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La dolce vitaMarcello (Marcello Mastroiani) é um jornalista de um tablóide sensacionalista, que vive do parasitismo no mundo dos famosos, e do sonho que uma dia trocará o jornalismo pela literatura. Deixando a sua neurótica e ciumenta companheira Emma (Yvonne Furneaux) amiúde em casa, sem notícias, e à beira do suicídio, Marcello vive da cobertura de momentos fúteis, gozando a vida nocturna, festas, perseguições às estrelas, e um sem número de aventuras amorosas, sejam escapadas sexuais com a rica conquistadora Maddalena (Anouk Aimée) ou a americana Jane (Audrey McDonald), seja conduzir a estrela sueca Sylvia (Anita Ekberg) pela noite de Roma, ou a participar em festas decadentes em mansões milionárias.

 
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Análise:

Ao seu sétimo filme, ou sexto se descontarmos “Luci del varietà” (1951), realizado a meias com Alberto Lattuada, Federico Fellini libertava-se de uma vez das convenções narrativas clássicas, e conseguia aquele que, para muitos é o primeiro filme verdadeiramente felliniano, isto é, aquele em que finalmente se entrega a uma forma desconexa de interligar episódios, numa lógica que tem mais a ver com o sonho que com o realismo. “A Doce Vida” foi, por isso, uma lufada de ar fresco, que lhe valeu a Palma de Ouro em Cannes, e mais um reconhecimento nos Oscars, tornando-se um dos filmes mais emblemáticos da sua carreira.

Novamente escrevendo em conjunto com Ennio Flaiano e Tullio Pinelli, Fellini continua, aparentemente, num caminho conhecido. Este é o de um grupo de pessoas que são essencialmente parasitas sociais, numa atmosfera feita de noites, com comportamentos trágico-cómicos, numa vida decadente de buscas infrutíferas e alienantes, e ritmos histrionicamente circenses. Mas é na estrutura que Fellini inova, quebrando restrições de narrativas convencionais e a prisão da lógica de causa e efeito, para nos trazer episódios soltos, onde nem sempre a sequência cronológica faz sentido e onde os personagens surgem e desaparecem sem grande critério, no fundo, como acontece num sonho, numa quase transmutação de cenários, que tanto podem ser o interior realista de um apartamento ou de um bar, como uma viagem nocturna por uma paisagem quase irreal.

No topo da construção temos o personagem Marcello (Marcello Mastroiani), um jornalista que vive da observação do mundo dos famosos, na promessa pessoal de um dia escrever um livro, passando a uma forma mais intelectualmente aceite de arte literária. Até lá, Marcello vive a vida nocturna, as festas, as perseguições às estrelas, os encontros nos locais mais inusitados em busca de um furo jornalístico. Vive-o da mesma forma decadente daqueles que persegue, ignorando a companheira Emma (Yvonne Furneaux), que deixa amiúde em casa, sem notícias dele, para se dar a todo o tipo de aventuras amorosas, sejam escapadas sexuais com a rica conquistadora Maddalena (Anouk Aimée) ou a também rica, e americana Jane (Audrey McDonald), e muitas nos são sugeridas, como com a dançarina Fanny (Magali Noël), numa sequência num clube nocturno. Pelo meio vemo-lo a conduzir a estrela sueca Sylvia (Anita Ekberg) pela noite de Roma; a cobrir uma pretensa aparição de uma santa a dois meninos; num reencontro com o pai (Annibale Ninchi) que vem a Roma conhecer a noite da cidade; nas violentas discussões com Emma, nas quais os dois quase sempre rompem, para se voltar a reconciliar; nas conversas com o intelectual Steiner (Alain Cuny), que mais tarde assassina os filhos e se suicida; e nalgumas festas, como numa romaria embriagada por um velho castelo, e por fim numa festa quase orgiástica, em casa dos recentemente divorciados Riccardo (Riccardo Garrone) e Nadia (Nadia Gray), que acaba num histérico passeio na praia.

Mas mais que pela sua sequência narrativa, “A Doce Vida” vale pelas ideias e todo o desenvolver da imagem de Fellini, já que, como dito antes, as sete noites e consequentes madrugadas em que o filme se divide (com o prólogo inicial de uma estátua de Cristo a sobrevoar Roma de helicóptero, e um interlúdio de Marcello a escrever o seu livro, enquanto conversa com uma virginal rapariga), não são necessariamente relacionadas entre si, e não necessitam de explicações, sendo que, na última, Marcello surge já mais envelhecido, de têmporas esbranquiçadas (a lembrar até o personagem do filme seguinte de Fellini).

Se, por um lado, volta a temática do parasitismo de alguns sectores da sociedade, como os chamados «vencidos da vida» (nos filmes passados os saltimbancos e actores menores, os vadios, os vigaristas e as prostitutas), agora Fellini olha para a chamada «alta sociedade» para a desconstruir em tiques de futilidade, fuga para a alienação (na bebida, drogas e sexo) e falsa aparência. São as questões filosóficas dos pretensos autores que discutem «o sexo dos anjos», numa auto-alimentada fama de um núcleo fechado que nada conhece para além do seu círculo. É também uma certa sensação de impunidade, na arrogante crença de se estar acima das regras devido a uma superioridade intelectual. É, basicamente, a fuga para a frente, num comportamento viciante e alienado que nada mais comporta que esses ciclos viciosos.

A tudo isto Fellini acrescenta a estranha fascinação da imprensa, como uma crítica ao comportamento dos repórteres que se comportam como predadores irritantes e intrusivos, omnipresentes nas andanças das suas «vítimas», e do seu público, que morbidamente exige este tipo de jornalismo. Curioso é o facto de, graças à alcunha que Marcello dava ao seu amigo fotógrafo «Paparazzo» (Walter Santesso), palavra em dialecto que Fellini descreveu como sendo um som de zunido irritante de insectos, esta palavra tenha vindo a ser usada no plural «paparazzi» para identificar o tipo de repórteres que segue intrusivamente a vida de pessoas famosas.

Neste meio move-se Marcello, ao qual se põe desde sempre a questão do que fazer com a sua vida. De um lado está a sua desejada carreira de escritor, para ser levado a sério como um intelectual de pleno direito (e por isso, na única vez em que o vemos escrever, ele interage com a mais doce personagem do filme, o símbolo de virtude e inocência que é a jovem Paola, que, note-se, no final ele já não reconhece). Do outro lado está a vida decadente de excessos e solicitações fúteis, representada pelo mundo do jornalismo sensacionalista, aquele a que ele acaba por ir continuamente escolhendo. Em paralelo temos sempre o tema das liberdades individuais, na escolha dos nossos comportamentos, e que, em Marcello, nos chega pelas prisões às convenções, na relação com Emma (possessiva, maternal, neurótica, prosaica) e até como o pai. Em contraste, vemo-lo falar com Steiner, que o coloca nessa dicotomia (liberdade intelectual ou conforto materialista), para mais tarde percebermos que Steiner se deixou assoberbar pelas suas contradições caindo na tragédia.

Se episódios como as discussões entre Marcello e Emma nos deixam um travo mais materialista, e o definhar da relação nos transporta quase ao universo de Antonioni, temos quase um carrossel circense de episódios, personagens e comportamentos, sempre ligados por um quase irrealismo (de comportamentos e cenários), que descreve um mundo de aparências, o qual tem pouca ligação com a nossa realidade. Por isso, muitos dos episódios são viagens nocturnas, onde todos parecem interromper todos, numa exuberante cacofonia de movimentos e diálogos, quase como se estivéssemos a percorrer um sonho, onde víssemos, essencialmente, o interior (oco, é certo) de um conjunto de pessoas que vive da aparência.

Há ainda que lembrar que, com a «explosão» da Nouvelle Vague francesa, há uma liberdade estrutural que parece contagiar Fellini, e se tornou fundamental para a forma final de “A Doce Vida”. Por tudo isso, o filme foi recebido com algum espanto, e braços bem abertos pela crítica (e com violência pela Democracia Cristã e pelo Vaticano), lançando definitivamente a carreira de Marcello Mastroiani (até como alter ego de Fellini), que aqui contracena com várias actrizes estrangeiras, como a sueca Anita Ekberg, a francesa Anouk Aimée (com dobragem de voz de Lilla Brignone), a franco-inglesa Yvonne Furneaux (com dobragem de voz de Gabriella Genta), a romena Nadia Gray (com dobragem de voz de Jole Fierro) e a turca Magali Noël.

“A Doce Vida” tornou-se um ícone do cinema, e tem sido repetidas vezes citado por outros actores, como são os conhecidos exemplos de Woody Allen, com “Celebridades” (Celebrity, 1998) e de Paolo Sorrentino, com “A Grande Beleza” (La Grande Bellezza, 2013). Além disso, quando Anita Ekberg entrou vestida na Fontana di Trevi, estava a criar algumas das imagens mais icónicas da história do cinema.

Produção:

Título original: La Dolce Vita; Produção: Riama Film / Cinecittà / Pathé Consortium Cinéma / Gray-Film; Produtor Executivo: Franco Magli; País: Itália/França; Ano: 1960; Duração: 168 minutos; Distribuição: Cineriz (Itália), Momentum Pictures (Reino Unido), Pathé Consortium Cinéma (França), Astor Pictures Corporation (EUA); Estreia: 3 de Fevereiro de 1960 (Itália), 6 de Maio de 1970 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Federico Fellini; Produção: Giuseppe Amato, Angelo Rizzoli; Argumento: Federico Fellini, Ennio Flaiano, Tullio Pinelli [com contribuições de Brunello Rondi e Pier Paolo Pasolini]; Música: Nino Rota; Direcção Musical: Franco Ferrara; Fotografia: Otello Martelli [preto e branco, filmado em Totalscope]; Montagem: Leo Catozzo; Design de Produção: Piero Gherardi; Figurinos: Piero Gherardi; Caracterização: Otello Fava; Direcção de Produção: Nello Meniconi, Manlio Morelli.

Elenco:

Marcello Mastroianni (Marcello Rubini), Anita Ekberg (Sylvia), Anouk Aimée (Maddalena), Yvonne Furneaux (Emma), Magali Noël (Fanny), Alain Cuny (Steiner), Lex Barker (Robert, Marido de Sylvia), Jacques Sernas (O Divo), Nadia Gray (Nadia), Annibale Ninchi (Pai de Marcello), Walter Santesso (Paparazzo), Valeria Ciangottini (Paola, A Empregada de Mesa), Riccardo Garrone (Riccardo), Ida Galli (Debutante do Ano), Audrey McDonald (Jane), Polidor (Palhaço), Alain Dijon (Frankie Stout), Enrico Glori (Admirador de Nadia).

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