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Wonder ManBuzzy Bellew (Danny Kaye) é um extrovertido comediante de palco, noivo da dançarina Midge Mallon (Vera-Ellen), com um problema, é testemunha de um crime do gangster Ten Grand Jackson (Steve Cochran). Negando protecção policial, Buzzy deixa-se assassinar, e o seu fantasma começa a surgir ao irmão, Edwin Dingle (também Kaye), um introvertido rato de biblioteca, interesse amoroso da bela bibliotecária Ellen Shanley (Virginia Mayo). Depois de uma série de confusões, o espírito de Buzzy vai convencer Dingle a tomar o seu lugar, mesmo que para isso tenha que fingir ser noivo de Midge, quase perder Ellen, e escapar a novos atentados dos homens de Ten Grand Jackson.

Análise:

“O Super Homem”, que não trata de super-heróis, foi a segunda longa-metragem interpretada pelo comediante Danny Kaye, e tal como a de estreia, “Em Marcha” (Up in Arms, 1944), era uma produção de Samuel Goldwyn, um dos mais importantes produtores independentes do seu tempo. Desta vez, aos comandos estava H. Bruce Humberstone, para um musical a cores, com números de palco, numa espécie de versão modesta das grandes produções que a MGM e outras majors começavam a debitar em grande número.

Feito como um veículo para aproveitar as características do multifacetado Danny Kaye (que canta, dança razoavelmente, é um exímio mimo, com um humor corporal e expressões faciais ímpares, a que se junta um invulgar jeito para debitar charadas aliterativas a grande velocidade). Tal é a vontade de exibir o actor, que o argumento o coloca a contracenar consigo próprio no papel de dois gémeos.

Um é Buzzy Bellew, actor de revista, extrovertido, comediante e bon-vivant (talvez inspirado no verdadeiro Kaye dos palcos), acabado de pedir em casamento a sua colega Midge Mallon (Vera-Ellen). Só que Buzzy é testemunha de um crime perpretado pelo gangster Ten Grand Jackson (Steve Cochran), que o manda assassinar antes que chegue a data da audiência. O outro é Edwin Dingle, um introvertido rato de biblioteca, interesse amoroso da bela bibliotecária Ellen Shanley (Virginia Mayo), o qual começa a ouvir música e vozes, baralhando-se nos intentos, para descobrir que tudo se trata de um chamamento do irmão morto. O fantasma de Buzzy convence Dingle a tomar o seu lugar no teatro para que a audiência continue marcada. Só que isso implica que Dingle tenha que cantar e dançar, que assumir o noivado com Midge, que ele nem conhece, e sem querer quebre o coração de Ellen, que não percebe o que se passa. Para piorar, os esbirros de Ten Grand Jackson começam a perseguir Bingle para o matar, Buzzy vai entrando e saindo do corpo de Dingle causando contínuas mudanças de personalidade, e o promotor público insiste que Dingle lhe dê a informação que não tem. Por fim Ellen vê que a história de Dingle é verdadeira, e leva o Promotor Público à ópera, onde Dingle, cantando do palco, consegue contar o que Buzzy lhe confessara.

Correndo o risco assumido de desagradar a quem não achar graça ao histrionismo e exageros físicos de Danny Kaye, “O Super Homem” é um filme feito para os outros, aqueles que querem ver a em>persona cómica de Kaye a recriar-se. Ele canta e dança, em números de uma elasticidade cómica (e ao lado da então estreante Vera-Ellen, que se tornaria uma das mais importantes actrizes-bailarinas do seu tempo), faz pantomina e entra em trapalhadas físicas (a fugir dos perseguidores, nas sequências na loja dos alemães Schmidt) e, principalmente, comete a proeza de contracenar consigo próprio, com tempos cómicos perfeitos, mercê de efeitos especiais bastante credíveis para o seu tempo, que conquistaram o Oscar desse ano.

Se musicalmente, tirando a comicidade de Kaye, os números deixam algo a desejar (uma entrada das intituladas Goldwyn Girls soa mesmo a necessidade de fazer tempo), é quando Kaye entra nas suas rotinas num misto de atrapalhação e velocidade, que o filme ganha vida. O argumento é engenhoso no que diz respeito à interacção dos gémeos, produzindo alguns momentos geniais, já no resto é banal, não se percebendo, por exemplo porque Dingle não se esconde até ao dia do tribunal (algo que a própria polícia havia pedido), em vez de se expor constantemente ao assassinato. Também a história envolvendo Midge deixa muito a desejar, numa conclusão sem coerência.

Falhas à parte, a sequência do parque, em que os gémeos interagem, primeiro com um incauto polícia, e depois com um casal de namorados, as contínuas idas à mercearia e a perseguição dos bandidos até casa de Ellen, proporcionam momentos de antologia, com um Kaye no auge das suas capacidades, onde a sua alegria de actuar se mostrava a cada momento.

Como curiosidade note-se a sequência da interpretação de “Otchi Tchorniya”, boicotada por uma sessão de espirros, que Kaye transforma numa série de efeitos sonoros, no que parece ter sido a invenção do «beatbox», quatro décadas antes de o movimento rap a adoptar.

Danny Kaye e Vera-Ellen voltariam a contracenar logo no filme seguinte , “O Príncipe da Paródia” (The Kid from Brooklyn, 1946) de Norman Z. McLeod, também para Samuel Goldwyn, e depois disso novamente no popular “Natal Branco” (White Christmas, 1954) de Michael Curtiz, já na Paramount, e ao lado de Bing Crosby.

Danny Kaye e Vera-Ellen em "O Super Homem" (Wonder Man, 1945), de H. Bruce Humberstone

Produção:

Título original: Wonder Man; Produção: The Samuel Goldwyn Company; País: EUA; Ano: 1945; Duração: 98 minutos; Distribuição: RKO Radio Pictures; Estreia: 8 de Junho de 1945 (EUA), 9 de Outubro de 1945 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: H. Bruce Humberstone; Produção: Samuel Goldwyn; Argumento: Don Hartman, Melville Shavelson, Philip Rapp; História: Arthur Sheekman [adaptada por Jack Jevne, Eddie Moran]; Música: Ray Heindorf [não creditado], Heinz Roemheld [não creditado], Leo Robun e David Rose (canção “So in Love”); Orquestração e Direcção Musical: Louis Forbes, Ray Heindorf (canções e sequências de dança); Fotografia: Victor Milner, William E. Snyder, Karl Struss [não creditado] [cor por Technicolor]; Montagem: Daniel Mandell; Direcção Artística: Ernst Fegté, Perry Ferguson [não creditado]; Cenários: Howard Bristol; Figurinos: Travis Banton, Mary Grant [não creditado]; Caracterização: Robert Stephanoff; Efeitos Especiais: Harry Redmond Jr. [não creditado]; Efeitos Visuais: John P. Fulton; Coreografia: John Wray; Direcção de Produção: Harve Foster.

Elenco:

Danny Kaye (Edwin Dingle / Buzzy Bellew), Virginia Mayo (Ellen Shanley), Vera-Ellen (Midge Mallon), Donald Woods (Monte Rossen), S. Z. Sakall (Schmidt), Allen Jenkins (Chimp), Edward Brophy (Torso), Otto Kruger (Procurador Público), Steve Cochran (Ten Grand Jackson), Virginia Gilmore (Namorada do Marinheiro), Richard Lane (Assistente do Procurador Público), Natalie Schafer (Mrs. Hume), Alice Mock (Prima Donna), Huntz Hall (Marinheiro), Edward Gargan (Polícia no Parque), Gisela Werbisek (Mrs. Schmidt), The Goldwyn Girls.

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