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The Wedding MarchO príncipe Nicki (Erich von Stroheim) é um soldado da guarda imperial no Império Austro-húngaro, pertencente a uma família nobre, mas arruinado financeiramente. Por essa razão os pais (George Fawcett e Maude George) aconselham-no a «casar com dinheiro», e a eleita é Cecelia Schweisser (Zasu Pitts), filha de um rico industrial. Mas nas cerimónias oficiais do Corpus Christi, em Viena, Nicki enamora-se da plebeia Mitzi Schrammell (Fay Wray), que assiste à parada com o seu bruto noivo Schani Eberle (Matthew Betz). Nicki e Mitzi vão iniciar um namoro, que é desde logo toldado pela iminência do casamento do príncipe com Cecelia e pelas chantagens de Schani.

Análise:

Após os seus inúmeros problemas com a Metro-Goldwyn-Mayer de Louis B. Mayer e Irving Thalberg, decorrentes, por exemplo, das produções de “Esposas Levianas” (Foolish Wives, 1922) e “Aves de Rapina” (Greed, 1924), filmes nos quais Eric von Stroheim ultrapassou todos os prazos, orçamentos e indicações da produtora, a separação tornou-se inevitável, com o actor e realizador a começar a pôr em causa a sua continuidade na indústria. É já em 1928, sob financiamento do produtor independente Pat Powers, que o autor de ascendência austríaca continua a sua obra, agora com um filme evocativo da sua terra natal.

Apelando ao gosto romântico pelas monarquias europeias, e com argumento e produção do próprio Stroheim, “A Marcha Nupcial” leva-nos à Viena de 1914, nos últimos dias do Império Austro-húngaro, no reinado de Francisco José. Aí, acompanhamos a história do príncipe Nickolas von Wildeliebe-Rauffenburg, conhecido como Nicki (Stroheim), um galante soldado de família aristocrática, mas sem um tostão. Perante as suas dívidas, os pais (George Fawcett e Maude George) recomendam-lhe algo simples: que case por dinheiro. A eleita é Cecelia Schweisser (Zasu Pitts), filha de um rico industrial (George Nichols), mas numa parada militar, Nicki repara na bela plebeia Mitzi Schrammell (Fay Wray), noiva do bruto Schani Eberle (Matthew Betz), e os dois começam um flirt, que termina quando o cavalo de Nicki provoca a queda de Mitzi. Procurando acompanhar o estado da rapariga, Nicki e Mitzi acabam por se apaixonar. O namoro prossegue, mas o ciumento Schani mostra a Mitzi a notícia do noivado do príncipe, após o que a tenta violar. Novamente refutado por ela, Schani planeia assassinar o príncipe no dia do casamento, mas a intervenção de Mitzi, que promete desposá-lo para salvar o seu amado, permite que os noivos partam para lua de mel, sem saberem do sucedido.

Sob o invólucro de uma história de nobrezas ancestrais, príncipes e amores proibidos, Erich von Stroheim voltava a fazer aquilo que era hábito no seu cinema, uma denúncia da aparência, e da decadência das cortes europeias, na forma como viviam de futilidade, acima das possibilidades, sobre um mundo que já tinham deixado que as ultrapassasse. Tal é feito sempre com um sarcasmo mordaz, em descrições subtis, mas eficazes (veja-se a sequência do acordar dos pais de Nicki). Esse tema passa depois, de crítica a motor da história, com a necessidade de Nicki se casar por dinheiro para manter as aparências, o que era, afinal, um mote para o modo de estar dessas mesmas cortes.

Pelo meio temos a história de amor (o filme inicia-se com a dedicatória a «todos os verdadeiros apaixonados do mundo»), com o personagem de Stroheim, frívolo, amante da boa vida, de excessos e gastos escusados, mas com sentimentos suficientes para se deixar enamorar, quase pondo o seu futuro em risco. Ao lado deste modo de estar, os plebeus não são tratados com mais candura, com Schani a mostrar-se um brutamontes repugnante (note-se como cospe na sequência da parada, onde come enquanto domina a plateia com comentários impróprios) e os pais de Schani e Mitzi a revelarem-se figuras rudes e grosseiras, também elas movidas por ambições materialistas, embora de vistas mais curtas.

A excepção é Mitzi, sonhadora, e a única que coloca o espírito acima dos bens materiais (note-se que é harpista). Por isso será ela a sair combalida do recontro na parada, o que simboliza o sofrimento que a espera com o final da história, e a verdade da escolha do príncipe. Por essa pureza, será ela a única a sacrificar algo (a sua vida e felicidade) por motivos altruístas. Pelo meio vão ficando os contrastes dos mundos (e a sequência da parada volta a ser elucidativa, com os nobres a cavalo, numa posição superior, e o povo em baixo, apertado, empurrado, numa adoração cega), e os comportamentos.

A versão final de “A Marcha Nupcial” não deveria terminar no casamento, com Stroheim a desenvolver a história do seu príncipe para lá da lua-de-mel. Mais uma vez, com a produção a extravasar os limites pretendidos, Pat Powers forçou-o a atalhar o trabalho, e essa segunda parte constituiu um novo filme, “The Honeymoon”, o qual se viria a perder posteriormente.

Conhecido pelo rigor que colocava em cada cenário, das construções precisas de igrejas e palácios, até aos adereços (consta que era usado champanhe verdadeiro nas cenas que o requeriam, e foram até contratadas prostitutas verdadeiras para uma cena num bordel), Stroheim voltava a ter um filme caríssimo, onde o apelo do cenário e todo o design é evidente, e incluía uma célebre sequência colorida, filmada no método de Technicolor de duas faixas, para mostrar a celebração do Corpus Christi. Havia, no entanto, uma maior cedência a um enredo novelesco.

A decisão da Paramount em lançar os dois filmes separadamente, com “The Honeymoon” a ser distribuído por menos cinemas e só muito mais tarde, já numa altura em que o público pedia filmes sonoros, acabou por prejudicar a sua aceitação.

O filme foi reeditado em 1987, com banda sonora de órgão, e posteriormente restaurado, para ser reeditado em 1998, a partir de cópias da Library of Congress e da Cinématèque Française, e com banda sonora de Carl Davis baseada em temas vienenses.

O filme tem a curiosidade de ter tido o arquiduque Leopoldo da Áustria como consultor.

Fay Wray e Erich von Stroheim em "A Marcha Nupcial" (The Wedding March, 1928) de Erich von Stroheim

Produção:

Título original: The Wedding March; Produção: Paramount Pictures; Produtores Executivos: Adolph Zukor, Jesse L. Lasky; País: EUA; Ano: 1928; Duração: 109 minutos; Distribuição: Paramount Pictures; Estreia: 6 de Outubro de 1928 (EUA), 20 de Janeiro de 1930 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Erich von Stroheim; Produção: Erich von Stroheim, Pat Powers; Argumento:Erich von Stroheim, Harry Carr; Música: Louis De Francesco [não creditado], J.S. Zamecnik [não creditado], Adolph Deutsch [1930, não creditado], Vernon Duke [1930, não creditado], Carl Davis [1998, versão restaurada]; Fotografia: Roy H. Klaffki, William C. McGann [não creditado], Hal Mohr [não creditado], Ben F. Reynolds [não creditado], Buster Sorenson [não creditado], Harris Thorpe [não creditado], Ray Rennahan [câmara Techicolor]; Montagem: Frank E. Hull, Josef von Sternberg [não creditado], Erich von Stroheim [não creditado], Paul Weatherwax [não creditado]; Direcção Artística: Erich von Stroheim [não creditado], Richard Day [não creditado]; Figurinos: Max Rée, Richard Day[não creditado], Erich von Stroheim [não creditado].

Elenco:

Erich von Stroheim (Nicki / Príncipe Nickolas von Wildeliebe-Rauffenburg), Fay Wray (Mitzerl ‘Mitzi’ Schrammell), Matthew Betz (Schani Eberle, o Talhante), Zasu Pitts (Cecelia Schweisser), George Fawcett (Príncipe Ottokar von Wildeliebe Rauffenburg, Pai de Nicki), Maude George (Princesa Maria, Mãe de Nicki), George Nichols (Fortunat Schweisser, O Industrial), Dale Fuller (Katerina Schrammel, Mãe de Mitzi), Hughie Mack (Eberle, Pai de Schani), Cesare Gravina (Martin Schrammell, Pai Mitzi), Sidney Bracey (Navratil), Anton Vaverka (Imperador Franz-Josef).

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