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The Last Command Quando procura actores para um filme de guerra, um realizador (William Powell) escolhe para o papel de um general um velho imigrante russo reduzido à penúria (Emil Jannings). Só que, uma década antes, este fora o poderoso Grão-duque Sergius Alexander, comandante das tropas czaristas, a quem um dia foram entregues dois revolucionários bolcheviques. Se o primeiro (o futuro realizador) foi maltratado e preso, já a segunda (Evelyn Brent) chamou a atenção do Grão-duque, que acabou por lhe revelar a sua humanidade e amor pela pátria, que a cativou, apesar das diferenças ideológicas, levando a que mais tarde ela lhe salvasse a vida.

Análise:

Em 1928, já sob direcção executiva de B. P. Schulberg, a Famous Lasky de Adolph Zukor e Jesse L. Lasky ia-se transformando em Paramount, dado o peso no grupo da cadeia de distribuição com este nome. É nesse ano, sob a chancela Paramount, que Josef von Sternberg volta a realizar mais um grande sucesso para a produtora, na forma de “A Última Ordem”, um filme inspirado pela figura real do ex-general russo Lodijenski, que terminou os seus dias em Hollywood, como figurante em filmes e a trabalhar num restaurante.

Com o famoso actor alemão Emil Jannings como protagonista, Sternberg conta uma história de Lajos Biró, que mescla os bastidores de Hollywood com o drama histórico dos tempos da então ainda recente revolução russa. Tal acontece na história do Grão-duque Sergius Alexander (Emil Jannings), que vemos como um idoso figurante de filmes, escolhido por um realizador (William Powell), e que mostra um tique no pescoço que incomoda os seus colegas no estúdio. Ele conta então como o obteve, transportando-nos, em flashback, à revolução russa, onde foi o chefe dos exércitos czaristas. Um dia, sendo-lhe chamada a atenção sobre dois actores que eram agentes revolucionários, o Grão-duque mandou prendê-los para os interrogar. Um deles, Lev Andreyev (William Powell), respondendo com insolência, foi chicoteado, enquanto a outra, a bela Natalie Dabrova (Evelyn Brent), cativou a atenção do general. O Grão-duque e Natalie passam algum tempo juntos, durante o qual ele se apaixona por ela, que convencida do amor dele à Rússia, deixa de o ver como inimigo, recusando-se a matá-lo quando tem oportunidade. Mas os revoltosos conseguem apoderar-se do comboio onde o Grão-duque seguia com as suas tropas, e este só é salvo pela intervenção de Natalie, que o ajuda a fugir, enquanto o comboio descarrila num lago gelado, matando todos os ocupantes.

No presente dia, o Grão-duque é pobre e tem de aceitar trabalhos menores. Tendo-o reconhecido, o realizador, e ex-revolucionário Lev Andreyev, procura vingança pela chicotada, recrutando-o como o general do seu filme. Durante a cena filmada, o general tem de chicotear um dos homens, o que o leva, em transe, a reviver o passado, falando como se ainda estivesse na Rússia. O seu comovente discurso acaba por matá-lo, ao mesmo tempo que convence o realizador de que era um homem nobre.

Passando a um tema da sua Europa natal, Sternberg baseia-se na revolução russa para contar uma história de honra e nobreza, na pele de um general czarista. Embora sem explícitas alusões políticas, lê-se nas entrelinhas um posicionamento claro, onde os revolucionários são cruéis e têm, mesmo entre si, comportamentos selváticos, e mesmo sem que haja uma colagem à posição monárquica, há uma clara simpatia pela ideia de uma nobreza que vem de dentro. É essa a nobreza do Grão-duque Sergius Alexander, que se traduz num amor altruísta à sua pátria, para lá de ideologias ou fidelidades cegas. É por ela que o Grão-duque despreza ordens de cima, que resultariam na morte vã dos seus homens, e é por ela que o Grão-duque se deixa levar pelo amor de uma mulher que pode vir a matá-lo. A sequência em que ele encontra uma arma escondida, e dá as costas à sua oponente, é como que uma declaração de amor em forma de sacrifício, na qual ele nos mostra que se coloca à disposição dela, ou seja, que está disposto a morrer às suas mãos, caso seja essa a vontade dela.

Essa nobreza, representada exemplarmente pelo grande Emil Jannings, é reconhecida pela sua presa, e amada, a personagem de Evelyn Brent, que assim (cativa e captora em simultâneo), se lhe entrega para sua própria surpresa, na prova de que o respeito e admiração transcendem ideologias. Ambos passam por transformações, ambos crescem como pessoas graças ao seu encontro, o qual será trágico para os dois.

Contado em flashback, numa história de tragédia anunciada (aliás duas, tanto a do passado, como a do presente), “A Última Ordem” é acima de tudo, um veículo para Emil Jannings brilhar, interpretando quase um duplo papel, o do orgulhoso Grão-duque e o do acabado figurante de um filme, algo reminiscente do decadente idoso de “O Último dos Homens” (Der letzte Mann, 1924), de F. W. Murnau, onde, como aqui, também a farda carregava um peso a que a figura humana já não correspondia, num papel adequado para as propensões miserabilistas de Jannings. Numa e noutra parte do filme, Jannings prende-nos a atenção, quer como o homem acabado com um intrigante tique nervoso no pescoço, quer como o poderoso militar que conduz a guerra contra os revolucionários.

A não desprezar está ainda o olhar crítico para o cinema de Hollywood, que os instantes iniciais mostram como uma linha de montagem desumana, onde os figurantes são tratados como carne para canhão, quase num paralelo com o que acontece na guerra.

Esse é apenas um exemplo do modo como Sternberg conduz o filme, com um conjunto de interpretações viscerais, numa sequência de golpes e contra-golpes que o mantêm sempre vivo, intrigante e cheio de acção, numa narrativa que não pára de avançar, quer para nos satisfazer curiosidades, como para criar novas, e por fim, para resolver os desenlaces dramáticos de forma fulgurante, como o são o acidente do comboio, ou a tensão que leva à consciência final do realizador de que o homem que o prendeu, e que agora ele queria humilhar era, afinal, merecedor do seu respeito.

Por essa complexidade de sentimentos, e evolução do seu personagem, Emil Jannings venceria aquele que foi o primeiro Oscar de Melhor Actor. O seu prémio foi então atribuído pela prestação em dois filmes, este “A Última Ordem” e “A Tortura da Carne” (The Way of All Flesh, 1927) de Victor Fleming, um filme hoje perdido. Jannings seria uma das vítimas do advento do sonoro, devido ao seu forte sotaque alemão. Por essa razão, sendo uma estrela nos anos 20, o actor desapareceu logo de seguida, deixando Hollywood, e tornando-se depois infame na história do cinema pelo seu declarado apoio ao regime Nazi.

Evelyn Brent e Emil Jannings em "A Última Ordem" (The Last Command, 1928) de Josef von Sternberg

Produção:

Título original: The Last Command; Produção: Paramount Famous Lasky Corporation; Produtores Executivos: Adolph Zukor, Jesse L. Lasky; País: EUA; Ano: 1928; Duração: 88 minutos; Distribuição: Paramount Pictures; Estreia: 21 de Janeiro de 1928 (EUA), 18 de Fevereiro de 1929 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Josef von Sternberg; Produtor Associado: B. P. Schulberg; Argumento: John F. Goodrich, Josef von Sternberg [a partir de uma história de Lajos Biró]; Intertítulos: Herman J. Mankiewicz; Fotografia: Bert Glennon [preto e branco]; Montagem: William Shea; Direcção Artística: Hans Dreier; Guarda-roupa: Travis Banton.

Elenco:

Emil Jannings (Gen. Dolgorucki / Grão-duque Sergius Alexander), Evelyn Brent (Natalie Dabrova), William Powell (Lev Andreyev), Jack Raymond (Realizador Adjunto), Nicholas Soussanin (Assistente), Michael Visaroff (Serge, O Valet), Fritz Feld (Revolucionário).

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