completamente palpável.

“Tom na Quinta” valeria a Xavier Dolan o prémio FIPRESCI da imprensa do Festival Internacional de Veneza.

Produção:

Título original: Tom à la ferme; Produção: MK2 Productions / Sons of Manual / Arte France Cinéma / Canal+ France / Ciné +; Produtores Executivos: Xavier Dolan, Nancy Grant; País: França / Canadá; Ano: 2013; Duração: 99 minutos; Estreia: 2 de Setembro de 2013 (Festival de Veneza, Itália), 19 de Junho de 2014 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Xavier Dolan; Produção: Nathanaël Karmitz, Charles Gillibert, Xavier Dolan; Produtor Associado: Lyse Lafontaine; Argumento: Xavier Dolan, Michel Marc Bouchard [a partir de uma peça homónima de Michel Marc Bouchard]; Música: Gabriel Yared; Supervisão Musical: Jean-Pierre Arquié; Orquestração: ; Fotografia: André Turpin; Montagem: Xavier Dolan; Direcção Artística: Colombe Raby; Cenários: Pascale Deschênes; Figurinos: Xavier Dolan; Caracterização: Annick Legout; Efeitos Especiais: Ryal Cosgrove; Efeitos Visuais: Jean-François Ferland (Alchemy24); Direcção de Produção: Carole Mondello.

Elenco:

Xavier Dolan (Tom), Pierre-Yves Cardinal (Francis), Lise Roy (Agathe), Evelyne Brochu (Sarah), Manuel Tadros (Dono do Bar), Jacques Lavallée (Padre), Anne Caron (Médica), Olivier Morin (Paul), Johanne Léveillé (Empregado da Estação de Seviço), Mathieu Roy (Homem na Loja de Conveniência).

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