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Laurence AnywaysLaurence Alia (Melvil Poupaud) e Fred Belair (Suzanne Clément) são um casal apaixonado, numa relação entusiasmante e inventiva. Ele é um professor de literatura, com aspirações de poeta, e ela assistente de realização numa equipa de filmagens. Só que um dia, Laurence revela que sente ser uma mulher no corpo de um homem, e vai iniciar a sua transformação para a sua nova identidade. A início Fred aceita mal a nova realidade, mas decide, por amor a Laurence, ficar com ele, a ajudá-lo, mesmo contra os conselhos da família, o pressão da sociedade, e mesmo os seus mais íntimos instintos.

 
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Análise:

À sua terceira longa-metragem, e já com o peso de estar a atrair as atenções nalguns festivais europeus, Xavier Dolan voltava a dirigir um filme escrito e produzido por si (onde também assumiria a montagem e os figurinos), desta vez optando por ficar apenas atrás das câmaras (se excluirmos um breve plano em que o seu rosto surge quase como relâmpago).

Com produção franco-canadiana, “Laurence para Sempre” é a história de Laurence Alia (Melvil Poupaud), um professor de literatura, com aspirações de poeta, que vive com a companheira, Fred Belair (Suzanne Clément), uma assistente de realização numa equipa de filmagens. Os dois vivem uma relação bastante alegre, com contínuas reinvenções e desafios, no que parece uma constante galhofa. Isto até Laurence contar a Fred que está a viver uma mentira, pois há alguns anos sente que é uma mulher num corpo de um homem. A primeira reacção de Fred é violenta, mas depois, com Laurence a confessar que a ama, e que a sua transformação não implica querer perdê-la, Fred acaba por aceitar e tentar ajudar o companheiro na transição. A caminhada é difícil, com a família de Fred a condená-la, a de Laurence a não o compreender, e alguns acontecimentos exteriores a colocá-los permanentemente em cheque. Fred acaba por colapsar, e decide mudar de vida, conhecendo Albert (David Savard) com quem iniciará uma relação. Os anos passam e Laurence torna-se uma poetiza publicada, enviando o seu livro a Fred, que, já mãe, mas insatisfeita com a sua vida, pede a Laurence que a procure. O par decide viajar numa espécie de lua-de-mel, durante a qual Fred percebe que não está ainda preparada, e que toda a caminhada de Laurence é apenas sua. O casal volta a separar-se, com Fred agora separada de Albert. Voltam a encontrar-se, mas nunca mais se sentem à vontade para serem sequer amigos.

Mesmo antes de marcar pela história sentida de transexualidade, um tema difícil e complexo de abordar, e até porque o tema só surge com vinte minutos de filme (talvez aquele plano da nuca de Laurence com clips nos dedos da mão esquerda a fingirem ser unhas compridas fosse a única pista), “Laurence para Sempre” marca imediatamente pelo estilo visual de Xavier Dolan. Nesse sentido, e por comparação com os seus filmes anteriores, “Laurence para Sempre” é uma espécie de filme de maturidade, com as várias influências do jovem actor a revelarem-se completamente, e a perceber-se melhor que nunca a caminhada que começara em 2009 com “Como Matei a Minha Mãe” (J’ai tué ma mère). Temos, por um lado a montagem que, ao jeito da Nouvelle Vague, saltita de plano em plano, em sequências que não respeitam necessariamente uma découpage cuidada. Temos, novamente, a câmara intrusiva, que em jeito de documentário segue os personagens até espaços exíguos, não se coibindo de parar nos seus rostos, em demorados grandes planos. Mas temos também um olhar mais poético, com planos cuidados onde os personagens se perdem contra fundos imponentes (um pouco à Stanley Kubrick), e quase como se estivéssemos em sessões fotográficas de uma revista de moda. Temos o modo como a imagem desacelera e a tela se vai colorindo com um lirismo poético irreal, como nas ventanias que trazem objectos coloridos esvoaçantes, ou até mesmo para marcar um estado de espírito, como o quase literal balde de água fria de Fred, que é o plano em que um dilúvio cai sobre ela, e que recorda, por exemplo as passagens poéticas de Paul Thomas Anderson em “Magnolia” (1999), como a irreal chuva de sapos.

Ao lado dos recursos estéticos, que tornam “Laurence para Sempre” uma experiência interessantíssima, temos a história, como dito, da transformação do protagonista, em busca da sua identidade de género. Lidando com o assunto respeitosamente, Dolan demora-se em descrever-nos os personagens principais, Laurence e Fred, e aí o filme ganha mais um trunfo. Não estamos perante um filme que pretende ser uma afirmação social, nem uma cruzada em prole da transexualidade, como combate de direitos. Em Laurence e Fred temos dois personagens suficientemente humanos para lhes vermos os erros e defeitos, que reconheceríamos noutra história que não lidasse necessariamente com este tema. Eles amam, anseiam, temem, são egoístas, têm ciúmes, podem ser possessivos, manipuladores, podem ser fracos ou passivamente agressivos. Afinal, como acontece em qualquer casal, sejam quais forem as combinações de género. E é a partir daí que, como diz Fred a dada altura, «tudo tem de ser reinterpretado».

É por entre dúvidas, confrontos, e uma aprendizagem contínua que só se faz caminhando e errando, que Laurence e Fred avançam. Laurence esclarece que continua a preferir mulheres (é curiosa a confissão em que me mostra temer que ao vestir-se de mulher as raparigas da escola párem de dizer que ele é belo). Fred acredita ser suficientemente moderna para aceitar a transição. De um lado o seu amor por Laurence fá-la lutar por ele, e sofrer as agruras dele. Por outro, enquanto Laurence se transforma em mulher, Fred ressente ficar para trás numa caminhada que sente já não ser sua, mas de afirmação pessoal de Laurence (que evoluirá também na carreira, deixando as aulas para ser uma autora publicada). Pelo meio fica o episódio das maternidades de Fred (a falhada, quando aborta para que um filho não seja um factor extra numa relação que ela não compreende, e a segunda, de Albert, para ter o filho que sempre quis, e agora não lhe parece suficiente), ficam as muitas conversas com outras pessoas (a família de Fred que condena Laurence, a nova família de ex-cantoras e travestis de Laurence, o casal em transformação que Laurence e Fred conhecem na Ilha Negra), ficam as perguntas (deles e nossas), por vezes sem respostas, e ficam essencialmente os conflitos surdos, que parecem rebentar sempre que o par acredita que se pode entender.

Com um realismo e frieza que lembra filmes-conflito como “Cenas da Vida Conjugal” (Scener ur ett äktenskap, 1972) de Ingmar Bergman, ou “Maridos e Mulheres” (Husbands and Wives, 1992) de Woody Allen, “Laurence para Sempre” choca por não deixar espaço a dramatismos ou lutas metafóricas entre bem e mal, tradição e modernidade, intolerância e tolerância. O que fica são duas pessoas que nos parecem sempre reais, que lutam pela sua felicidade, sabendo que terão de tomar decisões que magoam quem amam, e mesmo a elas próprias, sabendo que talvez não se consigam perdoar, perdoar quem amam, ou mesmo viver com as consequências. É essa luta, tão inconsequente quanto necessária, que nos comove. Através dela, Dolan mostra que somos nós, independentemente de escolhas sexuais ou de género, que lutamos, sofremos, tentamos e erramos. Através dela, também, questiona-nos sobre o quanto estamos dispostos a arriscar para sermos honestos connosco próprios, e que distância vai entre aceitarmos o que racionalmente parece correcto, e sermos capazes de viver felizes com isso.

Quando quase no final, Laurence e Fred tentam um encontro amigável, mais por nostalgia e dever que por fé neles próprios, e acabam cada um por sair por uma porta diferente sem coragem de encarar o outro, é numa poesia triste que sentimos as portas abertas, como se calhar tantas deixadas na nossa vida. Por isso, para terminar com um sorriso, Dolan dá-nos como última cena, a primeira possível, o primeiro encontro entre Laurence e Alia, como que a dizer-nos que são as pessoas e os sentimentos, e não a cronologia dos acontecimentos, que mais contam. E essas pessoas serão sempre elas próprias. Homem ou mulher, Laurence será sempre Laurence.

Com esse seu olhar vez acutilante, desconcertante, e sempre de final aberto, “Laurence para Sempre” competiu em Cannes na secção Un Certain Regard, onde Suzanne Clément venceu o prémio de Melhor Actriz, e Dolan recebeu o prémio de Melhor Filme na competição Queer Palm Award, além de vários prémios da indústria canadiana, e o prémio de Mlehor File do Festival de Toronto.

Suzanne Clément e Melvil Poupaud em "Laurence para Sempre" (Laurence Anyways, 2012), de Xavier Dolan

Produção:

Título original: Laurence Anyways; Produção: Lyla Films / MK2 Productions; Produtores Executivos: Gus van Sant, Lyse Lafontaine, Jo Iacono, Xavier Dolan; País: Canadá / França; Ano: 2012; Duração: 161 minutos; Distribuição: Alliance Vivafilm (Canadá), MK2 Diffusion (França); Estreia: 18 de Maio de 2012 (Canadá), 28 de Fevereiro de 2013 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Xavier Dolan; Produção:Lyse Lafontaine; Co-Produção: Nathanaël Karmitz, Charles Gillibert; Argumento: Xavier Dolan; Música: Noia; Fotografia: Yves Bélanger [cor por Technicolor]; Montagem: Xavier Dolan; Design de Produção: Anne Pritchard; Direcção Artística: Colombe Raby; Cenários: Louis Dandonneau, Pascale Deschênes; Figurinos: Xavier Dolan, François Barbeau; Caracterização: Colleen Quinton; Efeitos Especiais: Mario Dumont; Efeitos Visuais: Jean-François Ferland (Alchemy 24); Direcção de Produção: Carole Mondello.

Elenco:

Melvil Poupaud (Laurence Alia), Suzanne Clément (Fred Belair), Nathalie Baye (Julienne Alia), Monia Chokri (Stéfanie Belair), Susan Almgren (Jornalista), Yves Jacques (Michel Lafortune), Sophie Faucher (Andrée Belair), Magalie Lépine Blondeau (Charlotte), David Savard (Albert), Catherine Bégin (Mamy Rose), Emmanuel Schwartz (Baby Rose), Jacques Lavallée (Dada Rose), Perrette Souplex (Tatie Rose), Patricia Tulasne (Shookie Rose).