Etiquetas

, , , , , , , , , ,

Four Sons Numa aldeia da Baviera, a viúva Bernle (Margaret Mann) vive orgulhosa dos seus quatro filhos. Eles são: Franz (Francis Bushman Jr.), um soldado, Johann (Charles Morton), um ferreiro, Andreas (George Meeker), um pastor, e Joseph (James Hall), o mais divertido e amado de todos. Mas em breve o idílio campestre vai terminar. Primeiro é Joseph que recebe uma carta de um amigo nos EUA, convidando-o para ir trabalhar consigo. Depois, com a guerra, Franz e Johann vão lutar, acabando por morrer. Resta Andreas, forçado a alistar-se pela Alemanha, numa altura em que, com a entrada norte-americana na guerra, Joseph luta pelo outro lado. Adiada continua a promessa de Joseph de levar a mãe a viver consigo, para conhecer a esposa Annabelle (June Collyer) e o seu filho recém-nascido.

Análise:

Em 1928, John Ford era já um dos realizadores mais profícuos de Hollywood, com uma obra extensa, de várias dezenas de filmes, iniciada em 1917, que ainda não o tinham constituído como o rei do western clássico, em que se tornaria nas décadas seguintes, e dos quais poucos nos chegariam. Um desses poucos filmes é “Os Quatro Filhos”, um drama de guerra baseado numa história de I. A. R. Wylie, publicada dois anos antes no Saturday Evening Post, sob o título “Grandmother Bernle Learns Her Letters”.

Com argumento de Philip Klein, e produção do próprio Ford para a Fox de William Fox, nas vésperas do acidente que o deixaria fora do controlo da produtora que, com o crash da bolsa do ano seguinte, deixaria de dirigir, “Os Quatro Filhos” conta a história da Mãe Bernle (Margaret Mann), uma viúva alemã, de Burgendorf, na Baviera, orgulhosa dos seus filhos. Estes são Franz (Francis Bushman Jr.), um soldado, Johann (Charles Morton), que trabalha como ferreiro, Andreas (George Meeker), um pastor, e Joseph (James Hall) que se diverte conquistando as raparigas da aldeia. É Joseph que recebe uma carta de um amigo nos EUA, convidando-o para ir trabalhar consigo, algo em que ele pensa mais fortemente, depois de um recontro com o cruel Major von Stomm (Earle Foxe). Depois da festa de aniversário da Mãe Bernle, esta consegue o dinheiro suficiente, e Joseph viaja, prometendo que um dia a virá buscar. Nos EUA, Joseph casa com Annabelle (June Collyer) e abre uma loja de produtos alimentícios alemães.

Entretanto na Europa rebenta a guerra, e Franz e Johann vão lutar, acabando por morrer. Com a entrada dos EUA na guerra, também Joseph tem de combater pelo lado americano, o que leva o Major von Stomm a ameaçar uma mãe destroçada, chamando-lhe mãe de um traidor (Joseph), e levar-lhe Andreas, o último filho, para combater. Quer o destino que Joseph e Andreas se encontrem na frente de batalha, com o segundo a morrer nos braços do primeiro. Finda a guerra Joseph cumpre a sua promessa, fazendo a mãe viajar para estar consigo, para o que esta tem ainda de passar o teste de aprender a ler.

Com um texto puramente dramático, John Ford conta-nos uma história de guerra, que é, em simultâneo, uma história da emigração da Europa para os Estados Unidos, algo a que ele era familiar, afinal de origem irlandesa e também ele um emigrado. O filme tem por isso duas faces claras. De um lado a Alemanha tradicional bonacheirona, de festas tradicionais e rituais enraizados. Do outro a América do progresso, oportunidades e conforto.

O primeiro lado é-nos mostrado no primeiro terço do filme. É a Alemanha tradicional onde tudo nos parece um idílio. Nela, a família Bernle é feliz, em comunhão com a natureza, os amigos, e a alegria do trabalho. Vemos (numa apresentação demasiado académica) os quatro filhos da Mãe Bernle, que trabalham, servem a pátria, e se divertem, sob o olhar enlevado da mãe e vizinhos. Estes, através do ar patusco, quer do prefeito, do mestre-escola ou do carteiro (cujo pavoneamento da farda nos remete imediatamente para Emil Jannings e o seu porteiro de “O Último dos Homens” (Der letzte Mann, 1924) de F. W. Murnau), sempre presentes, como se mostra na animada festa de aniversário da Mãe Bernle, ou no modo ora esfuziantemente alegre, ora pesadamente pesaroso do carteiro quando tem notícias a entregar.

Esse idílio, que é como quem diz essa velha Europa de prazeres simples e relações inocentes (que é assim que Ford a vê), termina com o início da guerra. Aí dominam figuras como o sádico Major von Stomm, domina a morte e a dor, a desconfiança e coacção. Por entre tudo, destaca-se, sempre, a figura da Mãe Bernle, uma espécie de força da natureza, que representa a continuidade e a vida, numa força infindável, relembrando bastante o papel de Vera Baranovskaya como a nominal protagonista do filme soviético “A Mãe” (Mat/Мать, 1926) de Vsevolod Pudovkin. Como ela, também Margaret Mann se destacou pela força da sua interpretação.

Do lado oposto temos os Estados Unidos, onde vemos sempre o bulício da cidade, o trânsito e movimento, características do progresso. É nesse ambiente de futuro que Joseph é o único dos Bernle a dar um neto à sua mãe, vivendo num novo idílio, de paz e prosperidade, para onde quer levar a mãe. Mais que marcar pelas cenas de acção, a guerra acaba por surgir apenas como um expediente dramático, que culmina no encontro dos irmãos Joseph e Andreas, com o primeiro a viver (representando o futuro moderno) e o segundo a morrer (representando a velha Europa acabada). Tudo isto é reforçado na sequência final, quase um hino à emigração, com a velha Mãe Bernle a fazer tudo (incluindo aprender a ler) para ir viver nos Estados Unidos com o filho, numa aceitação dessa superioridade do Novo Mundo em relação ao Velho.

Pela estética, nota-se em “Os Quatro Filhos” influências do expressionismo alemão. Murnau trabalhava então também na Fox, e os cenários de “Aurora” (Sunrise, 1927) foram usados para este filme de Ford. Temos toda a ideia da decadência de um mundo como pano de fundo. Há travellings dinâmicos que lembram o melhor Fritz Lang. E há, claro, um uso da sombra de maneira simbólica, como a célebre cena da entrega da carta fatídica do carteiro, que vemos apenas em sombra, num exemplo do uso da sombra, muitas vezes nos contraluz típicos do expressionismo, e num chiaroscuro que moldava sentimentos, como acontece nas sequências da guerra, ou no negrume da festa de aniversário da Mãe Bernle, já após a perda dos filhos.

Embora mudo, “Os Quatro Filhos” contava já com o novo sistema Movietone que permitia sincronizar uma banda sonora de música e efeitos com a projecção. O resultado foi um enorme sucesso que bateu recordes de assistência. O filme conta ainda com um não creditado John Wayne, futura presença assídua na obra de John Ford, e a curiosa presença do Arquiduque Leopoldo da Áustria no papel de um capitão.

Produção:

Título original: John Ford; Produção: Fox Film Corporation; Produtor Executivo: William Fox; País: EUA; Ano: 1928; Duração: 96 minutos; Distribuição: Fox Film Corporation; Estreia: 13 de Fevereiro de 1928 (EUA), 17 de Julho de 1929 (Conema Ódeon, Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Four Sons; Produção: John Ford; Argumento: Philip Klein [a partir da história de I. A. R. Wylie]; Música: Carli Elinor [não creditado], Erno Rapee [não creditado]; Orquestração: Maurice Baron [não creditado]; Fotografia: George Schneiderman, Charles G. Clarke [preto e branco]; Montagem: Margaret Clancey; Figurinos: Kathleen Kay.

Elenco:

Margaret Mann (Mãe Bernle), James Hall (Joseph, Seu Filho), Charles Morton (Johann, Seu Filho), Francis Bushman Jr. (Franz, Seu Filho), George Meeker (Andreas, Seu Filho), June Collyer (Annabelle), Earle Foxe (Major von Stomm), Albert Gran (O Carteiro), Frank Reicher (O Mestre-Escola), Arquiduque Leopoldo da Áustria (Um Capitão), Ferdinand Schumann-Heink (Um Cirurgião Militar), Jack Pennick (O Homem do Gelo).

Anúncios