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Il Bidone Augusto (Broderick Crawford), Picasso (Richard Basehart) e Roberto (Franco Fabrizi), são três amigos que vivem de golpes onde vigarizam incautos, sem se preocupar que estes sejam pessoas com mais dificuldades que eles próprios. Entre os golpes divertem-se na noite de Roma, vangloriando-se até ao próximo esquema ilegal. Só que o vazio das suas vidas aos poucos começa a tolhê-los. Se Picasso tem no casamento com Iris (Giulietta Masina) a força que lhe poderá corrigir o rumo, já Augusto, perdida a hipótese de agradar à filha, vê-se perdido nos seus velhos hábitos, sem saber como sair. Por entre eles, Roberto, um verdadeiro playboy, vive a sua vida de pequeno criminoso com alegria.

Análise:

Continuando a sua saga de descrição de vidas de personagens perdedores, os «vencidos da vida» (para usar a expressão portuguesa do final do século XIX), Fellini, sempre coadjuvado por Tullio Pinelli, Ennio Flaiano, depois de nos mostrar saltimbancos de artes menores, a geração dos inúteis, e artistas de circo sem eira nem beira, trazia-nos agora um olhar sobre um grupo de pequenos burlões, sem qualquer perspectiva de vida que não fosse chegar ao dia seguinte.

É a história de Augusto (Broderick Crawford), Picasso (Richard Basehart) e Roberto (Franco Fabrizi), três amigos que vivem de golpes de burla a incautos, seja a pessoas do campo, seja na cidade, vendendo artigos falsos que fazem passar por pequenos tesouros. Se Augusto, o mais reverente do grupo, é um quarentão, com uma filha pequena, e que começa a pensar que vida quer para si, já Roberto, um verdadeiro playboy, parece perfeitamente adequado a estes golpes, que vive com alegria. Entre eles está Picasso, um pintor frustrado, de retórica fluente, mas cujo casamento com Iris (Giulietta Masina) o faz colocar novas prioridades na sua vida.

Vemo-los numa burla na província, onde se fazem passar por homens do clero que procuram um tesouro enterrado por um criminoso, e que (obviamente falso) entregam a troco de um pequeno pecúlio monetário. Vemo-los na cidade a traficar relógios de contrabando. Mas vemo-los também nas festas entre os seus pares, onde bebem e gastam o dinheiro, e se entregam a conquistas fáceis. Figura à parte é a dócil Iris que, por mais que evite, acaba por perceber que o seu Picasso é apenas mais um, entre os vigaristas que ela despreza.

Talvez o que marque mais no olhar de Fellini, em “O Conto do Vigário”, seja a forma desapaixonada, quase documental, com que retrata os seus protagonistas. Mesmo que passe algum tempo a descrever-nos a situação de cada um, e o seu enquadramento pessoal fora dos golpes (a família de Picasso, a relação de Augusto com a filha), Fellini regressa sempre ao olhar distante, de fora, para um conjunto de homens que se restringe a seguir velhas fórmulas, mesmo que no final delas esteja apenas a perdição. É com base nesta ideia que o filme avança, principalmente no contraste entre as decisões de Picasso, que cede à pressão da esposa, e abandona a vida de burlão, e a de Augusto, que, já ciente de não querer continuar numa vida vazia, se deixa arrastar para mais um golpe.

É essa mesma consciência que leva Augusto a começar a repudiar o que faz, o que o vai colocar em litígio com os seus pares, numa prova de que é a moralidade e a imoralidade que estão em conflito em “O Conto do Vigário”, e que a transição entre ambos os estados pode ser traumática e mesmo desastrosa, como o mostra a espécie de «redenção» de Augusto, que não chega com boas acções, mas sim com a consciência tardia do arrependimento pela sua vida.

Para Fellini é um novo olhar com laivos de Neo-realismo, mas sem a preocupação das razões sociais, e com algo da sua atmosfera freneticamente circense, como o espelha a banda sonora de Nino Rota. Filmando os dias com tons saturados, e as noites com uma profundidade subtil, Fellini guia-nos por viagens que nos colocam ao lado dos seus anti-heróis, e onde o personagem de Broderick Crawford tem tanto de predador como de trágico, numa interpretação desconcertante e comovente. Acima de tudo, por entre a distância com que Fellini tenta tratar o tema, o que fica é um olhar de compaixão para os tais «vencidos da vida», afinal, todos nós.

Produção:

Título original: Il Bidone [Título inglês: The Swindlers]; Produção: Titanus / Société Générale de Cinématographie (S.G.C.); Produtores Executivos: ; País: Itália/França; Ano: 1955; Duração: 108 minutos; Distribuição: Titanus Distribuzione (Itália), Intra Films, Italy (Internacional); Estreia: 9 de Setembro de 1955 (Festival de Veneza, Itália), 7 de Outubro de 1955 (Itália), 5 de Outubro de 1956 (Cinema Éden, Portugal).

Richard Basehart, Franco Fabrizi e Broderick Crawford em "O Conto do Vigário" (Il Bidone, 1955) de Federico Fellini

Equipa técnica:

Realização: Federico Fellini; Produção: Silvio Clementelli [não creditado], Charles Delac [não creditado], Mario Derecchi [não creditado], Goffredo Lombardo [não creditado]; Produtor Associado: ; Argumento: Federico Fellini, Ennio Flaiano, Tullio Pinelli; Música: Nino Rota; Direcção Musical: Franco Ferrara; Fotografia: Otello Martelli [preto e branco]; Montagem: Mario Serandrei, Giuseppe Vari; Design de Produção: Dario Cecchi; Direcção Artística: ; Cenários: Massimiliano Capriccioli; Figurinos: Dario Cecchi; Caracterização: Eligio Trani; Efeitos Especiais: ; Efeitos Visuais: ; Direcção de Produção: Giuseppe Colizzi.

Elenco:

Broderick Crawford (Augusto), Giulietta Masina (Iris), Richard Basehart (Picasso), Franco Fabrizi (Roberto), Sue Ellen Blake (Anna), Irene Cefaro (Marisa), Alberto De Amicis (Rinaldo)
Lorella De Luca (Patrizia), Giacomo Gabrielli (O Barão Vargas), Riccardo Garrone (Riccardo), Paul Grenter, Emilio Manfredi, Lucetta Muratori, Mario Passante, Sara Simoni, Xenia Valderi (Luciana), Mara Werlen (Maggie), Maria Zanoli (Stella Florina), Ettore Bevilacqua (Homem Burlado), Arnoldo Foà (dobragem de voz de Broderick Crawford) [não creditado], Nino Manfredi (dobragem de voz de Alberto De Amicis) [não creditado], Enrico Maria Salerno (dobragem de voz de Richard Basehart) [não creditado].

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