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The WindLetty (Lilian Gish), uma jovem inocente da Virginia, viaja para ir viver num rancho no Texas, onde se juntará ao seu amado primo Beverly (Edward Earle). Só que este é casado com Cora (Dorothy Cumming), que tem ciúmes imediatos dela, e ao ver como marido e filhos adoram Letty, vai obrigá-la a deixar o rancho. Letty começa por aceitar a corte do galã Wirt Roddy (Montagu Love), que conhecera no comboio, para descobrir que este é casado e apenas a quer para amante. Casa então com Lige (Lars Hanson), um dos vizinhos, mesmo sem o amar. Quanto o vento se torna mais intenso, os rancheiros reúnem-se para caçar cavalos selvagens e assim garantiram a sobrevivência. É então que Roddy vai regressar para se impor a Letty, a qual tem de o enfrentar e superar a loucura causada pelo omnipresente vento.

Análise:

Sob a sugestão da própria Lilian Gish, então já um nome de peso na indústria de Hollywood, a Metro-Goldwyn-Mayer (MGM) encomendou à famosa Frances Marion a adaptação do romance “The Wind”, de Dorothy Scarborough, uma espécie de western, no espírito da exploração das condições de vida dos pioneiros, mas sem a componente de aventura do western clássico. Terá sido a própria Lilian Gish a sugerir a reunião da equipa que esteve à frente de “A Mulher Marcada” (The Scarlet Letter, 1926), isto é, o realizador Victor Sjöström e o actor Lars Hanson, ambos suecos, que chegaram a Hollywood com Greta Garbo.

“O Vento” conta-nos a história de Letty Mason (Lilian Gish), uma jovem da Virginia, que vai viver com o seu primo Beverly (Edward Earle), um pioneiro que explora um rancho em Sweetwater, no Texas. No caminho Letty conhece o galã Wirt Roddy (Montagu Love), que a tenta seduzir, enquanto ela se vai assustando com a força do vento. Ao chegar, Letty descobre que é indesejada pela mulher do primo, Cora (Dorothy Cumming), que tem ciúmes dela, ao mesmo tempo que é logo cortejada por dois vizinhos, Lige (Lars Hanson) e Sourdough (William Orlamond). Com a familiaridade entre Letty e Beverly, Cora obriga-a a sair de casa, e Letty procura Roddy, para descobrir que este é casado, e a quer apenas para amante. Letty regressa então e decide aceitar a proposta de Lige, casando com ele, para logo ficar claro que não há amor no casal, levando Lige a decidir arranjar dinheiro para enviar Letty de volta à Virginia. Com o piorar das condições atmosféricas, Lige tem de partir, trazendo um ferido Roddy que fica aos cuidados de Letty. Refeito, Roddy aproveita a ausência de Lige para tentar abusar de Letty. Esta, cada vez mais enlouquecida pelo vento intenso que os aprisiona em casa, acaba por disparar, matando Roddy e enterrando-o na areia trazida pelo vento. Quando Lige regressa, Letty não sabe mais se o homicídio foi real ou não, e pensando que o marido a quer enviar para Leste, declara-lhe finalmente o seu amor.

Aquele que foi o último grande clássico mudo da MGM, e foi o último filme mudo tanto de Lilian Gish como de Victor Sjöström (e ainda o seu último nos Estados Unidos), começa por impressionar pela omnipresença do inóspito vento, que tudo derruba, quebra janelas, provoca fogos, impossibilita movimentos e causa acidentes, e entra por qualquer fresta, impedindo a própria respiração. O resultado foi brilhantemente atingido com o uso de hélices de oito aviões, estacionados no set para o efeito.

Nesse cenário rude, e que nos sugere um constante inferno de desconforto, Sjöström filma mais uma história de sofrimento humano, com uma protagonista que tem de descer ao mais baixo da condição humana para encontrar a sua força de sobrevivência. Embora o livro que está na base de “O Vento” termine com Letty louca, perdida no deserto, procurando o cadáver de Roddy, Frances Marion e Victor Sjöström decidiram-se por um final feliz, com Letty a vencer a loucura e a aceitar o seu novo marido, que é também o seu aceitar da nova vida nesta região de fronteira, e como ela diz, a deixar de ter medo do vento. Há, ainda assim algo de amargo no desenrolar da história, com Letty a assassinar o seu assaltante, cujo corpo, depois de enterrado na areira trazida pelo vento, desaparece sem deixar traços. Podemos interrogar-nos se todo o episódio desde o regresso de Roddy foi imaginado pela loucura de Letty, ou se, tal como Lige diz, o vento levou os vestígios de uma morte justificada. Esta justificação seria a pretensa violação de Letty por Roddy, que não vemos, mas intuímos, já que Roddy recolhe o corpo desmaiado de Letty quando ela tenta fugir para o vento, e no dia seguinte ela diz aceitar que o marido a mate.

Dadas todas estas considerações, é óbvio que o filme de Sjöström tem dois personagens principais, o vento e Letty. O primeiro, como já se explicou atrás, é omnipresente, e o sentido da aceitação da terra inóspita, o seu símbolo e representante. Por isso, é quando Letty diz ter deixado de temer o vento que ela é formalmente aceite no novo mundo que agora habita. Quanto à própria Letty, isto é, Lilian Gish, dá uma lição da sua força de representação, passando da leveza e ingenuidade iniciais, para o sofrimento e consequente loucura, que ela veste de um modo quase perturbador para o espectador. Ponto intermédio na actuação são os momentos que se seguem ao casamento, com Gish e Hanson a repetirem a parceria de “A Mulher Marcada”, aqui numa demonstração das suas capacidades para interpretarem personagens desajeitados um para com o outro e para com os seus próprios sentimentos, com um realismo comovente. O que melhor resulta é a forma como Sjöström dá tempo a que todos os elementos respirem, usando efeitos especiais grandiosos para a época, mas para contar aquilo que é quase um drama de câmara, em cenários contidos e claustrofóbicos, onde tantas vezes opta por deixar os pés e os passos contar parte da história, com a poeira e sujidade do chão como cenário.

Hoje considerado um clássico, “O Vento” sofreu pelo facto de o cinema estar a ganhar som, o que levou a MGM a hesitar quanto à sua estreia, com sucessivas falsas partidas entre Outubro e Novembro de 1928. O filme ressentiu-se disso, e foi um fracasso de bilheteira.

Lilian Gish e Lars Hanson em "O Vento" (The Wind, 1928) de Victor Sjöström

Produção:

Título original: The Wind; Produção: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM); País: EUA; Ano: 1928; Duração: 75 minutos; Distribuição: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM); Estreia: 15 de Setembro de 1928 (Dinamarca), 11 de Outubro de 1928 (EUA), 16 de Outubro de 1929 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Victor Sjöström [como Victor Seastrom]; Produção: Victor Sjöström; Argumento: Frances Marion [a partir do livro homónimo de Dorothy Scarborough]; Intertítulos: John Colton; Fotografia: John Arnold [preto e branco]; Montagem: Conrad A. Nervig; Cenários: Cedric Gibbons, Edward Withers; Figurinos: André-ani.

Elenco:

Lillian Gish (Letty Mason), Lars Hanson (Lige Hightower), Montagu Love (Wirt Roddy), Dorothy Cumming (Cora), Edward Earle (Beverly), William Orlamond (Sourdough), Carmencita Johnson (Filha de Cora), Leon Janney [como Laon Ramon] (Filho de Cora), Billy Kent Schaefer (Filho de Cora).

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