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Le notti di CabiriaNos subúrbios de Roma, Maria Ceccarelli, conhecida como Cabíria (Giulietta Masina), é abandonada pelo companheiro, que a rouba e atira a um rio. Salva por crianças e pescadores, Cabíria volta a casa, onde se recompõe, pois à noite tem de continuar a ganhar a vida como prostituta. Sonhadora, Cabíria vai-se deixando levar por situações e histórias, que a levam a conhecer o actor Alberto Lazzari (Amedeo Nazzari), ser hipnotizada por um ilusionista (Aldo Silvani) e por fim, deixar-se enamorar pelas propostas do pretendente Oscar (François Périer).

Análise:

Continuando o seu conjunto de contos de matriz neo-realista, sobre aquilo que se poderiam chamar «vencidos da vida», pessoas que vivem à margem da sociedade e do sucesso, Fellini trazia-nos em 1957 mais um drama construído em torno da sua diva e esposa, Giulietta Masina. A ideia vinha de trás, mas uma série de vicissitudes, entre as quais a relutância dos produtores em aceitar uma história centrada na vida de uma prostituta, veio a adiar o filme, que finalmente contaria com o apoio de Dino De Laurentiis.

Continuando a parceria com os seus co-argumentistas, Ennio Flaiano, Tullio Pinelli, Fellini conta-nos a história da prostituta Cabíria (Masina), que havíamos conhecido de passagem numa sequência de “O Sheik Branco” (Lo sceicco bianco, 1952). Aqui, começamos por vê-la a ser abandonada e empurrada ao rio pelo seu companheiro, Giorgio, que depois de viver algum tempo às suas custas decidiu fugir com o dinheiro dela. Mal refeita do susto, Cabíria tem de aceitar a conclusão da sua amiga Wanda (Franca Marzi), de que Giorgio a abandonou. Mas Cabíria recupera rapidamente, pois é optimista e acredita que algo melhor está para vir.

É esse optimismo que a mantém sã, no mundo da noite onde as tentações e perigos são tantos. E é ele que a leva a aventurar-se para o centro de Roma, dando por si, sem saber como, no carro de Alberto Lazzari (Amedeo Nazzari), um actor célebre que acabou de brigar com a namorada (Dorian Gray). Mas, depois do romantismo e ilusão de uma noite de luxo, a reconciliação do casal faz com que Cabíria acabe posta na rua às escondidas. Vemo-la a deambular pela noite, conhecendo um homem que auxilia os sem-abrigo. Participa depois numa procissão para pedir à santa que a ajude a mudar de vida, e na festa que se segue embebeda-se e parte desgostosa. Depara com um teatro de ilusionismo, onde acaba hipnotizada, contando dos seus sonhos de adolescente. Tal atrai a atenção de um espectador, Oscar (François Périer), com quem começa a encontrar-se. Aos poucos Oscar vence as barreiras da desconfiança, e convence Cabíria a deixar tudo para casar com ele. Só que depois de vender a casa e alguns objectos e partir com tudo o que consegue, Oscar rouba-a e abandona-a. No mais baixo dos seus momentos, Cabíria vê um grupo de jovens que dança e canta pelas ruas, e não consegue deixar de sorrir.

De novo dando atenção a pessoas de classe baixa, sempre com um olhar para condições sociais mais baixas, como era apanágio do Neo-realismo, de onde proviera, Fellini usa o mundo das prostitutas o submundo da noite, nos subúrbios de Roma, como uma metáfora plena de poesia. Nas mãos de Giulietta Masina, Cabíria não é apenas uma prostituta, é a nossa mediadora num mundo cínico e predador. Tal constatação começa na primeira cena, na qual Cabíria é deixada para morrer por alguém de quem ela cuidava, e continua ao longo da história. Sempre positiva, crédula, bem-disposta, mesmo que por vezes desconfiada, e facilmente assustada, Cabíria é uma força positiva e bondosa. E, mais que tudo, Cabíria é Giuletta Masina, na sua capacidade tremenda de vestir tantas faces e sentimentos, rindo com tristeza, chorando com alegria, passando do espanto à ternura, do susto ao riso, do histrionismo à introversão com uma facilidade convincente que a fazem especial na obra de Fellini, tanto aqui, como já tinha sido em “A Estrada” (La strada, 1954). A cada momento, é a sua expressão e a sua forma desconcertante de reagir que conduzem o filme, e nos prendem a atenção, fazendo-nos apaixonar por uma personagem que, sendo rotulada negativamente, é um símbolo de inocência. Vemos essa inocência tanto na forma como se deixa cativar pela presença do actor famoso, como ao acreditar que uma santa a pode salvar se pedir muito, ou ainda como continua a acreditar que a mudança é possível, agora pelas mãos do meigo e atencioso Oscar.

“As Noites de Cabíria ” marca-nos forma convincente de nos mostrar o contraste entre inocência e cinismo. Num mundo caótico, que é ele próprio uma contínua noite de episódios descorrelacionados, pintados de um preto e branco saturado, com a intrusiva música festiva de Nino Rota, e onde a interpretação de Masina é por vezes tão circense como a da sua personagem de “La Strada”, Cabíria fascina-nos. Por isso, quando, ao ter a maior das desilusões e perder tudo, Cabíria só pode chorar, quase choramos com ela. E por isso, quando nesse momento de definitiva tristeza e desespero, a passagem de um grupo de jovens que cantam e dançam a faz sorrir, somos nós que sentimos que a esperança ainda é possível. É certamente isso que Cabíria nos diz num olhar, quando quebra a quarta parede e procura a nossa cumplicidade.

Fellini disse um dia que de todas as suas personagens, Cabíria era aquela que mais o atormentava, pois dava por si a pensar que queria saber como ela estava. É o drama que carregamos, sem sabermos o futuro da nossa história, mas esperançados de que possa sempre melhorar. Por isso Cabíria somos todos nós.

“As Noites de Cabíria” foi o maior sucesso de Fellini até então com o Oscar de Melhor Filme de Língua Estrangeira, o prémio de Melhor Actriz em Cannes para Masina, os David di Donatello da indústria italiana de Melhor Realização e Filme, além de outros prémios internacionais. Era também o último filme de Fellini onde a narrativa linear e o fundo realista dominavam.

Giulietta Masina em "As Noites de Cabíria" (Le notti di Cabiria, 1957) de Federico Fellini

Produção:

Título original: Le notti di Cabiria; Produção: Dino de Laurentiis Cinematografica / Les Films Marceau; País: Itália/França; Ano: 1957; Duração: 118 minutos; Distribuição: Paramount Films of Italy Inc. (Itália), British Film Institute (BFI) (Reino Unido), Constantin Film (RFA), Les Films Marceau (França), Lopert Films (EUA); Estreia: 11 de Maio de 1957 (Cannes Film Festival, França), 3 de Outubro de 1957 (Itália), 27 de Novembro de 1957 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Federico Fellini; Produção: Dino De Laurentiis; Produtor Associado: ; Argumento: Federico Fellini, Ennio Flaiano, Tullio Pinelli; Colaborador no Argumento: Pier Paolo Pasolini; Música: Nino Rota; Canção “Lla Ri Lli Ra”: Nino Rota e Pasquale Bonagura; Direcção Musical: Franco Ferrara; Fotografia: Aldo Tonti [preto e branco]; Montagem: Leo Cattozzo; Design de Produção: Piero Gherardi; Direcção Artística: ; Figurinos: Piero Gherardi; Caracterização: Eligio Trani, Dante Trani [não creditado]; Direcção de Produção: Luigi De Laurentiis.

Elenco:

Giulietta Masina (Maria ‘Cabíria’ Ceccarelli), Amedeo Nazzari (Alberto Lazzari), François Périer (Oscar D’Onofrio), Franca Marzi (Wanda), Dorian Gray (Jessy), Aldo Silvani (O Ilusionista), Ennio Girolami (Hamlet, ‘il magnaccia’), Mario Passante (Tio de Hamlet), Christian Tassou.

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